O presidente francês Emmanuel Macron subiu ao púlpito da ONU nesta quinta-feira, 19 de setembro de 2026, com um discurso que pretendia reafirmar o protagonismo francês em quatro frentes simultâneas: a segurança energética no Estreito de Ormuz, o apoio à Ucrânia, a busca por um cessar-fogo em Gaza e a regulação global da inteligência artificial. Conforme transcrição oficial divulgada pelo Palácio do Eliseu, Macron defendeu uma "ordem internacional baseada em regras" e criticou a "tentação do unilateralismo" que, segundo ele, ameaça a estabilidade global.
No entanto, para analistas liberais, o discurso revelou mais a velha inclinação francesa ao dirigismo estatal do que uma solução prática para os conflitos. No caso do Estreito de Ormuz, Macron pediu uma "força naval internacional" para garantir a livre navegação, após recentes apreensões de petroleiros pelo Irã. A proposta ecoa a Operação Sentinela da União Europeia, mas ignora que o verdadeiro gargalo não é militar, e sim a dependência do Ocidente de rotas controladas por regimes hostis, conforme apontou o economista Carlos Alberto Sardenberg em artigo no jornal O Estado de S. Paulo.
Sobre a guerra na Ucrânia, Macron repetiu o apoio "incondicional" a Kiev, mas evitou mencionar o envio de caças Mirage 2000, que vinha sendo especulado pela imprensa francesa. Em vez disso, sugeriu uma "conferência de paz" mediada pela ONU ainda em 2026. A declaração foi recebida com ceticismo pelo governo ucraniano, que, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores, considera qualquer negociação prematura enquanto tropas russas ocuparem territórios ucranianos. Para a corrente liberal, a insistência em mediações multilaterais apenas prolonga o conflito ao não reconhecer a necessidade de rearmamento rápido e dissuasão credível.
Quanto a Gaza, Macron condenou a escalada israelense e pediu a implementação imediata da solução de dois Estados. O discurso ocorre dias após o Hamas ter rejeitado uma proposta de trégua mediada pelo Catar. Em nota oficial, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que "a França precisa entender que Israel não negociará com terroristas". A posição francesa, embora moralmente consistente, ignora a realidade de que a Autoridade Palestina perdeu o controle de Gaza há quase duas décadas. Liberais apontam que a saída para a região passa por reformas econômicas e abertura de mercados, não por novos acordos diplomáticos vazios.
Por fim, o tema que mais gerou controvérsia foi a inteligência artificial. Macron propôs a criação de uma "Agência Global de IA" sob os auspícios da ONU, com poder de licenciar modelos e multar empresas que descumprirem regras de transparência. A ideia foi elogiada por ativistas do movimento "Slow AI", mas duramente criticada por representantes do Vale do Silício. Em publicação nas redes sociais, o CEO da Mistral AI, Arthur Mensch, classificou a proposta como "um cavalo de Troia para o protecionismo europeu". A França, que já aprovou o AI Act na União Europeia, tenta agora exportar seu modelo regulatório para o mundo, ignorando que a inovação floresce onde o Estado não interfere.
**Por que isso importa** O discurso de Macron ocorre em um momento de fragmentação da ordem global. A ONU perde relevância enquanto potências como China e Rússia avançam com suas próprias agendas. A tentativa francesa de reerguer o multilateralismo pode soar nobre, mas carece de poder de fogo econômico e militar. Para o Brasil, que busca um assento permanente no Conselho de Segurança, a posição francesa é ambígua: Macron apoiou a reforma do Conselho, mas sem apresentar cronograma.
**Análise FORTIS** A visão liberal enxerga no discurso de Macron um velho conhecido: o intervencionismo travestido de humanitarismo. No Estreito de Ormuz, a solução não é criar outra força naval, mas diversificar fontes de energia e estimular a produção doméstica de petróleo em países como o Brasil e os Estados Unidos. Na Ucrânia, paz não se constrói com conferências, e sim com dissuasão militar crível – algo que a França, com seu orçamento de defesa ainda aquém de 2% do PIB, não pode oferecer. Em Gaza, a saída é econômica: zonas de livre comércio e investimento privado, como sugere o plano "Paz pela Prosperidade" do Fórum Econômico Mundial, que Macron ignorou.
A proposta de regulação global da IA é o ponto mais perigoso. Ao criar uma burocracia internacional para licenciar algoritmos, Macron repete o erro europeu de sufocar startups enquanto gigantes americanos e chineses dominam o setor. Dados da OCDE mostram que, desde a implementação do AI Act na UE, o número de novas empresas de IA na França caiu 12% em relação a 2024. A liberdade de inovação, não o controle estatal, é o que garante o progresso tecnológico.
**Contraponto** Defensores do multilateralismo argumentam que sem regras globais, a corrida pela IA pode levar a riscos existenciais, como armas autônomas. O próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, disse em entrevista à France 24 que "a autorregulação falhou" e que o mundo precisa de "freios e contrapesos". No entanto, a história mostra que agências globais – da UNESCO à OMC – tornam-se lentas e capturadas por interesses estatais. A solução liberal não é ausência de regras, mas competição entre jurisdições, onde empresas e cidadãos escolhem os ambientes mais favoráveis.
**1. A proposta de Macron para o Estreito de Ormuz tem chance de ser implementada?** Pouca. A força naval internacional exigiria consenso entre potências rivais como EUA, China e Rússia – algo improvável. Além disso, o Irã já sinalizou, por meio de seu representante na ONU, que considerará qualquer presença militar estrangeira como "ato de guerra". A alternativa liberal seria acelerar a exploração de petróleo no Atlântico Sul e investir em energias renováveis, reduzindo a dependência do Golfo Pérsico.
**2. A regulação global da IA proposta por Macron pode prejudicar o desenvolvimento do setor no Brasil?** Sim. O Brasil, que exporta serviços de IA para toda a América Latina, pode ser forçado a adotar regras europeias se quiser acessar o mercado francês. Isso aumentaria custos de compliance e desestimularia startups brasileiras. Em nota, a Associação Brasileira de Startups (ABStartups) classificou a proposta como "protecionismo digital" e pediu que o governo brasileiro defenda a autorregulação no âmbito do Mercosul.
Por Renan Filho · 2026-09-22