O sonho americano da inteligência artificial está encontrando um inimigo inesperado: os próprios americanos. Em pelo menos oito estados, protestos e ações legais contra a construção de novos data centers explodiram nos últimos meses. O epicentro do descontentamento está no Condado de Loudoun, Virgínia, onde a concentração de centros de dados já consome mais eletricidade que 1,5 milhão de residências, conforme reportagem do Washington Post publicada em agosto.
A revolta não se limita ao cinturão da tecnologia. No Arizona, moradores de Buckeye entraram com uma ação coletiva contra a cidade e a empresa responsável por um complexo de data centers que, segundo documento protocolado no tribunal distrital, exigiria 1,2 bilhão de litros de água por ano para resfriamento. Em entrevista à rádio local KTAR, um dos líderes do movimento classificou o projeto como “insustentável para uma região desértica”.
O movimento ganhou força após a publicação de um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) em maio, que estimou que os data centers de IA podem consumir até 10% da eletricidade global até 2030. Nos EUA, a demanda já forçou a suspensão de novas ligações de rede elétrica em partes da Califórnia e do Oregon, segundo nota oficial da Comissão de Serviços Públicos da Califórnia.
Por que isso importa? O crescimento da inteligência artificial depende diretamente da expansão da infraestrutura de processamento. Empresas como Microsoft, Google e Amazon anunciaram investimentos bilionários em novos data centers nos EUA. Agora, enfrentam uma reação que mistura preocupações ambientais legítimas com o velho instinto NIMBY (not in my backyard). O resultado pode ser um deslocamento desses investimentos para países com regulação mais branda – como o Brasil, que já recebeu sondagens de grandes operadores, segundo reportagem do Valor Econômico.
A França também observa com atenção. O governo francês anunciou em julho um plano de aceleração de data centers de IA, mas a resistência local já aparece em regiões como Alsácia, onde agricultores protestaram contra a ocupação de terras férteis, conforme noticiou o Le Figaro. Se a revolta americana se espalhar para a Europa, o sonho da soberania digital europeia pode esbarrar no mesmo muro.
Análise FORTIS: O problema não é o mercado, mas o Estado. A escassez de energia e água não é culpa dos data centers – é consequência de décadas de regulação ambiental que travou a construção de usinas, linhas de transmissão e sistemas de reúso de água. Em vez de proibir novos centros, os governos deveriam desburocratizar a expansão da infraestrutura. A histeria regulatória só empurra a inovação para países como a Arábia Saudita e a Malásia, que não hesitam em receber investimentos. O livre mercado, com preços corretos para energia e água, resolveria a alocação de recursos de forma mais eficiente que qualquer moratória populista.
Contraponto: Ambientalistas e moradores têm razões concretas. O consumo de um único data center de grande porte equivale ao de uma cidade de 50 mil habitantes, segundo estudo da Universidade de Massachusetts. O problema é real, mas a solução não é bloquear o progresso. A tecnologia de resfriamento líquido e o uso de fontes renováveis já reduzem o impacto. O que falta é vontade política para acelerar licenciamentos e incentivar a eficiência, não para paralisar a economia digital.
Por Renan Filho · 2026-09-20