A Rússia de Vladimir Putin não precisa invadir um país da OTAN para semear o caos. Basta um ciberataque a um hospital, um incêndio em um depósito de munições ou uma campanha orquestrada de desinformação nas redes sociais. É exatamente essa zona cinzenta que Moscou explora com agressividade crescente, agora com um limiar de risco consideravelmente mais baixo. A França, epicentro de recentes incidentes suspeitos — de ataques a infraestrutura crítica a sabotagens em cabos submarinos —, tornou-se o laboratório perfeito para testar os limites da paciência ocidental.
Segundo relatório do Ministério das Relações Exteriores francês, divulgado em setembro de 2026, o número de incidentes híbridos atribuídos à Rússia aumentou 300% em relação ao ano anterior. Não se trata mais apenas de espionagem clássica ou influência política encoberta. Há sabotagem física, como o incêndio em um centro de distribuição de gás natural liquefeito em Marselha, que as autoridades francesas classificaram como ato deliberado. Em publicação nas redes sociais, o ministro das Forças Armadas, Sébastien Lecornu, afirmou que "a Rússia está testando a coesão da aliança atlântica de forma cada vez mais ousada". A declaração, feita em tom de alerta, reforça o que analistas de defesa já vinham sinalizando: o Kremlin abandonou qualquer autocontenção.
A mudança de postura russa não é aleatória. Com a economia de guerra em pleno vapor e os estoques de mísseis sendo reconstituídos, Putin parece confiante de que pode dobrar a aposta sem sofrer consequências graves. O baixo custo das operações híbridas — um ciberataque custa centenas de milhares de dólares, contra bilhões em defesa antimísseis — torna a tática irresistível. Além disso, a crescente polarização política na França, com protestos violentos e um parlamento fragmentado, oferece o cenário perfeito para que Moscou explore as fissuras internas. Não é exagero dizer que a Rússia entrou em uma fase de agressividade calculada, onde cada incidente é desenhado para não cruzar a linha da guerra declarada, mas para desgastar a confiança no Estado francês.
Por que isso importa? Porque a França é um dos pilares da União Europeia e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Se Paris ceder à pressão, a mensagem enviada a Moscou é que a dissuasão ocidental é uma casca vazia. Mais do que isso, a atual estratégia russa visa diretamente a economia de livre mercado que sustenta o Ocidente. Ao atacar infraestruturas energéticas e logísticas, o Kremlin força um aumento nos custos de produção e transporte, alimentando a inflação e corroendo o poder de compra das famílias. Em última instância, o objetivo é gerar descontentamento popular e eleger líderes complacentes, dispostos a cortar a ajuda à Ucrânia e a relaxar as sanções.
Nossa análise FORTIS é direta: o Ocidente está perdendo a guerra híbrida porque insiste em responder com ferramentas do século XX. Enquanto Moscou age com agilidade, explorando vulnerabilidades cibernéticas e midiáticas, as democracias liberais se prendem a processos burocráticos e a um excesso de cautela jurídica. A criação de um mecanismo de resposta rápida a ataques híbridos, com capacidade de atribuição pública e retaliação econômica direcionada, é urgente. Sem isso, a Rússia continuará a testar os limites, convencida de que a dissuasão ocidental é uma ficção. A liberdade de expressão e a imprensa livre são trunfos, mas precisam ser defendidas com proatividade, não com relatórios de inteligência que chegam tarde demais.
Há, contudo, quem discorde. Alguns analistas de relações internacionais, como o professor François Heisbourg, argumentam em entrevista à Rádio France Inter que a Rússia "não tem interesse em escalar um confronto direto com a OTAN", e que as ações híbridas são, na verdade, um sinal de fraqueza, não de força. Segundo essa visão, Putin estaria tentando compensar as derrotas no campo de batalha ucraniano com provocações de baixa intensidade. No entanto, essa interpretação subestima a racionalidade estratégica de Moscou, que aprendeu a operar com eficiência nas brechas do direito internacional. A resposta ocidental, até agora, tem sido tímida: sanções que não impedem a indústria militar russa e declarações duras que não se traduzem em ação concreta.
Enquanto isso, a população francesa segue refém do medo e da desconfiança. Pesquisas recentes indicam que 68% dos franceses acreditam que a Rússia representa uma ameaça real à segurança nacional, um número recorde. O governo de Emmanuel Macron, pressionado pela oposição de ambos os lados do espectro político, tenta equilibrar uma postura firme com a necessidade de não provocar uma crise ainda maior. Mas a verdade é que a paciência tem limite. Se a Rússia continuar a testar a paciência ocidental, a resposta virá, e provavelmente não será um novo pacote de sanções. Será uma ação coordenada, ainda que não militar, para isolar Moscou de vez. A questão é se será tarde demais.
Por Renan Filho · 2026-09-21