Paris, 26 de setembro de 2026 – Uma comissão de especialistas, convocada pelo Ministério da Cultura francês, divulgou esta semana um ranking das 100 pinturas que, segundo eles, devem ser vistas pelo menos uma vez na vida. A lista, que abrange desde o Renascimento italiano até o expressionismo abstrato, gerou imediata controvérsia, não apenas pela ausência de certos nomes consagrados, mas pela própria premissa de se estabelecer um cânone obrigatório. Em uma nação que se orgulha de sua herança intelectual, a pergunta central não é apenas 'o que está na lista', mas sim 'quem tem o direito de nos dizer o que é arte indispensável'.
O palmarès, amplamente divulgado pela imprensa francesa, inclui obras-primas como 'A Liberdade Guiando o Povo', de Delacroix, 'A Noite Estrelada', de Van Gogh, e 'Guernica', de Picasso. Os critérios, conforme descrito no relatório oficial, incluíram 'impacto histórico na evolução da técnica pictórica', 'representatividade de um movimento artístico' e 'relevância para a identidade cultural europeia'. No entanto, esta abordagem centralizada e prescritiva do que pode ser considerado arte essencial entra em choque com a tradição liberal de autonomia do indivíduo e do mercado.
Para FORTIS NEWS, esta não é uma simples curiosidade cultural, mas um sintoma de uma mentalidade tecnocrática que insiste em substituir o julgamento individual por uma 'curadoria estatal' supostamente iluminada. Quando um grupo seleto de acadêmicos determina o que é valioso em termos de estética, ocorre uma dupla violência: contra a liberdade de interpretação do cidadão comum e contra os próprios artistas, cujo valor de mercado e legado são distorcidos por uma aprovação exógena. Em um estado mínimo, o papel do governo não é definir listas de consumo obrigatório, mas sim proteger a propriedade privada, garantir a livre circulação de ideias e obras, e desobstruir o caminho para que o mercado — composto por milhões de decisões individuais — faça a curadoria da relevância artística.
Nossa análise, portanto, não se detém na pertinência de se incluir ou excluir tal ou qual pintor, mas sim na estrutura de poder que essa iniciativa representa. A burocracia cultural francesa, ao criar uma hierarquia de 'dever ver', tenta esculpir o gosto popular de cima para baixo. No entanto, a história do Ocidente demonstra que os grandes movimentos artísticos não nasceram de comissões governamentais, mas de patronos privados, de boêmios marginalizados e de mercados vibrantes. O impressionismo, outrora ridicularizado pela crítica oficial, precisou de marchands e colecionadores independentes — e não de um ranking estatal — para se consagrar em sua genialidade única.
A lista francesa, ora divulgada, equivale a um controle de qualidade centralizado que sufoca o capitalismo cultural do pujante ecossistema de galerias, feiras e leilões que prosperam em Paris. O verdadeiro 'palmarès' contemporâneo já existe: é o volume de visitantes espontâneos aos museus e o valor alcançado por obras em leilões, que hoje podem ser verificados em tempo real. Contudo, estes mercados operam sob ataques constantes de regulamentações excessivas e de narrativas identitárias que criminalizam a comercialização da arte. Em vez de um plano de incentivo às galerias independentes ou de redução da carga tributária sobre transações de arte — o que viria a democratizar o acesso de fato —, o governo francês opta por uma lista prescritiva.
Essa atitude é paternalista: pressupõe que o cidadão francês é incapaz de descobrir, por meios próprios, o que é uma pintura boa ou relevante para sua vida. Tal postulado é a base do estado de bem-estar cultural, que gera apatia e dependência. Sob uma ótica liberal-conservadora, a arte é um patrimônio a ser preservado por instituições privadas e famílias, nunca um instrumento de engenharia social. O êxito de uma obra-prima não é validado pelo aval de especialistas, mas sim pelo testemunho do tempo e pela ação espontânea de admiradores que se dispõem a pagar por ela ou a atravessar o mundo para vê-la.
Por Renan Filho · 2026-09-26