O deputado Philippe Brun, uma das vozes mais moderadas do Partido Socialista francês, levou aos tribunais a briga por uma vaga na primária da esquerda para as eleições presidenciais de 2027. Em petição protocolada no Tribunal Judiciário de Paris, o parlamentar pede a anulação da decisão da comissão organizadora que o excluiu da lista de candidatos aptos a disputar a indicação do campo progressista.
A ação, conhecida como référé (medida urgente), foi impetrada na última segunda-feira, 15 de setembro, e já tem audiência marcada para o dia 22. Brun alega que o regulamento interno foi alterado de forma abrupta para favorecer nomes ligados à França Insubmissa (LFI), partido de Jean-Luc Mélenchon. Em publicação nas redes sociais, o deputado afirmou que “a traição vem de dentro” e que “o processo foi manipulado para excluir quem não se curva às cúpulas partidárias”.
A primária, originalmente concebida como um instrumento de unidade para a esquerda, tornou-se um campo de batalha. O acordo costurado entre PS, LFI, Partido Comunista, Ecologistas e outros grupos previa que qualquer candidato com mais de 5% de intenções de voto nas pesquisas nacionais teria vaga automática. Brun, que oscila entre 4% e 6% nos levantamentos do Ifop e da OpinionWay, foi barrado sob o argumento de que sua candidatura “não representa a base militante”.
Por que isso importa? O desfecho desse caso pode redefinir o tabuleiro eleitoral francês. A esquerda, que já amarga um terço dos votos no primeiro turno, depende de uma candidatura única para ter chance real de chegar ao segundo turno em 2027. Se a Justiça validar a exclusão de Brun, o sinal será claro: o processo interno não passa de um teatro de controle das máquinas partidárias. Se, ao contrário, o juiz determinar a reintegração, a ala radical de Mélenchon perderá o monopólio da narrativa.
Análise FORTIS: O caso Brun é um microcosmo do que há de pior na cultura política estatista. Em vez de deixar o mercado de ideias — ou seja, as urnas e as pesquisas — decidir quem é o melhor nome para enfrentar a direita e a extrema direita, as cúpulas partidárias preferem manipular regras, fechar listas e sufocar vozes dissidentes. A esquerda francesa, ao repetir o erro de 2022 (quando Mélenchon foi lançado sem primária e perdeu no primeiro turno), demonstra que aprendeu pouco. O liberalismo clássico ensina que a competição aberta e as regras estáveis são o único antídoto contra o aparelhamento. Aqui, o aparelho venceu o mérito.
Contraponto: A comissão organizadora da primária, em nota oficial, rebateu as acusações. “O regulamento é claro: a vaga automática exige que o candidato tenha, no mínimo, 5% em duas pesquisas consecutivas realizadas por institutos diferentes, com margem de erro de 2 pontos percentuais. Philippe Brun atingiu o patamar em apenas um dos levantamentos, o que não configura a condição exigida”, diz o texto. A nota ainda acrescenta que “a primária não é um concurso de popularidade, mas um instrumento de construção coletiva de um programa”. Para os apoiadores de Mélenchon, a exclusão é legítima e visa evitar candidaturas “personalistas” que enfraqueceriam o campo.
Por Renan Filho · 2026-09-22