O arquipélago francês de Saint-Pierre-et-Miquelon, um punhado de rochas no Atlântico Norte, esconde algo que a maioria dos franceses desconhece: um dos maiores potenciais petrolíferos não explorados do Hemisfério Ocidental. O gisement, estimado em até 1,5 bilhão de barris recuperáveis, fica a aproximadamente 80 quilômetros das costas de Newfoundland, no Canadá. A França, no entanto, prefere comprar crude de países como Rússia e Arábia Saudita a extrair o próprio ouro negro.
Em 2018, o governo francês concedeu à Atlantic Petroleum uma licença exclusiva de pesquisa na área, conhecida como Permis de Saint-Pierre-et-Miquelon. A empresa, então, iniciou estudos sísmicos que confirmaram a viabilidade técnica da extração. Menos de 18 meses depois, o Ministério da Transição Ecológica — sob intensa pressão de ONGs ambientalistas — impôs condições draconianas que inviabilizaram o projeto. Em 2020, o tribunal administrativo de Montreuil anulou a licença por um tecnicismo: a falta de uma avaliação ambiental "suficientemente detalhada". O caso segue em recurso no Conselho de Estado, onde dormita desde então.
O contraste com o vizinho canadense é brutal. No lado canadense da bacia, a produção de petróleo offshore em Newfoundland gerou mais de US$ 20 bilhões em receita fiscal nas últimas duas décadas, financiando hospitais, escolas e infraestrutura. Em Saint-Pierre, os 6 mil habitantes sobrevivem de subsídios de Paris e de uma pesca em declínio. O potencial petrolífero local poderia transformar o arquipélago em um hub energético do Atlântico Norte — mas a França prefere manter a colônia como um museu a céu aberto.
POR QUE ISSO IMPORTA: A França importa cerca de 1,4 milhão de barris de petróleo por dia, segundo a Agência Internacional de Energia. Desse total, aproximadamente 25% vêm da Rússia ou de países da Opep com histórico de instabilidade. Ou seja: a cada ano, o país gasta mais de € 50 bilhões para financiar regimes autoritários enquanto mantém congelado um ativo que poderia cobrir 5% do consumo nacional. É uma escolha política, não técnica. O campo de Saint-Pierre está em águas rasas — 50 a 100 metros —, com tecnologia de extração dominada há décadas pela indústria.
ANÁLISE FORTIS: A história de Saint-Pierre-et-Miquelon é um caso de estudo do socialismo francês aplicado à geopolítica. A licença foi concedida, estudada e revogada não por inviabilidade econômica ou técnica, mas por uma ideologia que trata qualquer projeto extrativista como crime contra a natureza. O resultado é paradoxal: a França "verde" financia a exploração de petróleo na Argélia, onde a TotalEnergies opera sem as mesmas restrições, enquanto trava a produção em seu próprio território. O país prefere ter a "consciência limpa" e os cofres vazios — e uma dependência estratégica de adversários.
O modelo canadense mostra o caminho. Em Newfoundland, a província implementou um marco regulatório com royalties claros, exigência de conteúdo local e um fundo soberano para as futuras gerações. As críticas ambientalistas existem, mas a sociedade canadense entendeu que petróleo extraído com regras rígidas é melhor que petróleo comprado de quem não tem regra nenhuma. Saint-Pierre poderia replicar esse modelo, com bônus adicionais: seria a primeira experiência de produção offshore em território francês, gerando empregos, renda e autonomia para uma região esquecida por Paris.
CONTRAPONTO: Os críticos alegam riscos de vazamento em uma região rica em biodiversidade marinha — o que é verdadeiro, mas não determinante. A indústria offshore moderna tem reduzido incidentes a taxas mínimas, conforme dados da OGP (International Association of Oil & Gas Producers), com 99,9% de segurança operacional. Outro argumento é que o arquipélago carece de infraestrutura portuária para suportar operações de grande escala — problema facilmente superável com investimento, como demonstram as plataformas no Mar do Norte, construídas em condições mais adversas. O subtexto é ideológico: trata-se de uma rejeição ontológica à indústria do petróleo, não de uma análise de custo-benefício.
A França tem uma escolha clara em Saint-Pierre-et-Miquelon: continuar como colônia dependente, importando energia de ditaduras, ou finalmente assumir seu papel de potência energética, extraindo o próprio recurso com responsabilidade ambiental. A geologia já decidiu — o petróleo existe. A política francesa, porém, é mais dura que a rocha submarina. Enquanto o Conselho de Estado adia a decisão, bilhões de barris dormem no fundo do mar, como um reproche silencioso aos burocratas de Paris.
Por Renan Filho · 2026-09-21