O deputado Jean-Luc Mélenchon, líder do partido França Insubmissa (LFI), voltou a causar polêmica ao declarar, em entrevista à rádio France Inter no último domingo, que a França registra menos licenças médicas do que Bélgica, Espanha e Alemanha. A afirmação, feita no contexto de um debate sobre o déficit da Seguridade Social, sugere que o sistema francês seria mais eficiente ou menos explorado que o de seus vizinhos. Mas os números oficiais contam outra história.
Segundo o relatório mais recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em julho de 2025, a França apresenta uma taxa de absenteísmo por doença equivalente a 4,7% do total de horas trabalhadas, contra 3,9% na Alemanha e 4,1% na Espanha. Apenas a Bélgica supera a França, com 5,2%. Em dias de licença médica por empregado ao ano, a França marca 8,2 dias, contra 6,9 na Alemanha e 7,1 na Espanha. Ou seja, a afirmação de Mélenchon é falsa para dois dos três países citados.
Por que isso importa? Porque a distorção dos dados alimenta um discurso que legitima o aumento de gastos públicos sem a contrapartida de reformas estruturais. O sistema francês de licenças médicas é generoso: o empregado recebe salário integral nos primeiros dias, e o Estado cobre boa parte do custo por meio da Seguridade Social. Em 2024, as despesas com indenizações por doença atingiram 38 bilhões de euros, um crescimento de 6% em relação ao ano anterior, conforme o Ministério das Finanças. Isso pressiona a carga tributária sobre os trabalhadores e empresas, que já é uma das mais altas da União Europeia.
A análise FORTIS aponta que Mélenchon, típico representante da esquerda estatista, tenta minimizar o problema para evitar reformas liberalizantes. Ao comparar a França com países de menor absenteísmo, ele ignora as diferenças regulatórias. Na Alemanha, por exemplo, os empregadores arcam com os primeiros seis semanas de licença, mas há mecanismos de controle mais rígidos, como a exigência de atestado médico a partir do primeiro dia em muitos contratos. Já na França, a obrigatoriedade só começa após três dias, e as fraudes são estimadas em 2 bilhões de euros anuais, segundo a Corte de Contas.
O contraponto é que Mélenchon pode ter se referido a um recorte específico: as licenças médicas de curta duração (menos de 15 dias) no setor privado. Nesse nicho, a França tem 5,1 dias por empregado, contra 5,4 na Bélgica, 4,3 na Espanha e 3,8 na Alemanha. Mesmo assim, perde para a Alemanha e Espanha. Apenas a Bélgica fica à frente. O parlamentar, portanto, usou uma meia-verdade para defender seu modelo preferido de Estado previdenciário inchado.
A imprensa francesa, incluindo Les Décodeurs do jornal Le Monde, já desmentiu a afirmação, mas as redes sociais continuam amplificando o discurso. Para o liberalismo, essa controvérsia evidencia como dados seletivos são usados para justificar intervenções estatais que sufocam a economia. Enquanto a França não enfrentar o custo real das licenças médicas — com mais responsabilidade individual e menos paternalismo —, o contribuinte continuará pagando a conta de um sistema ineficiente.
Por Renan Filho · 2026-09-22