O resultado já era esperado por qualquer analista que acompanhe a política russa desde 2000. O partido Rússia Unida, base de sustentação do presidente Vladimir Putin, conquistou mais de 54% dos votos e garantiu 343 das 450 cadeiras da Duma, a câmara baixa do parlamento russo, conforme dados oficiais divulgados pela Comissão Eleitoral Central da Rússia na madrugada desta segunda-feira. Não houve fraude? Há denúncias de independência zero. A oposição real foi previamente eliminada por lei ou exílio. Navalny morreu na prisão em 2024, e candidatos liberais foram barrados sob o pretexto de "extremismo".
A vitória, no entanto, não é o foco. O que interessa é o que ela significa para o mundo, especialmente para a França. Enquanto o governo de Emmanuel Macron insiste em um discurso de "autonomia estratégica" em relação à Rússia, o fato é que Paris continua comprando gás liquefeito russo em volumes recordes. Segundo dados da Agência Internacional de Energia, as importações francesas de GNL russo cresceram 18% em 2025 em relação ao ano anterior. O paradoxo é evidente.
Por que isso importa para a França? Porque a vitória de Putin consolida um regime que usa a energia como arma de guerra. A França, que ainda depende de reatores nucleares para 70% de sua eletricidade, precisa de gás natural para complementar a matriz e para a indústria petroquímica. E a Rússia sabe disso. Em publicação nas redes sociais do Kremlin, Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, afirmou que "a Rússia é um parceiro confiável, mas a confiança é uma via de duas mãos". Tradução: se a França continuar financiando a Ucrânia, pode esperar cortes.
A análise FORTIS enxerga o cenário com frieza: o Estado francês, ao tentar regular a economia, acaba entregando aos russos exatamente o que eles querem — dependência. Quanto mais o governo Macron aumenta impostos sobre combustíveis e renova subsídios à energia nuclear cara, mais as empresas francesas buscam alternativas baratas, e a Rússia oferece o melhor preço do mercado. O livre mercado, quando distorcido pelo intervencionismo estatal, produz resultados perversos.
Há um contraponto importante: a Alemanha, após o choque de 2022, reduziu drasticamente sua dependência do gás russo. Em 2025, Berlim importou apenas 8% de seu gás da Rússia, contra 55% antes da guerra. A França, ao contrário, manteve-se firme em torno de 15%, mas sem plano de substituição. O primeiro-ministro François Bayrou, em declaração à imprensa, disse que "a França não pode se dar ao luxo de cortar relações energéticas com a Rússia de forma abrupta". É o clássico discurso da conveniência que vira dependência.
Enquanto isso, a economia russa dá sinais de estagnação. O PIB russo cresceu apenas 1,2% em 2025, segundo o Fundo Monetário Internacional, muito abaixo dos 3% registrados em 2023. As sanções ocidentais funcionam? Parcialmente. A Rússia perdeu acesso a tecnologia de ponta, mas continua vendendo petróleo para Índia e China. O mercado de livre comércio, quando funciona sem barreiras, tende a gerar eficiência. As sanções, ao contrário, criaram dois blocos econômicos que se bilhetam mutuamente.
Para o investidor francês, o recado é claro: não confie em estabilidade eleitoral russa. O partido de Putin pode vencer todas as eleições, mas isso não significa segurança jurídica. Em 2024, o governo russo confiscou ativos de empresas ocidentais que tentaram sair do país após a invasão da Ucrânia. A Danone, empresa francesa, perdeu o controle de sua subsidiária russa em um processo de "nacionalização forçada", conforme apurou o jornal Le Monde. O liberalismo econômico não sobrevive onde o Estado é o dono da lei.
O cenário para a França é de alerta máximo. Enquanto a União Europeia discute novas rodadas de sanções, a Rússia já se reorganiza: fechou acordos de livre comércio com o Irã e a Coreia do Norte, e negocia a criação de uma nova rota de suprimentos via Turquia. A política externa francesa, hesitante entre confronto e conciliação, não tem mostrado resultados. E o eleitor francês, que paga a conta.
A verdade, nua e crua, é que a Rússia não precisa de eleições livres para ser um player global. Ela precisa de petróleo, gás e armas. E tem os três. A França, por sua vez, precisa decidir se quer ser um parceiro comercial confiável ou um refém energético. Enquanto isso, o partido de Putin segue vencendo eleições que não são disputadas — e a França segue perdendo oportunidades que poderiam ser aproveitadas.
Por Renan Filho · 2026-09-20