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Economia

Projeto de €1,5 bilhão suspenso, dossiês contestados: a revolta contra data centers vai se espalhar na França?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

A suspensão de um megaprojeto de data center na região de Paris acendeu o alerta no setor de infraestrutura digital. Enquanto ambientalistas e prefeituras locais comemoram, investidores e empresas de tecnologia temem que a onda de contestação judicial e política possa inviabilizar a expansão necessária para a soberania digital europeia.

O governo francês anunciou na última terça-feira a suspensão temporária do projeto de construção de um data center de 1,5 bilhão de euros, de propriedade de um consórcio liderado pela Digital Realty, na comuna de Wissous, sul de Paris. A decisão veio após uma série de contestações judiciais e protestos de grupos ambientalistas que questionam o consumo de energia e água da instalação.

Segundo nota oficial do Ministério da Transição Ecológica, a suspensão se deve à necessidade de uma nova avaliação de impacto ambiental, que deverá considerar “os efeitos cumulativos de projetos similares na região”. O data center, que teria capacidade de 150 MW, consumiria o equivalente ao abastecimento de uma cidade de 200 mil habitantes.

O movimento contra data centers na França não é novo, mas ganhou força nos últimos meses. Em 2025, ao menos quatro projetos de grande porte foram alvo de ações judiciais movidas por associações como France Nature Environnement e Data Center Action. O principal argumento é que a França está se tornando um “paraíso fiscal” para big techs, que usam o país para armazenar dados sem gerar empregos locais significativos.

Em declaração à imprensa, o deputado François-Michel Lambert (Ecologistas) afirmou que “não podemos deixar que o capital estrangeiro explore nossos recursos naturais sem contrapartida”. Já o senador Jean-Baptiste Lemoyne, do partido centrista, rebateu: “Sem data centers, a França perderá a corrida da inteligência artificial e da nuvem soberana.”

Por que isso importa? A França é o segundo maior mercado de data centers da Europa, atrás apenas da Alemanha. Segundo levantamento da consultoria Structure Research, o país deve receber investimentos de mais de 8 bilhões de euros no setor até 2030. A paralisação de um projeto âncora pode sinalizar um ambiente regulatório mais hostil, afugentando capital estrangeiro.

Análise FORTIS: A histeria ambientalista contra data centers ignora dois fatos essenciais. Primeiro, a energia consumida por essas instalações é cada vez mais renovável — na França, 70% da matriz já vem de fontes limpas, como nuclear e hidrelétrica. Segundo, os data centers são a espinha dorsal da economia digital, permitindo desde serviços bancários até telemedicina. Barrá-los por questões ideológicas é um tiro no pé da competitividade francesa.

O governo, ao ceder à pressão de grupos minoritários, cria um precedente perigoso. Se cada projeto de infraestrutura crítica puder ser paralisado por contestações judiciais, o país se torna inviável para investimentos de longo prazo. Não é coincidência que, enquanto a França hesita, Espanha e Alemanha aceleram suas licenças para novos centros de dados.

Contraponto: É verdade que a concentração de data centers em áreas urbanas gera externalidades negativas, como aumento do preço da terra e pressão sobre redes de distribuição elétrica. Porém, a solução não é a proibição, mas a desburocratização e a criação de zonas dedicadas para infraestrutura digital, com incentivos fiscais para uso de fontes renováveis e eficiência hídrica. O mercado, e não o ativismo judicial, deve ditar onde e como esses investimentos ocorrem.

A pergunta que fica é: até onde vai a tolerância do governo francês com a paralisia regulatória? Se a tendência se confirmar, o país pode perder não apenas investimentos, mas também a capacidade de atrair talentos e empresas inovadoras. A revolta contra data centers, se não for contida por uma política liberal de uso do solo, pode se transformar em um desastre econômico anunciado.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.