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Internacional

Macron na ONU: o berro de um intervencionista que se recusa a aceitar o fracasso do Estado grande

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

Em discurso na Assembleia Geral da ONU, Emmanuel Macron conclamou o mundo a não ceder ao “espírito de derrota”. Para liberais, porém, foi a defesa de mais Estado, mais regulação e mais tributação — exatamente o receituário que já levou a França ao sufoco econômico.

O presidente francês, Emmanuel Macron, subiu ao púlpito da 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, e disparou contra o que chamou de “espírito de derrota” que, segundo ele, estaria contaminando as democracias ocidentais. O discurso, intitulado “Ne cédons pas à l’esprit de défaite”, foi recebido com aplausos mornos e críticas veladas de diplomatas de países emergentes. A mensagem central: o multilateralismo precisa ser refundado, e a Europa deve liderar essa refundação.

Mas, para analistas liberais, o discurso de Macron soou como um desesperado pedido de socorro a um modelo que já deu inequivocamente errado. A França, sob sua gestão, acumulou dívida pública superior a 110% do PIB, viu a carga tributária atingir 45% e assistiu a sucessivas greves contra reformas que, na prática, nunca saíram do papel. O “espírito de derrota” que Macron condena é, na verdade, o resultado natural de um Estado que sufoca o empreendedorismo e engessa os mercados.

**Contexto: o que Macron disse de fato**

Em pronunciamento de cerca de 35 minutos, Macron criticou a “tentação do isolacionismo” e defendeu a criação de um “novo contrato global” baseado em solidariedade, regulação financeira e combate às mudanças climáticas. Segundo a transcrição oficial divulgada pelo Palácio do Eliseu, ele afirmou que “a ordem internacional está em ruínas” e que “o fracasso não é uma opção”. A frase de efeito que deu título ao discurso — “não cedamos ao espírito de derrota” — foi repetida três vezes, sempre associada à necessidade de mais cooperação interestatal.

O presidente francês também aproveitou para criticar Estados Unidos e China. A Washington, cobrou o fim dos subsídios industriais que, segundo ele, distorcem o comércio global. A Pequim, exigiu maior transparência nas cadeias produtivas de tecnologia. Nenhuma palavra, porém, sobre o protecionismo agrícola francês, que barra sistematicamente produtos do Mercosul e de países africanos na União Europeia.

**Por que importa: a retórica da resistência contra a realidade dos números**

O discurso de Macron não é um simples evento diplomático. Ele sinaliza a direção que a França — e, por extensão, a União Europeia — pretende tomar nos próximos anos. Ao insistir em mais regulação, mais transferência de renda entre nações e mais poder para organismos multilaterais, Macron aposta em um modelo que já fracassou em seu próprio quintal. A França, que já foi a segunda maior economia da Europa, agora perde dinamismo para Alemanha, Espanha e até Polônia.

Para o cidadão francês comum, o “espírito de derrota” é a fila de três horas no hospital público, o imposto de quase 70% sobre a gasolina e o desemprego jovem que teima em não cair abaixo dos 15%. Macron ignora que a derrota não é um sentimento, mas um fato econômico: o PIB per capita francês cresceu menos de 1% ao ano na última década, enquanto a dívida pública explodiu.

**Análise FORTIS: o canto da sereia estatista**

O liberalismo clássico ensina que prosperidade vem de liberdade econômica, contratos voluntários e governo limitado. O discurso de Macron é o oposto disso. Ele propõe mais concertação estatal, mais tributos globais (como a taxação de bilionários defendida pelo Brasil e pela França) e mais burocracia internacional. Aparentemente, Macron não aprendeu a lição da história: sempre que governos tentam planejar a economia globalmente, o resultado é estagnação, fuga de capitais e perda de competitividade.

A obsessão de Macron por “combater o espírito de derrota” esconde uma verdade inconveniente: a própria França é o maior exemplo do fracasso que ele condena. O país perdeu 30% de sua participação no comércio mundial desde 2000. Suas fronteiras comerciais estão cada vez mais fechadas. Sua inovação tecnológica é mínima comparada à de Estados Unidos e China. O “espírito de derrota” que Macron ataca é apenas o reflexo de décadas de política econômica anticrescimento.

**Contraponto: a visão keynesiana ainda domina o discurso oficial**

Defensores do discurso de Macron, como o economista Thomas Piketty (em entrevista ao jornal Le Monde), argumentam que a crise atual exige mais, e não menos, coordenação global. Para eles, o livre mercado é incapaz de resolver problemas como desigualdade, mudanças climáticas e pandemias. Sem um “Estado mundial forte”, dizem, o caos será inevitável.

O problema é que essa visão ignora que a história do pós-Segunda Guerra Mundial demonstra exatamente o contrário: os períodos de maior prosperidade foram aqueles em que os governos reduziram barreiras alfandegárias, firmaram acordos de livre comércio e limitaram a intervenção estatal. A China cresceu quando abriu sua economia, não quando a fechou. A França decaiu quando expandiu o Estado, não quando o encolheu.

**1. O discurso de Macron na ONU representa uma mudança de rumo na política externa francesa?**

Não. Conforme a análise do Instituto Liberal de Paris, o discurso apenas reafirma as linhas tradicionais da diplomacia francesa desde De Gaulle: defesa da soberania europeia, crítica ao unilateralismo americano e apelo por organismos multilaterais mais fortes. A diferença agora é o tom de urgência — a França sente que está perdendo influência e tenta, retoricamente, recuperá-la. Na prática, não há qualquer proposta concreta de reforma estrutural que incentive o livre mercado ou reduza o peso do Estado.

**2. O “espírito de derrota” condenado por Macron tem fundamento real?**

Sim e não. De um lado, é verdade que o pessimismo tomou conta de parte das elites europeias e norte-americanas, como mostram pesquisas do Pew Research Center. De outro, Macron usa a expressão para desqualificar qualquer crítica ao modelo intervencionista. Na França, muitos empresários — como o presidente da Federação das Indústrias Francesas, em declaração à Rádio France Info — já manifestaram que o “espírito de derrota” é alimentado justamente pelas políticas de Macron, que geram incerteza regulatória e carga tributária sufocante. Portanto, o remédio que o presidente propõe (mais Estado) é exatamente a causa da doença que ele diagnostica.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.