Em publicação nas redes sociais nesta sexta-feira, 19 de setembro, Emmanuel Macron afirmou que deseja "debater em toda franqueza" com Donald Trump para "orientá-lo rumo às boas decisões" — como se o presidente americano fosse um aluno em recuperação. A declaração, feita às vésperas da Assembleia Geral da ONU, escancara a estratégia de Paris: tentar domar o ocupante da Casa Branca com tapinhas nas costas enquanto os EUA avançam com pautas protecionistas que atingem diretamente o vinho, o queijo e a indústria aeroespacial francesa.
O problema é que essa abordagem já tem histórico comprovado de fracasso. Em 2019, Macron deixou a reunião do G7 em Biarritz com a promessa de que uma trégua comercial estava próxima — semanas depois, Trump anunciava tarifas de 25% sobre US$ 7,5 bilhões em produtos europeus no caso Airbus. Agora, com o republicano de volta à Casa Branca e ameaçando tarifas de até 200% sobre vinhos franceses, o líder francês insiste na mesma cartilha.
POR QUE ISSO IMPORTA
A França é a maior vítima da guerra comercial que Trump promete travar contra a Europa. As exportações de vinhos e destilados franceses para os EUA somaram mais de US$ 3,8 bilhões em 2025, e setores como o de bens de luxo, cosméticos e componentes aeronáuticos dependem diretamente do acesso ao mercado americano. Qualquer retaliação americana não é apenas um aborrecimento — é um golpe direto no PIB francês, que já patina com crescimento próximo de zero.
A fala de Macron revela uma mentalidade estatista e dirigista: achar que é possível "gerenciar" a vontade de um líder estrangeiro com conversas privadas e jantares de Estado. Enquanto isso, os EUA seguem sua lógica de poder real — tarifas, subsídios à indústria doméstica e imposição de termos comerciais favoráveis. O resultado é que a França negocia de posição de fraqueza, sem ter construído alternativas de mercado ou acordos bilaterais com outras potências.
ANÁLISE FORTIS
Na visão liberal de livre mercado, a diplomacia de Macron não apenas é ineficaz — é contraproducente. Em vez de buscar proteção estatal ou acordos de cavalheiros, a França deveria avançar com o acordo Mercosul-União Europeia, que está parado há décadas por pressão dos agricultores franceses, e diversificar seus parceiros comerciais na Ásia e no Oriente Médio. Em vez de tentar "orientar" Trump, Macron deveria orientar seus próprios burocratas a reduzir a carga tributária e regulatória que afasta investimentos.
A postura francesa também ignora o óbvio: Trump é um negociador transacional, que respeita apenas quem demonstra força. Ao sinalizar que Paris está disposta a ceder para manter a paz, Macron enfraquece sua própria posição nas negociações. Cada concessão é interpretada como fraqueza — e a próxima demanda americana virá mais agressiva.
CONTraponto
Defensores de Macron argumentam que a "diplomacia do diálogo" é a única via possível para uma potência média como a França, e que o confronto aberto com Washington seria desastroso para a aliança militar e a segurança europeia. Segundo analistas em Paris, o presidente francês estaria tentando construir uma relação pessoal com Trump para mitigar os danos — como fez com sucesso em 2020, quando conseguiu adiar a imposição de tarifas sobre o setor digital.
O raciocínio tem mérito tático, mas falha quando se observa o histórico: mesmo com a relação próxima entre os dois líderes, os EUA continuaram com as tarifas sobre o aço, retiraram apoio aos acordos de Paris e sabotaram os acordos comerciais europeus. A "franqueza" de Macron é, na prática, um pedido de clemência — não um posicionamento estratégico.
**P: Macron realmente tem poder para mudar a posição de Trump sobre tarifas?** R: Historicamente, não. Trump mudou de posição apenas quando o custo político interno ou os mercados financeiros reagiram fortemente — não por causa de conversas com líderes estrangeiros. A influência de Macron é marginal, e ele já foi humilhado publicamente em diversas ocasiões, como quando Trump abandonou a cúpula do G7 em 2019 sem avisar.
**P: Qual seria a alternativa liberal à estratégia de Macron?** R: Em vez de buscar favor de Washington, a França deveria acelerar a assinatura de acordos comerciais com blocos como o Mercosul e o Sudeste Asiático, reduzir barreiras internas para estimular a competitividade, e adotar uma postura de reciprocidade — respondendo tarifa com tarifa em setores estratégicos, sem medo de retaliação. Apenas quem tem alternativas negocia com força.
Por Renan Filho · 2026-09-21