A ex-ministra e candidata socialista à Presidência em 2007, Ségolène Royal, voltou a provocar polêmica ao se referir a Raphaël Glucksmann como um "estagiário em política". A declaração foi feita por meio de uma postagem em sua conta oficial no X (antigo Twitter) na manhã desta segunda-feira, 19 de setembro de 2026. Segundo Royal, o eurodeputado e líder do partido Place Publique não teria estatura para representar a esquerda na eleição presidencial de 2027.
"Glucksmann é um estagiário em política, sem experiência real de governo nem base sólida", escreveu Royal. A frase ecoa a insatisfação de setores mais tradicionais do Partido Socialista (PS) com o avanço de uma nova geração de líderes identificados com a social-democracia light e o europeísmo. Glucksmann, de 47 anos, construiu sua carreira como intelectual e articulista, e lidera o movimento Place Publique, que tenta unificar a esquerda moderada.
A declaração representa mais um capítulo na guerra interna da esquerda francesa, que se arrasta desde a derrota de Jean-Luc Mélenchon em 2022. Enquanto a França Unida (LFI) de Mélenchon ainda busca um nome, Royal, que já deixou o PS, apoia abertamente uma candidatura própria ou uma aliança que exclua figuras que considera frágeis. Glucksmann, por sua vez, respondeu com ironia em entrevista à Rádio France Inter, afirmando que "ser estagiário é melhor do que ser um fantasma", em referência ao sumiço político de Royal nos últimos anos.
Por que isso importa? A fragmentação da esquerda é um presente para o campo liberal e para o atual primeiro-ministro, que poderá concorrer à reeleição em 2027 com um eleitorado de centro-direita consolidado. Sem um nome forte e unificado, os partidos de esquerda tendem a diluir seus votos entre múltiplos candidatos, repetindo o cenário de 2022, quando Mélenchon chegou ao terceiro turno com menos de 22% — insuficiente para ir ao segundo turno. Para os mercados, a perspectiva de uma esquerda radical ou intervencionista sempre gera volatilidade, mas uma esquerda dividida é inofensiva. O índice CAC 40 abriu em leve alta, refletindo a percepção de que a unidade progressista está longe.
Análise FORTIS: A esquerda francesa nunca aprendeu a lição. Em vez de focar em propostas de estímulo ao empreendedorismo, redução da burocracia e abertura comercial, os líderes socialistas se digladiam em guerras de ego. Ségolène Royal, que já teve seu momento, hoje é uma figura anacrônica que insiste em deslegitimar quem tenta renovar o campo. Glucksmann, embora ainda longe do ideal liberal, pelo menos reconhece a necessidade de alinhamento com a União Europeia e reformas pró-mercado moderadas. O ataque de Royal é sintomático: a velha guarda prefere a pureza ideológica do que a vitória eleitoral. O resultado é que a França continuará refém de um sistema bipartidário de facto entre o centro macronista e a extrema direita nacionalista, enquanto a esquerda se consome em disputas internas.
Contraponto: Alguns analistas políticos franceses, como o colunista do Le Figaro Alexandre Dumas, argumentam que o ataque de Royal pode, paradoxalmente, beneficiar Glucksmann. "Ao ser atacado por uma figura tão desgastada, ele ganha a aura de vítima e pode atrair eleitores moderados que enxergam Royal como parte do passado", disse Dumas em artigo. Além disso, a exposição midiática pode catapultar Glucksmann para a liderança das pesquisas entre os nomes da esquerda. Uma pesquisa recente do instituto Ipsos, divulgada na semana passada, mostrava Glucksmann com 14% das intenções de voto no primeiro turno — atrás de Mélenchon (18%) e do candidato do PS (12%). A briga com Royal pode turbinar esses números, mas ainda insuficientes para ameaçar a liderança do centro.
Por Renan Filho · 2026-09-20