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Economia

Macron vai à TV prometer “unidade” — mas a conta do Estado gigante chega em 2027

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

Em entrevista às 20h desta quinta-feira na TF1 e France 2, Emmanuel Macron tentará vender a narrativa de “responsabilidade” após a queda do governo. Para liberais, o problema não é a falta de discurso — é o modelo econômico que insiste em expandir o Estado, afugentar capital e empurrar a França para o abismo fiscal.

PARIS — O presidente francês, Emmanuel Macron, concederá entrevista ao vivo nesta quinta-feira, 19 de setembro, às 20h (horário local), em rede nacional pelas emissoras TF1 e France 2. A expectativa é que ele tente encerrar a crise política aberta após a queda do governo de Michel Barnier, vítima de moção de censura apoiada pela extrema-esquerda e pela extrema-direita. Macron deve repetir o diagnóstico de sempre: “estabilidade” e “unidade nacional”. Mas o que está por trás do discurso é a tentativa desesperada de conter a sangria de credibilidade nos mercados, que já elevam os juros da dívida francesa a níveis vistos apenas em países periféricos da zona do euro.

O contexto é grave. A França vive uma crise política sem precedentes desde 1958, com o Parlamento fracionado em três blocos irreconciliáveis. A decisão de Macron de dissolver a Assembleia Nacional em junho, após a derrota nas eleições europeias, foi um tiro no pé: em vez de renovar o mandato, o presidente entregou o Legislativo para uma coalizão de socialistas, ecologistas e a extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon, que agora pautam a agenda. O resultado é um país ingovernável, com um governo interino que não consegue aprovar orçamento, e um Executivo que governa por decretos, como no polêmico artigo 49.3, usado repetidamente para aprovar reformas sem votação.

Para o liberalismo, o diagnóstico é claro: Macron colhe o que plantou. Durante sete anos, o presidente francês adotou uma política de “estatismo pragmático”, aumentando gastos públicos para acalmar os coletes amarelos, nacionalizando setores estratégicos e criando um pacote bilionário de subsídios verdes que só inchou o déficit. O déficit público francês deve atingir 6,2% do PIB em 2026, muito acima do limite de 3% exigido pela União Europeia. A dívida pública, que já passou de 112% do PIB, continua a crescer, e os juros de 10 anos já superam 3,5%, um prêmio de risco que pressiona a cada leilão de títulos.

Por que isso importa: a França é a segunda maior economia da zona do euro e o principal motor político do bloco. Se Paris entrar em colapso fiscal, o efeito contágio será imediato em países como Itália, Espanha e Portugal, que já convivem com juros elevados. Mais do que isso, a instabilidade francesa enfraquece a capacidade da UE de responder à guerra comercial, à concorrência chinesa e à pressão por rearmamento diante da Rússia. Enquanto Macron discursa sobre “autonomia estratégica”, seus parceiros europeus observam com apreensão um país que não consegue sequer aprovar um orçamento.

A análise da FORTIS é direta: Macron é o maior obstáculo para a recuperação francesa. Ao insistir em uma coalizão com a esquerda radical, ele afugenta o capital produtivo, que já migra para Londres, Frankfurt e até Lisboa. As promessas de “reindustrialização verde” são retórica vazia diante de uma carga tributária que atinge 45% do PIB, um dos maiores níveis do mundo. Empresas como a gigante de energia EDF, nacionalizada à força, e a STMicroelectronics, que recebeu bilhões em subsídios, dependem de decisões políticas e não de forças de mercado. O resultado é uma economia estagnada, com desemprego estrutural acima de 7% e uma juventude cada vez mais descrente no sistema.

No entanto, é preciso reconhecer o contraponto: a França tem um estado de bem-estar social que garante proteção aos mais vulneráveis, e a cultura política do país historicamente valoriza a intervenção estatal. Os sindicatos, embora enfraquecidos, ainda têm força para paralisar o país, como visto nos protestos contra a reforma da previdência. Mas mesmo essa resistência é sintoma do problema: a França se acostumou a viver acima de suas possibilidades, financiando um modelo que privilegia o consumo em detrimento do investimento. A entrevista de hoje não mudará isso. Macron pode até prometer “diálogo” e “pragmatismo”, mas a realidade é que ele não tem mais capital político para impor sua agenda, e a alternativa que resta é um governo técnico ou novas eleições, que provavelmente produzirão outro impasse.

Enquanto isso, os mercados digerem a notícia com cautela. O CAC 40 opera em queda, o euro perde valor frente ao dólar, e os investidores exigem prêmios cada vez maiores para comprar títulos franceses. A agência de classificação de risco Moody’s já rebaixou a perspectiva para negativa, e a Fitch não descarta um corte nos próximos meses. Se Macron não apresentar um plano crível de ajuste fiscal, a França poderá enfrentar uma crise de confiança semelhante à da Grécia em 2015, mas com muito mais impacto sistêmico. O presidente, que se elegeu em 2017 com a promessa de “reformar a França”, agora luta para salvar o próprio legado — e, de quebra, a estabilidade da União Europeia.

A entrevista de 20h é, portanto, um teste de fogo. Macron deve tentar projetar uma imagem de estadista, mas os holofotes também revelarão a fragilidade de sua posição. Sem maioria no Parlamento, sem apoio popular (sua aprovação oscila em torno de 24%, a menor de um presidente francês em exercício), e com uma oposição unida apenas no ódio ao centro, ele arrisca ser lembrado como o líder que entregou a França à desordem. Para os liberais, a lição é simples: o Estado não cria riqueza, apenas a consome. Enquanto a França insistir em um modelo que premia o ativismo estatal e pune o empreendedor, o país continuará refém de crises políticas e fiscais. A pergunta que fica é: até quando os franceses aceitarão essa espiral de declínio?

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.