FORTIS
← FORTIS
Politica

“Essa oposição supera todas as clivagens”: no Texas, a revolta contra os data centers cresce

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

Comunidades locais, legisladores republicanos e ativistas democratas unem forças contra a expansão dos data centers no Texas, que consomem energia e água em escala industrial. A aliança incomum expõe o dilema do livre mercado diante do planejamento central.

No Texas, a instalação de novos data centers se tornou o epicentro de uma batalha política que rompe as tradicionais fronteiras partidárias. De um lado, gigantes da tecnologia prometem empregos e investimentos bilionários; de outro, moradores e autoridades locais denunciam o esgotamento da rede elétrica e o consumo desenfreado de água. O que chama a atenção não é a resistência em si, mas a amplitude dela: “Essa oposição supera todos os clivagens”, escreveu o comissário do Condado de Hays, Mark Jones, em publicação nas redes sociais. “Aqui, o cidadão comum, o agricultor e o engenheiro de software dizem a mesma coisa: chega.”

O movimento ganhou força após sucessivos apagões no verão de 2025, quando a demanda dos data centers sobrecarregou o sistema elétrico do Conselho de Confiabilidade Elétrica do Texas (ERCOT). Em julho, a ERCOT pediu que os grandes consumidores reduzissem o uso em 5% para evitar um colapso geral, mas a medida gerou o efeito inverso: a população passou a enxergar os data centers como parasitas do sistema. Em Austin, um grupo de moradores chegou a bloquear a entrada de uma obra da Meta, alegando que a construção drenaria aquíferos locais. A polícia foi acionada, mas a imagem de cidadãos comuns enfrentando seguranças privados de multinacionais correu o mundo.

O cerne da discórdia é o modelo de incentivos fiscais que o Texas adotou para atrair essas operações. O Capítulo 313 do Código de Impostos do Estado, que expirou em 2022, mas foi substituído por programas similares, permite que municípios ofereçam isenções de até 80% sobre a propriedade por até dez anos. Em troca, as empresas se comprometem a criar um número mínimo de empregos — frequentemente irrisório se comparado ao impacto na infraestrutura. Um relatório da Comissão de Água do Texas apontou que um único data center de 1 GW consome, por ano, água suficiente para abastecer 30 mil residências. “Não somos contra a tecnologia, somos contra a transferência de custos para o contribuinte”, declarou a deputada estadual republicana Ellen Troxclair, em entrevista à rádio local KUT. “Isso não é plano de Estado, é capitalismo de compadrio.”

A ironia não passa despercebida: o Texas, símbolo máximo do liberalismo econômico nos EUA, tornou-se o palco de uma das maiores alianças entre a esquerda ambientalista e a direita libertária. Representantes do Partido Democrata do Condado de Travis e membros do Tea Party se revezaram em uma coletiva de imprensa conjunta no Capitólio estadual, em setembro, para exigir a revogação dos incentivos. “Quando a rede elétrica está prestes a colapsar, ninguém se importa se o seu partido quer proteger o meio ambiente ou cortar impostos”, afirmou a ativista local Sarah Mitchell, em discurso transmitido pelo canal C-SPAN. “A única clivagem que importa é entre quem consome e quem é consumido.”

Para o FORTIS NEWS, o caso texano é um clássico exemplo de como a intervenção estatal distorce o livre mercado. Sem os subsídios e as isenções, os data centers não se instalariam em regiões sem capacidade energética instalada — eles iriam para locais onde a infraestrutura acompanhasse a demanda. O problema não é a falta de regulação, mas o excesso dela: quando o Estado escolhe vencedores, o contribuinte paga a conta. A solução liberal seria eliminar os incentivos e permitir que o preço da energia e da água refletisse a escassez real, forçando as empresas a internalizar os custos ambientais. Se a operação não for viável sem subsídio, ela não é viável — ponto final.

No entanto, há quem defenda que a saída não é simplesmente deixar o mercado agir, dado o monopólio natural das concessionárias de energia. O Texas opera com um mercado desregulamentado, mas as linhas de transmissão e a geração ainda dependem de decisões centralizadas da ERCOT, que historicamente subestimou o crescimento da demanda digital. Em audiência pública no Senado estadual, o diretor de operações da ERCOT, Pedro Ramirez, admitiu que a agência não previu o ritmo de instalação dos data centers. “A indústria cresceu mais rápido do que a nossa capacidade de planejar”, disse Ramirez, em depoimento transmitido ao vivo. “Agora estamos correndo atrás do prejuízo.”

O contraponto vem das próprias empresas de tecnologia, que argumentam que os data centers são vetores de desenvolvimento econômico em regiões rurais. Em nota oficial, a Data Center Coalition, associação que representa o setor, afirmou que “os data centers geram empregos de alta renda, aumentam a arrecadação municipal e impulsionam a inovação em energias renováveis”. A entidade citou o caso de Lubbock, onde a instalação de um campus da Oracle trouxe 400 empregos diretos e atraiu fornecedores locais. Mas os críticos rebatem que esses empregos são majoritariamente temporários e que o custo de infraestrutura recai sobre as famílias de baixa renda, que pagam tarifas de energia mais altas.

O impasse no Texas pode ter efeitos nacionais. Pelo menos 12 estados, incluindo Geórgia, Arizona e Ohio, já discutem projetos de lei para restringir a instalação de data centers até que as concessionárias demonstrem capacidade de atender à demanda. No Texas, a pressão popular levou o governador Greg Abbott a criar um grupo de trabalho, em agosto, para revisar o modelo de incentivos. Mas, até o momento, nenhuma ação concreta foi tomada. Enquanto isso, a revolta cresce nas comunidades rurais, onde o sentimento é de que o governo estadual se curva aos interesses das big techs. “Nós não fomos consultados”, disse o fazendeiro Tomás Herrera, em entrevista ao jornal The Texas Tribune. “Eles chegaram com a máquina, cavaram a terra e foram embora com a água.”

A questão que fica é: até quando o Texas tolerará essa distorção do livre mercado? A resposta pode estar na própria natureza do movimento de resistência, que une ideologias opostas em um objetivo comum. O que os data centers revelaram não é uma falha do capitalismo, mas a falha do capitalismo de compadrio — aquele que usa o poder estatal para privatizar lucros e socializar prejuízos. Se o Texas quer continuar sendo o farol da liberdade econômica, terá que aprender que liberdade também significa responsabilidade de não drenar os recursos daqueles que não assinaram o contrato.

Enquanto isso, a cena política local se polariza ainda mais. Grupos de extrema-direita usam o tema para atacar a imigração e a globalização, enquanto a esquerda vê na luta contra os data centers uma oportunidade de renovar sua base. Mas, para o cidadão comum, a motivação é mais simples: ter energia suficiente para ligar o ar-condicionado no verão e água potável para a família. Nesse sentido, a aliança improvável pode ser o embrião de um novo movimento político, que transcende os rótulos e coloca o bom senso acima da ideologia. O Texas, mais uma vez, ensina ao mundo que o pragmatismo é a forma mais pura de radicalismo.

No fim das contas, a expansão dos data centers é um teste de fogo para o liberalismo texano. Se o Estado não recuar, estará confirmando que a liberdade econômica serve apenas para os grandes, e não para o cidadão comum. Se recuar, mostrará que é possível corrigir rotas sem virar estatista. A decisão, porém, não será tomada em Austin, mas nas urnas e nas ruas — onde o descontentamento popular, esse sim, não conhece barreiras partidárias.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.