**Lead**
O julgamento do assassinato do irmão do ativista Amine Kessaci, em Marselha, começou sob uma atmosfera de medo e intimidação que marca os procedimentos desde as primeiras audiências. Testemunhas convocadas a depor mostraram-se relutantes, algumas alegando lapsos de memória, enquanto familiares da vítima denunciam a presença de olhares hostis e pressionantes na sala do tribunal. O caso, que abalou a cidade e reacendeu o debate sobre a violência ligada ao narcotráfico na França, agora enfrenta um novo desafio: o silêncio imposto pelo medo.
**Contexto**
O irmão de Amine Kessaci, figura conhecida em Marselha por seu ativismo contra o tráfico de drogas e a violência nos bairros do norte da cidade, foi morto em circunstâncias que as autoridades classificaram como uma execução ligada ao crime organizado local. Amine Kessaci tornou-se um rosto público após a morte do irmão, transformando sua dor em um movimento de mobilização contra a influência do narcotráfico nas áreas mais vulneráveis de Marselha. O julgamento, realizado em um tribunal da cidade, reúne vários suspeitos, todos ligados, segundo a acusação, a redes de tráfico que disputam o controle de pontos de venda de drogas.
Durante as primeiras sessões, a corte observou um fenômeno recorrente em casos de crimes organizados: a amnésia seletiva. Várias testemunhas, incluindo moradores do bairro onde ocorreu o assassinato, declararam não se lembrar de eventos que a investigação considera cruciais. Algumas delas, que haviam fornecido depoimentos à polícia durante as investigações, mudaram suas versões ou afirmaram não reconhecer os acusados. Advogados de defesa e de acusação trocaram acusações sobre a credibilidade das testemunhas, enquanto o presidente do tribunal tentava extrair informações sob um clima de tensão palpável.
A atmosfera no tribunal se deteriorou ainda mais quando familiares da vítima e apoiadores de Amine Kessaci denunciaram a presença de indivíduos na plateia que, segundo eles, estariam ali para intimidar aqueles que se dispusessem a falar. Relatos de olhares fixos e ameaçadores dirigidos a testemunhas e ao banco dos jurados começaram a circular nos corredores do tribunal. Um dos advogados das partes civis chegou a pedir que o tribunal tomasse medidas para garantir a segurança dos depoentes, mas a solicitação esbarrou em dificuldades logísticas e na dificuldade de provar a origem das intimidações.
**Análise**
O medo que domina este julgamento não é um elemento periférico, mas uma peça central do funcionamento do sistema de justiça diante do narcotráfico. A França, como outros países europeus, tem enfrentado um aumento da violência relacionada ao tráfico de drogas, especialmente em cidades portuárias como Marselha. Os assassinatos e ajustes de contas tornaram-se mais frequentes, e o poder de intimidação das organizações criminosas se estende para além das ruas, alcançando as instituições judiciais. Quando testemunhas se calam ou esquecem, não é apenas um problema de prova processual, mas um sintoma de um controle social que o crime organizado exerce sobre as comunidades. A eloquência do silêncio, nesse contexto, fala mais alto do que qualquer depoimento.
A repercussão do caso também coloca em evidência o papel do ativismo de Amine Kessaci. Ele, que se recusa a ceder ao medo, transformou-se em uma figura incômoda para o crime organizado e, ao mesmo tempo, em um porta-voz de bairros que tradicionalmente são deixados à margem. O julgamento, portanto, transcende o destino individual dos acusados. Ele representa um teste para a capacidade do Estado francês de proteger aqueles que aceitam testemunhar contra o narcotráfico e de enfrentar uma criminalidade que contamina a vida cotidiana com a onipresença da violência.
A impunidade, alimentada pela intimidação, torna o trabalho da polícia e da justiça ainda mais árduo. Especialistas em segurança pública apontam que a solução para romper esse ciclo passa por políticas de proteção a testemunhas mais robustas, investimento em investigações que não dependam exclusivamente de relatos orais e uma presença estatal mais forte nas áreas controladas pelo tráfico. Sem isso, os tribunais continuarão a receber processos em que a verdade material fica refém do pavor.
**Fontes**
Este texto tem como base reportagens e informações publicadas por veículos como Le Monde, France Info e La Provence, que acompanharam o início do julgamento, além de notas oficiais do tribunal de Marselha e declarações públicas de Amine Kessaci e de advogados envolvidos no caso.
Por Renan Filho · 2026-10-27