A demografia não mente, mas os políticos franceses insistem em ignorá-la. Nicolas Pouvreau-Monti, diretor do Observatório da Imigração e da Demografia, em publicação nas redes sociais, projetou que os franceses de origem extra-europeia poderão se tornar o grupo majoritário no país a partir de 2050. A afirmação não é um alarmismo gratuito: trata-se de uma constatação matemática baseada nas taxas de fecundidade diferenciais e no fluxo migratório líquido.
O estudo citado por Pouvreau-Monti utiliza dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (INSEE) e do Ministério do Interior. A taxa de fecundidade entre mulheres imigrantes ou descendentes de imigrantes extra-europeus é significativamente superior à média nacional, que já caiu para 1,8 filho por mulher, abaixo do nível de reposição populacional. Enquanto isso, a imigração líquida anual se mantém em patamares elevados, com cerca de 250 mil entradas legais por ano, sem contar a imigração ilegal.
O contexto histórico é crucial. A França sempre foi um país de imigração, mas o perfil do imigrante mudou radicalmente nas últimas décadas. Até os anos 1970, a maioria dos estrangeiros vinha de países europeus vizinhos, como Itália, Espanha e Portugal. Hoje, a origem predominante é o Magreb, a África subsaariana e o Oriente Médio. A questão não é racial, mas cultural e econômica: o modelo republicano de assimilação, que funcionou com os italianos e poloneses, trava diante de comunidades que mantêm laços identitários e religiosos fortes.
Por que isso importa para o liberalismo? O Estado de bem-estar social francês é generoso, mas insustentável. O sistema de previdência, saúde e seguridade social foi desenhado para uma população com alta taxa de natalidade e crescimento econômico robusto. Com uma população envelhecida e uma base de contribuintes que encolhe, a conta não fecha. A imigração extra-europeia, em vez de aliviar a pressão fiscal, agrava o problema: muitos imigrantes chegam com baixa qualificação profissional e dependem de transferências sociais por longos períodos.
A análise FORTIS aponta que a esquerda francesa, em especial o partido França Insubmissa e parte dos verdes, trata a projeção demográfica como uma evolução natural e desejável da sociedade multicultural. O governo de Emmanuel Macron, por sua vez, tenta equilibrar-se entre a abertura econômica e o controle de fronteiras, mas sem resultados concretos. A direita tradicional, liderada por Éric Ciotti e Marine Le Pen, usa os números para defender políticas restritivas, mas peca ao propor soluções estatistas que violam princípios de livre mercado, como cotas étnicas ou subsídios seletivos.
O contraponto vem de setores que questionam a metodologia de Pouvreau-Monti. O demógrafo Hervé Le Bras, em entrevista ao jornal Le Monde, argumenta que as projeções lineares ignoram variáveis como a assimilação cultural de segunda e terceira gerações, que tendem a reduzir a taxa de natalidade ao padrão francês. Além disso, críticos apontam que o conceito de "origem extra-europeia" é impreciso e pode incluir pessoas com apenas um avô nascido fora da Europa, inflando os números.
Para o mercado, o cenário é de risco fiscal elevado. Se a França se tornar um país com maioria de origem extra-europeia sem um choque de produtividade e integração, o peso do Estado sobre os cidadãos produtivos aumentará. Empresas enfrentarão custos trabalhistas mais altos para financiar um sistema de proteção social inchado, enquanto a burocracia para contratação de mão de obra qualificada estrangeira continuará sufocando a inovação.
A liberdade individual também está em jogo. A imposição de políticas de diversidade forçada, como cotas raciais em empresas e universidades, já é uma realidade em países anglo-saxões e começa a ganhar espaço na França. Essas medidas violam o princípio liberal de meritocracia e tratamento igual perante a lei. Se a maioria extra-europeia se concretizar, a pressão por ações afirmativas será irresistível, criando um estado de privilégios legais baseados em origem étnica.
O silêncio dos partidos tradicionais sobre o tema é ensurdecedor. A classe política francesa prefere debater o preço do croissant ou a reforma das aposentadorias a encarar a realidade demográfica. Enquanto isso, a economia informal cresce nos subúrbios, a segregação territorial se aprofunda e a confiança nas instituições definha. A França caminha para um futuro onde a identidade nacional será redefinida não por escolha consciente, mas por inércia burocrática e medo de ofender minorias.
O liberalismo oferece uma saída: abolir o modelo assistencialista que atrai imigração de baixa qualificação, desburocratizar a contratação de talentos globais e privatizar serviços sociais para que o mérito, e não a origem, determine o sucesso. Mas para isso, é preciso que a sociedade francesa acorde do sonho multicultural e encare os números frios que Pouvreau-Monti colocou sobre a mesa.
Por Renan Filho · 2026-09-20