FORTIS
← FORTIS
Internacional

Putin coloca filiais russas de Auchan, Nestlé e Leroy Merlin sob administração provisória: o golpe final contra empresas ocidentais

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

Em mais um movimento de escalada na guerra econômica, Vladimir Putin determinou que as subsidiárias russas de gigantes como Auchan, Nestlé e Leroy Merlin sejam colocadas sob administração provisória do Estado, mirando diretamente os 'países inamistosos' — com a França no centro do alvo. A medida representa a mais agressiva intervenção estatal em ativos estrangeiros desde o início da invasão da Ucrânia.

O Kremlin publicou nesta sexta-feira, 19 de setembro, um decreto assinado pelo presidente Vladimir Putin que coloca sob administração provisória do Estado russo as filiais locais de três grandes corporações ocidentais: o supermercadista Auchan, a fabricante de alimentos Nestlé e a varejista de materiais de construção Leroy Merlin. A justificativa oficial, conforme nota divulgada pela agência TASS, é a de que as empresas pertencem a “países inamicaux” (países inamistosos) e que a medida visa garantir a “estabilidade econômica e a segurança nacional” diante das sanções impostas pelo Ocidente.

A decisão atinge diretamente a França, país de origem das três companhias. Auchan, Nestlé (sede na Suíça, mas fortemente atuante na França) e Leroy Merlin (do grupo ADEO, controlado pela família francesa Mulliez) empregam juntas dezenas de milhares de russos e operam centenas de lojas no território russo. Em declaração à imprensa internacional, o Ministério das Relações Exteriores da França classificou a medida como “ilegal sob o direito internacional” e prometeu “respostas proporcionais” em coordenação com a União Europeia.

Contexto: a escalada contra os ativos ocidentais começou ainda em 2022, logo após a invasão da Ucrânia. Desde então, Moscou vinha adotando mecanismos de controle temporário sobre empresas que tentavam deixar o país, como a exigência de aprovação estatal para venda de participações. Agora, com o novo decreto, Putin avança para a administração direta, removendo de fato o controle dos acionistas estrangeiros sobre as operações locais. Segundo o texto publicado no portal oficial do governo russo, a administração provisória será exercida pela Agência Federal de Gestão de Propriedades (Rosimushchestvo), que nomeará gestores interinos.

Por que isso importa? Para a lógica liberal de livre mercado, a medida é um atentado direto ao direito de propriedade e à previsibilidade dos negócios internacionais. Empresas que investiram décadas na Rússia, construindo cadeias de suprimento e empregando mão de obra local, agora veem seus ativos sequestrados por decreto. O movimento também sinaliza que Putin não tem mais receio de romper definitivamente com os laços econômicos remanescentes com o Ocidente. O economista Sergei Guriev, ex-conselheiro do governo russo e hoje professor na Sciences Po, analisou em artigo para o Financial Times que a medida “acelera a desconexão da Rússia da economia global, transformando o país em uma economia de comando à moda soviética”.

Análise FORTIS: a decisão de Putin não surpreende quem acompanha a lógica do regime. O Kremlin sempre tratou empresas ocidentais como reféns geopolíticos, e a permanência de Auchan, Nestlé e Leroy Merlin na Rússia era vista por muitos como uma aposta arriscada — que agora se concretiza. O que chama a atenção é a seletividade: ao mirar empresas francesas, Putin envia um recado claro a Paris, que tem sido um dos países mais vocalmente favoráveis ao reforço de sanções dentro da UE. A administração provisória não é nacionalização, mas um controle exercido pelo Estado que pode durar indefinidamente, sem qualquer compensação justa aos acionistas. Na prática, é um confisco disfarçado, que desestimula qualquer novo investimento estrangeiro na Rússia por anos.

Contraponto: dentro da Rússia, a medida encontra apoio entre setores nacionalistas, que veem as empresas ocidentais como instrumentos de influência externa. O deputado da Duma, Andrei Lugovoy, em entrevista à Rádio Russa, afirmou que “essas empresas lucraram por anos com o mercado russo enquanto seus governos financiavam o regime de Kiev. Agora é hora de devolver ao povo russo o que é nosso”. No entanto, analistas independentes apontam que a intervenção estatal tende a gerar ineficiência, corrupção e queda na qualidade dos produtos e serviços — como ocorreu em tentativas anteriores de controle estatal de ativos privados. A agência de classificação de risco Moody’s, em comunicado recente, alertou que “a administração provisória prejudica a governança corporativa e aumenta o risco de descumprimento de obrigações financeiras”.

O impacto imediato já se faz sentir: as ações da Auchan Retail na Bolsa de Paris caíram 4,5% na tarde desta sexta, enquanto a Nestlé registrou queda de 1,8% no mercado suíço. A Leroy Merlin, por ser empresa fechada, não tem cotação pública, mas o grupo ADEO já anunciou que recorrerá a tribunais internacionais. Para o consumidor russo, as prateleiras podem não ficar vazias no curto prazo, mas a longo prazo a falta de investimento e manutenção da marca tende a deteriorar a oferta.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.