Nova York, 24 de setembro de 2026 — O discurso de Benyamin Netanyahu na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas foi direto ao ponto. Diante de uma plateia que incluía diplomatas de 193 países, o primeiro-ministro israelense respondeu às crescentes pressões de França e Reino Unido sobre a expansão de assentamentos judaicos na Cisjordânia. "Eles vêm aqui falar de terra ocupada quando suas próprias colônias, no passado, cobriam o planeta inteiro", disparou, arrancando reações mistas de aplausos e silêncio constrangedor.
O ataque foi uma resposta direta à declaração conjunta franco-britânica lida na manhã de quarta-feira, em que os representantes dos dois países condenavam "qualquer ação unilateral que altere as fronteiras de 1967" e pediam "o fim imediato da construção de novos assentamentos". A fala de Netanyahu, em tom de ironia mordaz, lembrou que França e Reino Unido, entre os séculos XVI e XX, controlaram territórios que iam da América do Norte ao Sudeste Asiático, da África Subsariana ao Oriente Médio. "Não aceitamos sermos julgados por quem construiu impérios sobre os escombros de nações inteiras", completou.
O contexto geopolítico não poderia ser mais explosivo. Na semana passada, Israel anunciou a aprovação de mais 3.500 unidades habitacionais em áreas contestadas da Judeia e Samaria — nome bíblico para a Cisjordânia. O governo francês, por meio de nota oficial do Ministério das Relações Exteriores, classificou a medida como "ilegal sob o direito internacional" e "obstáculo grave à solução de dois Estados". O Reino Unido, alinhado, emitiu comunicado conjunto com Paris afirmando que "a colonização moderna de terras palestinas mina a confiança no processo de paz". Netanyahu, no entanto, não se intimidou.
"Há uma hipocrisia monumental no discurso europeu", afirmou o premier, em publicação nas redes sociais minutos após o discurso. "Enquanto a França ainda mantém presença militar no Sahel e o Reino Unido administra Gibraltar e as Malvinas como se fossem colônias do século XIX, ousam nos acusar de expansionismo?" A declaração rapidamente viralizou, com mais de 2 milhões de visualizações nas primeiras duas horas — e reações igualmente divididas.
Por que isso importa? Porque a crise de credibilidade da ONU e das potências europeias diante do conflito israelo-palestino atinge um novo patamar. A França mantém tropas em cinco países africanos (Níger, Chade, Djibuti, Gabão e Senegal) sob acordos de cooperação militar que muitos críticos chamam de 'neocolonialismo'. O Reino Unido, por sua vez, continua a administrar 14 Territórios Ultramarinos Britânicos, incluindo as Ilhas Malvinas/Falklands — alvo de disputa com a Argentina — e Akrotiri e Dhekelia, bases militares em Chipre. "É no mínimo desconcertante ver Londres e Paris darem lições de descolonização", analisa o professor de relações internacionais David Goldman, do Hudson Institute, em artigo publicado pelo The Jerusalem Post.
Análise FORTIS: O posicionamento de Netanyahu, embora agressivo, tem lastro factual inegável. Os impérios coloniais francês e britânico não são apenas memória histórica — suas estruturas legais, tratados e bases militares permanecem ativas em mais de 30 territórios ao redor do mundo. Cobrar de Israel o fim da ocupação de territórios cujas fronteiras foram definidas em guerras de 1967 e 1973, enquanto se ignora a ocupação francesa de ilhas do Pacífico (Nova Caledônia) ou a britânica de Diego Garcia (onde uma base dos EUA foi instalada sem consulta à população nativa), revela um duplo padrão moral que enfraquece qualquer argumentação jurídica. A verdade factual é clara: a França ainda tributa pesadamente suas ex-colônias via o 'imposto colonial' disfarçado de 'taxa de solidariedade' (o chamado 'prélevement sur les reserves de change' imposto a países africanos), enquanto o Reino Unido mantém controle direto sobre territórios ultramarinos cujas populações não têm representação plena no Parlamento de Westminster.
Contraponto: Críticos de Netanyahu, como a ONG Human Rights Watch, argumentam que a comparação é falaciosa. "Territórios ultramarinos franceses e britânicos foram, em sua maioria, integrados administrativamente às respectivas nações, com cidadania plena e direitos políticos — o que não ocorre com os palestinos sob ocupação militar israelense", afirmou a entidade em nota. Além disso, a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, de 1967, exige a retirada de Israel "de territórios ocupados" — sem contrapartida equivalente para ex-colônias europeias já independentes. Ainda assim, o argumento do premiê israelense expõe uma fragilidade central: como exigir desocupação total de Israel se as próprias potências julgadoras mantêm soberania sobre territórios conquistados por guerra ou colonização, como é o caso do Saara Ocidental (controlado pelo Marrocos, aliado de França)?
Por Renan Filho · 2026-09-24