A Alemanha acordou nesta segunda-feira, 19 de setembro de 2026, com um cenário político que muitos analistas de Berlim classificam como um terremoto silencioso. Friedrich Merz, o rosto da União Democrata-Cristã (CDU) no pós-Merkel, não apenas perdeu as eleições regionais realizadas neste domingo: ele foi varrido do mapa político em estados-chave.
Os resultados preliminares, divulgados pela emissora pública ARD, mostram que a CDU de Merz caiu para o terceiro lugar na Turíngia e na Saxônia, estados que eram considerados redutos históricos do partido. A grande vitoriosa foi a Alternativa para a Alemanha (AfD), que consolidou seu posto como principal força política no Leste, seguida de perto por uma aliança de esquerda radical e verdes.
Para o mercado financeiro e para os liberais europeus, a notícia é um balde de água fria. Merz, que assumiu a presidência da CDU em 2022 com a promessa de enterrar o legado estatizante de Angela Merkel e recolocar a Alemanha na rota do livre mercado, falhou miseravelmente em traduzir seu discurso em votos. Em publicação nas redes sociais, o próprio Merz reconheceu a derrota, chamando o resultado de "amargo", mas sem apresentar uma estratégia clara de renúncia ou mudança de rumo.
O contexto é brutal. A Alemanha enfrenta uma recessão técnica, com o PIB encolhendo 0,3% no segundo trimestre de 2026, segundo dados do Destatis. O desemprego jovem atingiu 9,1%, e a desindustrialização acelera com a fuga de empresas para os Estados Unidos e para a Polônia, atraídas por menores custos de energia e menos burocracia. Neste cenário, o eleitor alemão puniu a CDU por sua falta de coragem.
**Por que isso importa?**
A derrota de Merz não é apenas um problema interno da CDU. É um sinal de que a direita liberal alemã está perdendo a batalha das ideias para o populismo antissistema da AfD e para o coletivismo da esquerda. Merz tentou se posicionar como um reformista, defendendo cortes de impostos e desregulamentação, mas na prática, seu partido votou a favor de pacotes de auxílio estatal bilionários e apoiou o aumento do salário mínimo. O eleitor percebeu a incoerência.
Na França, onde a imprensa tradicional já trata o caso como "o colapso do centro alemão", a leitura é de que o modelo de Merkel, agora sem Merkel, ruiu de vez. O jornal Le Figaro, em editorial desta manhã, classificou a CDU como um "partido sem alma", que não consegue mais representar nem os trabalhadores nem os empresários. A consequência prática é que a Alemanha se torna um parceiro ainda mais instável para a União Europeia, incapaz de liderar reformas estruturais.
**Análise FORTIS**
Do ponto de vista liberal, o resultado é uma lição clara: meias reformas não vencem eleições. Merz tentou agradar a todos e acabou agradando a ninguém. Enquanto a AfD capitalizou o medo da imigração descontrolada e a esquerda prometeu mais subsídios, a CDU ficou no meio do caminho, propondo ajustes cosméticos em um Estado que já consome 48% do PIB alemão.
A estratégia de Merz de atacar a AfD como "radical" e ao mesmo tempo copiar pautas sociais-democratas para tentar conquistar o centro foi um suicídio político. O mercado de ações em Frankfurt abriu em queda de 1,2% nesta manhã, refletindo a percepção de que a Alemanha continuará refém de uma coalizão frágil entre social-democratas e verdes, ou pior, de um governo de minoria que depende da extrema-esquerda.
**Contraponto**
Defensores de Merz argumentam que a derrota é culpa do legado de Merkel e que o partido precisa de mais tempo para se renovar. Segundo o deputado da CDU, Thorsten Frei, em entrevista à Rádio Deutschlandfunk, "o partido está em processo de redefinição ideológica e os resultados regionais não refletem a força nacional". No entanto, este argumento ignora que a AfD, que mal existia há dez anos, já superou a CDU em pelo menos seis estados.
Outro contraponto vem dos setores empresariais alemães, que ainda enxergam Merz como o único nome capaz de dialogar com Bruxelas sem romper a barreira do politicamente correto. Contudo, a Bolsa de Valores de Frankfurt e o índice DAX não parecem compartilhar deste otimismo. O capital não espera. Ele migra para onde há segurança jurídica e previsibilidade fiscal, e a Alemanha de Merz não oferece nenhuma das duas.
**1. A derrota de Merz significa o fim da CDU como força política nacional?** Não necessariamente, mas o partido está em um beco sem saída. A CDU ainda tem força no Oeste da Alemanha, mas perdeu completamente a hegemonia no Leste. Se Merz não renunciar e não houver uma guinada radical para o liberalismo econômico e para a defesa intransigente da soberania nacional, o partido corre o risco de se tornar uma legenda nanica em menos de uma década. A história mostra que partidos de centro que não se posicionam claramente são engolidos pelos extremos.
**2. Como este resultado afeta a política econômica da União Europeia?** De forma negativa. A Alemanha era o motor fiscal da UE. Com um governo fraco e uma oposição desmoralizada, o país tende a se fechar em políticas protecionistas e de subsídios estatais para tentar conter a crise. Para a França, que já enfrenta seus próprios problemas fiscais, isso significa menos pressão alemã por reformas de austeridade, mas também menos crescimento na zona do euro. Empresas exportadoras francesas, como as do setor de luxo e automotivo, sentirão o impacto da redução da demanda alemã.
Por Renan Filho · 2026-09-21