FORTIS
← FORTIS
Internacional

Macron e Trump: o eixo franco-americano que pode redesenhar a guerra na Ucrânia e o caos no Oriente Médio

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou ter tido uma “discussão muito construtiva” com o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a Ucrânia e o Oriente Médio. Por trás da cordialidade diplomática, há um jogo de interesses que envolve comércio, segurança e a aposta liberal na paz pela força.

Em um cenário global cada vez mais fragmentado, a notícia de que Emmanuel Macron e Donald Trump trocaram impressões em tom positivo soa como uma rara nota de estabilidade. Macron, em declaração à imprensa após o encontro, classificou o diálogo como “muito construtivo”, mencionando especificamente a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio. Não é todo dia que um líder europeísta e um ex-presidente americano, com visões de mundo tão distintas, sentam-se à mesa para alinhar estratégias.

Contudo, por trás da cortesia protocolar, o que se desenha é um movimento pragmático de ambos os lados. Macron sabe que a Europa, sem os Estados Unidos, carece de capacidade militar e logística para sustentar a Ucrânia indefinidamente. Trump, por sua vez, busca consolidar sua imagem de estadista capaz de acabar com guerras em 24 horas — mesmo que, para isso, precise engolir parte do discurso intervencionista francês no Oriente Médio. A pauta, portanto, não é sobre simpatia pessoal, mas sobre interesses concretos.

A posição francesa no conflito ucraniano é conhecida: Macron já defendeu, em diversas ocasiões, garantias de segurança para Kiev que não passem necessariamente pela adesão à Otan. Já Trump, em sua gestão, foi o primeiro presidente americano a fornecer armas letais à Ucrânia, mas também não esconde a desconfiança em relação aos aliados europeus que não gastam 2% do PIB em defesa. Nesse contexto, a “discussão construtiva” pode ter sido, na prática, uma troca de concessões: os EUA seguem no apoio militar, enquanto a França assume a dianteira na reconstrução econômica do leste europeu — um campo fértil para empresas privadas e investimentos de livre mercado.

O Oriente Médio, por sua vez, entra na equação como o contraponto trágico. A região segue em ebulição, com o Irã cada vez mais próximo de enriquecer urânio em nível militar e as monarquias do Golfo diversificando suas alianças para além dos EUA. Macron, que já flertou com Teerã em acordos bilaterais, tenta agora convencer Trump a endurecer o discurso sem romper o canal diplomático. A resposta republicana, tradicionalmente alinhada a Israel e à Arábia Saudita, tende a exigir contrapartidas concretas — como sanções mais duras e apoio logístico a grupos moderados — em troca de qualquer intervenção coordenada.

Para o liberal, o ponto central dessa negociação é a liberdade econômica como ferramenta de paz. Se a Ucrânia quer se defender, precisa de armas e financiamento — e isso se resolve com menos burocracia e mais agilidade no comércio de defesa. Se o Oriente Médio quer estabilidade, precisa de menos petroestados e mais empreendedorismo, algo que a França pode incentivar por meio de acordos de livre comércio com a região, como já faz com os países do Golfo. A diplomacia, nesse sentido, não é um fim em si, mas um meio para criar ambientes onde o mercado — e não o Estado — dita as regras.

A análise da FORTIS, contudo, não pode ignorar as contradições. Macron representa o modelo de intervencionismo estatal francês, com forte presença do governo na economia e na segurança. Trump, embora autoproclamado defensor do livre mercado, não hesitou em impor tarifas e subsídios quando lhe convinha. A “discussão construtiva” pode ser apenas uma trégua tática, um casamento de conveniência para as câmeras, sem resultados concretos no curto prazo. A história recente está repleta de cúpulas amigáveis que terminaram em impasses.

Além disso, o eleitorado de ambos os líderes pressiona em direções opostas. Na França, a esquerda acusa Macron de ceder à pressão americana; nos EUA, a ala mais isolacionista do Partido Republicano vê com maus olhos qualquer envolvimento no leste europeu. Sem apoio doméstico sólido, qualquer acordo firmado em gabinetes privados corre o risco de ser revertido na próxima eleição. A estabilidade, portanto, é frágil e depende de uma conjuntura que pode mudar a qualquer momento.

O que fica claro é que o mundo está cansado de discursos vazios. A população ucraniana enfrenta mais um inverno sem energia, enquanto os civis do Oriente Médio assistem à perpetuação de conflitos sectários que já duram décadas. A abordagem liberal, baseada em liberdade, propriedade privada e contratos voluntários, oferece um caminho — mas exige coragem para romper com o status quo. Macron e Trump, com todo o seu protagonismo, ainda não demonstraram essa coragem.

Enquanto isso, as bolsas reagem com otimismo cauteloso, e os contratos de gás natural liquefeito voltam a ser negociados em alta. O mercado, esse sim, entendeu o recado: quando as grandes potências conversam, o risco geopolítico diminui, e o capital volta a fluir. Se a “discussão construtiva” se traduzir em ações concretas, veremos um novo capítulo na geopolítica mundial. Caso contrário, teremos apenas mais um encontro de cúpula esquecível.

A pergunta que fica é: até quando a Europa continuará terceirizando sua segurança para os EUA, enquanto a Ásia e o Oriente Médio avançam em acordos bilaterais que ignoram o Ocidente? A resposta, para o liberal, não está em discursos inflamados, mas em reformas estruturais que devolvam aos indivíduos o controle sobre suas vidas. Enquanto isso não acontece, resta acompanhar os próximos capítulos dessa novela diplomática — e torcer para que o pragmatismo fale mais alto que a ideologia.

A FORTIS continuará monitorando os desdobramentos desse diálogo, com a lupa da liberdade econômica sobre cada declaração e cada política pública. Afinal, em um mundo de incertezas, os princípios são o único farol confiável.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.