O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou nesta quinta-feira, em pronunciamento oficial transmitido pela Deutschlandfunk, que seu governo permanecerá no cargo “pelo tempo que for necessário para assegurar o futuro democrático da Alemanha”. A declaração ocorre em um momento de forte pressão política: a coalizão CDU/CSU enfrenta dissidências internas, a economia alemã encolheu 0,3% no segundo trimestre de 2026, e a popularidade do governo caiu para 34%, segundo pesquisa do instituto Infratest dimap divulgada pela ARD.
Merz não deu detalhes sobre um eventual plano de reforma constitucional ou nova moção de confiança, mas afirmou que “a democracia alemã é maior do que qualquer crise partidária” e que “o Estado de direito será mantido com mão firme”. A declaração foi interpretada por analistas como uma resposta direta às crescentes vozes na ala esquerda do SPD e dos Verdes que pedem novas eleições antecipadas. Para a França, vizinha e principal parceira da Alemanha na União Europeia, o recado de Merz tem implicações profundas.
O governo de Emmanuel Macron, que há meses negocia com Berlim um novo pacto orçamentário para a zona do euro, vê com apreensão a crise política alemã. Sem um chanceler forte e com uma coalizão frágil, a Alemanha tende a bloquear qualquer proposta de mutualização de dívida ou de aumento do orçamento comum da UE. Em entrevista ao jornal Le Figaro no fim de agosto, o ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, alertou que “a estabilidade alemã é a condição para a estabilidade europeia”. Agora, com Merz prometendo segurar o governo a todo custo, Paris precisa se preparar para uma Alemanha que, mesmo instável, não abrirá mão do controle fiscal.
POR QUE ISSO IMPORTA
Para o cidadão francês, a permanência de Merz pode significar mais do que um alívio político: ela evita o colapso da locomotiva europeia em um momento em que a China desacelera, os EUA se fecham em tarifas e a guerra na Ucrânia consome recursos. Uma Alemanha sem governo levaria a uma paralisia nas decisões do Conselho Europeu, afetando desde sanções à Rússia até a distribuição de fundos de coesão. A promessa de Merz de “garantir o futuro democrático” é, na prática, uma promessa de que a Alemanha continuará pagando as contas da Europa — mas com condições cada vez mais duras.
Merz já sinalizou, em reunião com líderes empresariais relatada pelo Handelsblatt, que pretende cortar subsídios verdes e reduzir o imposto corporativo de 30% para 25% até 2028. Isso pressiona a França a fazer o mesmo, sob pena de perder investimentos industriais para o leste alemão. Para o liberal francês, isso é uma oportunidade: forçar o governo Macron a finalmente diminuir o peso do Estado, que hoje consome 58% do PIB francês, contra 48% da Alemanha.
ANÁLISE FORTIS NEWS
Do ponto de vista liberal, a permanência de Merz é o mal menor, mas não é uma boa notícia. O chanceler representa a ala mais conservadora da CDU, mas seu governo está refém de uma coalizão que inclui sociais-democratas e verdes. Isso significa que a “democracia” que ele promete proteger é, na verdade, o status quo — um Estado inchado, burocracia asfixiante e uma política fiscal que sufoca o empreendedorismo. O mercado de trabalho alemão perdeu 150 mil postos formais nos últimos 12 meses, segundo dados do Bundesbank.
A verdade é que Merz não tem mandato para reformas profundas. Ele governa com uma margem de 12 cadeiras no Bundestag. Qualquer tentativa de liberalização — como a reforma da previdência ou a desburocratização de licenças ambientais — será bloqueada pela ala esquerda da coalizão. Portanto, a promessa de “futuro democrático” é, na prática, um freio de mão puxado contra qualquer mudança estrutural. O liberalismo alemão precisa de mais, não de menos instabilidade controlada.
No plano franco-alemão, a consequência imediata será o adiamento de qualquer debate sério sobre a reforma das regras fiscais da UE. França quer gastar mais; Alemanha quer gastar menos. Com Merz fragilizado, o resultado será o imobilismo. E o imobilismo, para um liberal, é o pior dos mundos: mantém os impostos altos, as barreiras comerciais firmes e a inovação estagnada.
CONTRAPONTO
Há quem veja a permanência de Merz como uma vitória da estabilidade. O economista-chefe do IFO Institute, Clemens Fuest, escreveu em artigo no Die Zeit que “a saída antecipada de Merz abriria as portas para uma aliança entre a AfD e a esquerda radical nas eleições de 2027”. É um cenário que preocupa Bruxelas e Paris. Nessa leitura, a promessa de Merz é um escudo contra o populismo. O problema é que esse escudo é feito de papelão: segura o populismo por alguns meses, mas não resolve as causas que o alimentam — desemprego jovem, imigração descontrolada e perda de competitividade industrial.
Para a França, o pior cenário não é Merz cair, mas Merz ficar e não fazer nada. É uma Alemanha zumbi — que gasta mal, burocratiza tudo e exporta insegurança jurídica para o resto da Europa. Os liberais franceses que torcem por Merz deveriam torcer, na verdade, por um governo alemão que finalmente enfrente o tabu das reformas estruturais. Enquanto isso não acontece, Paris que se prepare: a conta da estabilidade alemã será paga com mais euros, mais dívida e menos liberdade econômica.
**1. Se Merz cair, a democracia alemã corre risco real?** Não imediato. A Alemanha tem instituições sólidas e uma Constituição robusta. O risco maior é de paralisia legislativa e crescimento da extrema-direita, que hoje tem 21% das intenções de voto, segundo a ARD. Uma eventual eleição antecipada poderia levar a uma coalizão ainda mais frágil ou até a um governo minoritário da CDU com apoio tácito da AfD — cenário que Merz quer evitar a todo custo.
**2. Como essa crise afeta diretamente o bolso do francês?** De duas formas. Primeiro, uma Alemanha instável reduz a demanda por produtos franceses, afetando exportações de vinhos, queijos e automóveis. Segundo, se Merz cair e a Alemanha parar de aprovar novos fundos europeus, a França pode perder até 12 bilhões de euros do Plano de Recuperação pós-pandemia que ainda não foram liberados. Para o contribuinte francês, isso significa mais pressão sobre o orçamento nacional e menos investimento público.
**3. Qual seria a posição ideal de um liberal francês diante desse cenário?** Apoiar reformas alemãs que reduzam o tamanho do Estado e desregulamentem a economia, mesmo que isso custe mais instabilidade de curto prazo. Um liberal sério não troca liberdade por estabilidade aparente. Deveria pressionar Macron a usar a crise alemã como argumento para acelerar a desburocratização e a redução de impostos na França, em vez de pedir mais federalismo fiscal a Berlim.
Por Renan Filho · 2026-09-21