A tentativa francesa de reaproximar Ucrânia e Rússia no Mar Negro naufraga antes mesmo de zarpar. Em declaração à imprensa na quarta-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou as propostas de Paris como “irrealistas” e insistiu que qualquer acordo deve reconhecer a anexação da Crimeia. Do lado ucraniano, o ministro das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba, respondeu com dureza: “Não há diálogo possível enquanto navios russos bloquearem nossos portos.”
O cenário revela o fracasso da abordagem intervencionista francesa. Desde o início da guerra, Emmanuel Macron tenta se posicionar como mediador, mas acumula reveses. Em publicação nas redes sociais, o presidente francês defendeu uma “solução negociada” que garanta a livre navegação no Mar Negro, sem, no entanto, apresentar mecanismos concretos. O resultado é um impasse que custa caro à economia global e, em especial, aos contribuintes franceses.
A questão central é o corredor de grãos. Em julho de 2023, a Rússia abandonou o acordo patrocinado pela ONU e pela Turquia, alegando que as sanções ocidentais impediam suas exportações de fertilizantes. Desde então, a Ucrânia passou a usar uma rota alternativa ao longo da costa romena, mas com capacidade reduzida. Segundo a Comissão Europeia, as exportações de milho e trigo ucranianos caíram 40% em relação ao período anterior ao acordo.
Por que isso importa para a França? O país é o maior produtor agrícola da União Europeia e depende de mercados abertos para escoar sua produção. Cada tonelada de grão que deixa de sair da Ucrânia pressiona os preços internos europeus e encarece a cesta básica francesa. Em entrevista à Rádio France Inter, o economista Jean-Marc Daniel afirmou que “o protecionismo russo e as sanções mal calibradas criam um custo de 0,3% do PIB francês por ano”.
A análise FORTIS aponta que o erro francês é duplo. Primeiro, ao insistir em negociações com um regime que não respeita contratos — a Rússia já violou o acordo de grãos duas vezes. Segundo, ao subsidiar agricultores franceses para compensar a perda de competitividade, em vez de pressionar por abertura total dos mercados. A solução liberal passaria por eliminar barreiras alfandegárias e estimular a concorrência, não por mesas de diálogo que só servem para adiar problemas.
O contraponto vem da diplomacia francesa. Em nota oficial do Ministério das Relações Exteriores, o governo argumenta que “sem mediação, o risco de escalada militar no Mar Negro é alto” e que “a França tem responsabilidade histórica na segurança europeia”. De fato, uma guerra naval direta entre Rússia e Ucrânia poderia interromper o tráfego de petróleo e gás no Bósforo, afetando o abastecimento francês. Contudo, a história recente mostra que a Rússia só recua diante de força ou de sanções econômicas severas, não de conversas.
Enquanto Paris aposta em palavras, Moscou age. Em discurso no Fórum Econômico Oriental, Vladimir Putin afirmou que a Rússia está “pronta para exportar grãos a preços competitivos” para países africanos, minando a posição ucraniana. A estratégia russa é clara: usar o Mar Negro como arma geopolítica, e a França, ao tentar agradar os dois lados, perde credibilidade.
Para o liberalismo, a lição é evidente. Mercados livres e Estado de Direito são os únicos capazes de resolver conflitos de forma duradoura. A França deveria abandonar o papel de mediador e adotar sanções mais duras contra a Rússia, incluindo a proibição de seguros para navios russos no Mar Negro. Ao mesmo tempo, deveria eliminar subsídios agrícolas internos, permitindo que produtores franceses e ucranianos compitam em igualdade. O custo do protecionismo é maior que o da abertura.
Por Renan Filho · 2026-09-20