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Economia

“Não é necessariamente Alzheimer”: por que a França ignora outras causas do declínio cognitivo

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

Enquanto o sistema público francês acelera diagnósticos de Alzheimer, milhares de casos de declínio cognitivo reversível — depressão, hipotireoidismo, deficiência de B12 e interações medicamentosas — seguem negligenciados. O custo humano e fiscal dessa miopia diagnóstica é imenso.

O alerta partiu de geriatras e neurologistas franceses em publicações recentes nas redes sociais e em declarações à imprensa especializada: nem todo esquecimento ou confusão mental em idosos é Alzheimer. Condições tratáveis como depressão, distúrbios tireoidianos, apneia do sono, deficiências vitamínicas e efeitos colaterais de medicamentos podem mimetizar os sintomas da doença neurodegenerativa — e são frequentemente ignoradas na corrida por um rótulo definitivo.

Na França, o Plano Nacional de Doenças Neurodegenerativas 2014-2019 priorizou o rastreamento precoce do Alzheimer, com metas ambiciosas de diagnóstico rápido. O resultado prático, porém, foi um efeito colateral perverso: consultas médicas cada vez mais curtas e protocolos padronizados que incentivam o encaminhamento direto para serviços de memória, sem investigação clínica aprofundada das causas reversíveis.

O problema é de natureza econômica e estrutural. O sistema de saúde francês, dominantemente estatal, remunera o ato médico por procedimento, não por tempo de consulta ou qualidade do diagnóstico. Um clínico geral recebe aproximadamente o mesmo valor por uma consulta de 15 minutos que por uma de 40 minutos — o que desestimula a investigação diferencial de demências reversíveis.

Segundo publicação do próprio Ministério da Saúde francês, cerca de 900 mil pessoas vivem com Alzheimer ou doenças relacionadas no país. Mas estudos independentes — como o levantamento do Observatório Regional de Saúde da Île-de-France — indicam que entre 12% e 20% dos pacientes diagnosticados com demência apresentam, na verdade, condições tratáveis e reversíveis.

Por que isso importa agora? Porque a França enfrenta uma crise fiscal sem precedentes. O déficit público projetado para 2026 ultrapassa 5,5% do PIB, e a previdência social acumula rombos crescentes no financiamento de medicamentos, exames e hospitalizações associadas a demências.

Cada diagnóstico incorreto de Alzheimer gera custos permanentes: medicamentos anticolinesterásicos de alto valor, institucionalização precoce em unidades de cuidados de longa duração (EHPAD) e benefícios sociais vitalícios. No caso de uma condição reversível bem tratada, o paciente pode retornar a uma vida produtiva ou semi-independente — reduzindo drasticamente o peso sobre o erário e sobre as famílias.

A lógica liberal — que a Revista Oeste e a Gazeta do Povo aplicam no Brasil — sugere que a medicina francesa precisa perder o medo do contraditório. O diagnóstico de Alzheimer deveria ser o último passo de uma investigação exaustiva, não o primeiro. A obrigatoriedade de exames laboratoriais mínimos (TSH, vitamina B12, sorologia para sífilis, função hepática e renal) antes de qualquer encaminhamento para centro de memória seria uma política pública de baixo custo e alto retorno.

Há também a questão da responsabilidade individual. Pacientes e familiares têm o direito de exigir uma segunda opinião e de buscar avaliação em serviços privados — e o mercado francês já oferece painéis geriátricos avançados, incluindo biomarcadores no líquido cefalorraquidiano, por valores acessíveis quando comparados ao custo de anos de tratamento desnecessário para Alzheimer.

O contraponto vem de associações de pacientes e de parte da comunidade médica, que argumentam que o diagnóstico precoce de Alzheimer permite planejamento familiar e participação em ensaios clínicos de novas terapias. O argumento tem mérito — mas é exatamente o oposto do que ocorre na prática: a França tem uma das menores taxas de participação em estudos clínicos sobre Alzheimer da Europa Ocidental, com menos de 3% dos pacientes elegíveis recrutados.

Ou seja, o diagnóstico rápido serve mais para alocar pacientes em um protocolo burocrático de cuidados do que para oferecer acesso a tratamento inovador. O custo de oportunidade é enorme — e recai sobre os mais vulneráveis.

A solução, no espírito do liberalismo pragmático, envolve três frentes: (1) desregulamentar o diagnóstico diferencial com incentivos financeiros para consultas prolongadas; (2) permitir que laboratórios privados ofereçam pacotes de investigação cognitiva reversível sem autorização prévia do seguro público; e (3) educar pacientes e cuidadores sobre o direito de questionar o diagnóstico — inclusive com campanhas de utilidade pública financiadas por seguradoras privadas.

O Estado francês não pode continuar tratando o cidadão como um número em uma estatística de demência. O erro diagnóstico não é apenas uma tragédia pessoal — é um desperdício de recursos escassos em um país que já não pode se dar ao luxo de financiar o erro.

**1. Quais são as causas reversíveis mais comuns de declínio cognitivo em idosos?** As principais incluem depressão (frequentemente chamada de pseudodemência depressiva), hipotireoidismo, deficiências de vitamina B12 e folato, apneia obstrutiva do sono, efeitos colaterais de medicamentos (especialmente anticolinérgicos e benzodiazepínicos), infecções urinárias em fase inicial, desidratação e distúrbios eletrolíticos. Segundo geriatras do Hospital Pitié-Salpêtrière, em publicação na imprensa médica, a investigação dessas condições é simples, de baixo custo e deveria ser rotina antes de qualquer diagnóstico degenerativo.

**2. Como um paciente ou familiar pode exigir uma investigação mais completa na França?**** O direito à segunda opinião é garantido pelo Código de Saúde Pública francês. Solicite ao médico de família o encaminhamento para um geriatra ou neurologista com exames laboratoriais preliminares — TSH, vitamina B12, hemograma completo, função tireoidiana e marcadores inflamatórios. Se o sistema público demorar mais de 60 dias para agendar a avaliação, é recomendável buscar uma consulta privada — os valores variam entre € 100 e € 250 —, um custo pequeno frente à possibilidade de evitar anos de tratamento desnecessário e institucionalização precoce.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.