Donald Trump não cansa de repetir: a guerra na Ucrânia terminará “muito mais cedo do que as pessoas imaginam”. Desta vez, a frase foi dita em rápida entrevista ao lado de seu vice, J.D. Vance, durante passagem por Michigan. “Estou em contato direto com ambos os lados. O acordo está sendo costurado. Será algo bom para todo mundo, menos para os burocratas de Bruxelas”, declarou Trump, segundo transcrição divulgada pela equipe de campanha.
A declaração ocorre em meio ao avanço das conversas informais entre enviados americanos e russos, confirmadas por fontes do Departamento de Estado à Reuters. O Kremlin, por sua vez, em nota oficial, disse “avaliar com seriedade as propostas vindas de Washington”. A Ucrânia, pressionada pela falta de munição e pelo cansaço ocidental, sinalizou abertura a negociações sem a exigência prévia da retirada total das tropas russas.
Por que isso importa para a França? Porque Paris sempre liderou a ala dura dentro da União Europeia. O presidente Emmanuel Macron, em discurso no Parlamento Europeu em julho, defendeu “paz apenas com justiça” – e justiça, na visão francesa, inclui julgamento de crimes de guerra e reparações. Um acordo rápido, mediado por Trump, jogaria por terra meses de retórica francesa e exporia a fragilidade da estratégia europeia.
A análise FORTIS é direta: o mercado de paz está sendo regulado por interesses políticos, não por realismo militar. Enquanto França e Alemanha insistem em sanções eternas e rearmamento ucraniano, Trump enxerga o conflito como um custo econômico insustentável para o contribuinte americano. O livre comércio de armas e grãos foi interrompido; a energia russa foi substituída por gás americano mais caro. Uma paz rápida, mesmo que imperfeita, reduz a inflação global e reabre rotas comerciais.
O contraponto vem de analistas franceses. Em artigo no Le Figaro, o ex-ministro Hubert Védrine escreveu que “um acordo sem garantias de segurança para a Ucrânia seria uma rendição disfarçada”. Ele alerta que Trump pode aceitar a anexação de facto de territórios ocupados, algo que Paris jamais reconheceria. Ainda assim, o próprio governo francês admite, em off, que a margem de manobra é pequena: sem os EUA, a Europa não sustenta a Ucrânia financeiramente por mais um ano.
A pressão sobre Macron aumenta. Pesquisa do instituto Ifop divulgada nesta semana mostra que 58% dos franceses apoiam negociações imediatas, mesmo que envolvam concessões territoriais. A opinião pública, cansada da inflação energética e da imigração descontrolada, já não compra o discurso de “defesa da civilização europeia”. Trump, com sua linguagem direta e promessa de paz, capitaliza sobre esse cansaço.
O ex-presidente americano não é ingênuo. Ele sabe que um acordo prematuro pode desagradar parte do eleitorado neoconservador. Por isso, condicionou publicamente o avanço a “garantias de que a Ucrânia não será usada como trampolim da Otan contra a Rússia”. Em outras palavras, Trump quer um pacto de neutralidade – algo que a França sempre rejeitou, mas que pode ser o único caminho viável.
Enquanto isso, o tempo corre contra Kiev. As forças russas avançam no Donbass, e a ajuda militar americana aprovada pelo Congresso ainda não chegou integralmente. Se Trump vencer em novembro, a política externa americana dará uma guinada de 180 graus. E a França, que apostou todas as fichas na resistência ucraniana, pode ficar isolada, assistindo a um acordo que não assinou.
Por Renan Filho · 2026-09-22