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Internacional

A social-democrata que enfrenta a AfD: Manuela Schwesig e a resistência liberal no leste alemão

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

Enquanto a Alternativa para a Alemanha (AfD) avança nas pesquisas na ex-Alemanha Oriental, a ministra-presidente de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Manuela Schwesig, tornou-se o principal escudo do establishment contra o populismo de direita. Mas sua receita estatizante pode ser o combustível que alimenta o fogo que ela tenta apagar.

A pequena Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental (MVP) — estado rural banhado pelo Mar Báltico e marcado pelo desindustrialização pós-comunista — virou laboratório de uma batalha que ecoa em toda a Europa. No centro do ringue, Manuela Schwesig, do Partido Social-Democrata (SPD), enfrenta a ascensão implacável da AfD, que nas últimas pesquisas estaduais ultrapassou os 25% das intenções de voto, segundo levantamento do instituto Infratest dimap divulgado em setembro.

Schwesig, no cargo desde 2017, consolidou sua imagem como “muro de contenção” contra a extrema-direita. Em uma série de aparições na emissora pública NDR, ela classificou a AfD como “um perigo para a democracia e para a economia do estado”. No entanto, a mesma política que condena o protecionismo xenófobo do partido rival adota uma agenda econômica que sufoca o empreendedorismo local, com altos impostos estaduais e subsídios seletivos para empresas estatais.

O contraste é evidente: enquanto Schwesig se orgulha de ter atraído investimentos para a indústria de baterias de lítio — com fábricas da Northvolt e da Tesla em construção —, pequenos empresários do interior reclamam de burocracia asfixiante. Em declaração ao jornal local Ostsee-Zeitung, o presidente da Associação de Médios Empresários de MVP, Andreas T., afirmou que “a carga tributária estadual sobre rendas de aluguéis e pequenos negócios cresceu 12% desde 2019, enquanto a administração pública incha”.

Por que isso importa? Porque a resistência ao extremismo não pode vir acompanhada de mais Estado, sob risco de alimentar o próprio monstro que se quer combater. A AfD capitaliza exatamente o descontentamento de quem se sente abandonado por Berlim e por Schwerin — a capital estadual. O livre mercado, com menor intervenção, seria a antítese natural do populismo: ao gerar oportunidades reais, desarma o discurso de “nós contra eles”. Mas Schwesig, fiel à tradição social-democrata alemã, insiste em uma terceira via que combina subsídios generosos para gigantes industriais e regras pesadas para o pequeno comércio.

Análise FORTIS: A ministra-presidente merece crédito por não ceder ao canto da sereia identitário da AfD. Em declaração ao semanário Der Spiegel, ela afirmou que “a resposta à crise não é fechar fronteiras, mas reconstruir a confiança nas instituições”. É um discurso corajoso em um estado onde a desconfiança no parlamento chega a 70%, segundo pesquisa da Universidade de Greifswald. Contudo, a confiança não se reconstrói com mais controle estatal, mas com liberdade econômica real. Enquanto MVP tiver uma das maiores cargas fiscais sobre heranças e propriedades da Alemanha — 19% acima da média nacional —, o empreendedor continuará migrando para o Oeste ou para a Polônia vizinha, onde o imposto corporativo é 9% menor.

O contraponto surge dos próprios aliados de Schwesig. Parte da esquerda moderada argumenta que, sem uma mão forte do Estado, a região jamais se recuperaria do colapso pós- reunificação. “O mercado sozinho não reconstruiu a Pomerânia”, disse o economista e deputado estadual do SPD, Klaus-J., em entrevista à rádio regional Antenne MV. “Precisamos de políticas ativas de industrialização.” Mas a história mostra que os bilhões de euros injetados desde 1990 produziram uma economia dependente de transferências federais — mais de 40% do PIB de MVP ainda vem de subsídios diretos ou indiretos de Berlim.

A ironia máxima é que, quanto mais Schwesig tenta isolar a AfD com medidas assistencialistas e discurso moralista, mais ela entrega munição para o partido de direita. Em publicação no X (antigo Twitter), o líder regional da AfD, Nikolaus K., escreveu: “Ela chama a AfD de perigo, mas as próprias políticas dela nos enchem de votos. Nós somos o resultado do fracasso social-democrata.” Infelizmente, há uma centelha de verdade nessa provocação.

Para o leitor liberal, a lição é clara: combater o populismo exige oferecer uma alternativa crível, não apenas gritar “nazista”. Schwesig precisa urgentemente repensar seu modelo econômico. Cortar impostos, desregular setores como energia e construção civil, e privatizar empresas públicas deficitárias (como a ferrovia regional) seriam passos concretos para estancar a hemorragia de votos. Até lá, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental continuará sendo o termômetro de uma Alemanha dividida entre o que foi, o que é e o que pode se tornar: uma terra de oportunidades ou de ressentimento.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.