O empresário e ex-proprietário do jornal Les Inrockuptibles, Matthieu Pigasse, jogou uma bomba no tabuleiro eleitoral francês ao anunciar, na manhã desta sexta-feira, que não disputará a primária do Partido Socialista (PS) para a Presidência de 2027. Em nota oficial publicada em seu perfil no X (antigo Twitter), Pigasse afirmou que o processo interno do PS é 'estreito demais' e 'prisioneiro de velhas lógicas que não correspondem à urgência do país'. A declaração foi imediatamente repercutida pela imprensa francesa, com o Le Figaro chamando o movimento de 'terremoto na esquerda'.
O motivo alegado por Pigasse é a recusa do PS em ampliar o debate para além dos quadros partidários. Em entrevista à rádio France Inter, ele disse que a primária 'não é uma escolha, é um engodo', porque exclui independentes e não permite que a sociedade se manifeste. A decisão, no entanto, não significa um abandono da corrida eleitoral. Pigasse deixou claro que pode se apresentar como candidato avulso, sem o selo de nenhum partido, o que, segundo especialistas em direito eleitoral francês, seria legal desde que obtenha as 500 assinaturas de prefeitos necessárias.
Para entender o cenário, é preciso lembrar que Pigasse nunca foi um socialista ortodoxo. Em 2017, ele apoiou Jean-Luc Mélenchon no primeiro turno, e em 2022 flertou com a candidatura de Anne Hidalgo, mas já naquela época criticava a falta de renovação da legenda. O PS, hoje reduzido a um partido de nicho — com menos de 5% da intenção de voto nas últimas pesquisas —, tentou reunir as forças da chamada 'esquerda de governo' em uma primária aberta a militantes e simpatizantes. Pigasse, porém, considerou o formato insuficiente.
Por que isso importa para o liberal? Porque a atitude de Pigasse expõe a falência do modelo partidário francês e a hipocrisia da esquerda que prega 'democracia participativa' mas impõe regras rígidas de filtro. Do ponto de vista do livre mercado, o episódio é um convite à reflexão sobre o monopólio político. Se uma primária é tão estreita a ponto de afastar um dos nomes mais conhecidos da centro-esquerda, o que dizer dos processos eleitorais que excluem pequenos partidos e candidatos independentes? A França precisa de menos cartéis partidários e mais competição real por votos.
Análise FORTIS: A saída de Pigasse reforça a tese liberal de que o Estado e seus aparelhos partidários sufocam a inovação política. Pigasse, apesar de suas posições contrárias ao livre mercado — ele defende aumento de impostos sobre grandes fortunas e controle de preços de energia —, ao menos entende que o monopólio das siglas é um entrave. O socialista que critica o capitalismo agora critica o monopólio do partido. Ironia ou coerência? O mercado político francês precisa de mais entrada e saída, menos barreiras. O PS, ao insistir em uma primária controlada, perdeu a chance de incorporar um candidato com capacidade de atrair votos moderados e de centro.
Contraponto: No entanto, é ingênuo acreditar que Pigasse representa alguma ameaça real ao status quo. Como banqueiro do banco Lazard, ele é parte do establishment financeiro que tanto critica. Sua 'candidatura avulsa' pode ser apenas uma jogada de marketing para tentar ressuscitar uma carreira política que nunca decolou. Em 2022, quando especulou-se sua candidatura, ele desistiu após constatar a falta de apoio popular. As pesquisas hoje mostram que seu nome não ultrapassa 2% das intenções de voto. A França de Macron, Le Pen e Mélenchon não parece disposta a dar espaço a mais um 'outsider' com discurso de esquerda soft.
Por Renan Filho · 2026-09-22