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Internacional

Macron em Miquelon: a visita que expõe o custo do império francês e a miragem do 'globalismo verde'

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

O presidente francês desembarcou em Miquelon-Langlade para uma visita relâmpago que a imprensa europeia chama de 'histórica'. Para o contribuinte francês e para o contribuinte miquelonês, o evento é um lembrete caríssimo de que a soberania tem preço — e que o Estado francês insiste em pagá-lo com dinheiro que não tem.

Em meio a uma crise fiscal que já consome 5,4% do PIB francês apenas com o serviço da dívida pública, Emmanuel Macron aterrissou em Miquelon na manhã desta quinta-feira. A visita, a primeira de um presidente francês ao arquipélago em mais de três décadas, foi tratada pelo Palácio do Eliseu como um gesto de 'reafirmação da presença francesa no Atlântico Norte'. Em publicação nas redes sociais, Macron declarou que 'a França está aqui, e ficará aqui'.

O arquipélago de Miquelon-Langlade, com pouco mais de 600 habitantes, é um dos últimos redutos do ultramar francês na América do Norte. A economia local depende quase exclusivamente de transferências diretas do governo central francês — cerca de 18 mil euros por habitante ao ano, segundo dados do INSEE de 2025. Para efeito de comparação, o PIB per capita da França metropolitana é de 43 mil euros. A diferença é coberta por subsídios que, na prática, transformam Miquelon em uma vasta zona de dependência estatal.

A visita de Macron não foi um mero passeio turístico. O presidente chegou acompanhado do ministro do Mar, Fabrice Loher, e de uma comitiva de 47 pessoas, incluindo assessores, seguranças e jornalistas. O custo estimado da operação, segundo o jornal Le Figaro, gira em torno de 1,2 milhão de euros — valor que equivale a quase dois anos do orçamento municipal de Miquelon para infraestrutura. Em declaração à imprensa local, o prefeito Stéphane Artano disse que a visita era 'um sinal de que Paris não nos esqueceu'.

O discurso oficial, no entanto, esbarra em uma realidade incômoda: Miquelon é um dos territórios mais caros para a França manter. O custo anual da administração pública local, incluindo salários de funcionários públicos, saúde e educação, ultrapassa 40 milhões de euros. A receita própria do arquipélago — basicamente impostos sobre a pesca e o turismo — mal cobre 8% desse total. O restante é bancado pelo contribuinte francês, que já arca com uma carga tributária de 46% do PIB.

Por que isso importa? Porque a visita de Macron ocorre no exato momento em que o governo francês tenta aprovar um novo pacote de cortes de gastos de 30 bilhões de euros para 2027. O plano, apresentado pelo primeiro-ministro Michel Barnier em setembro, prevê redução de subsídios a departamentos ultramarinos, incluindo os chamados 'territórios de soberania estratégica'. Miquelon, Saint-Pierre e as ilhas Kerguelen estão na lista de possíveis alvos de cortes, conforme documento vazado do Ministério do Orçamento.

A análise do FORTIS NEWS é direta: a visita de Macron é um ato de propaganda eleitoral disfarçada de gesto de Estado. Com as eleições regionais francesas marcadas para março de 2027, o presidente precisa mostrar que não abandonou o ultramar — mesmo que os números mostrem que o modelo atual é insustentável. A economia de Miquelon, baseada em subsídios e no funcionalismo público, não gera riqueza real. É uma economia de transferência, onde o Estado é o único patrão e o empreendedorismo é sufocado por regulamentações vindas de Paris.

O contraponto vem de setores da esquerda francesa e de movimentos autonomistas locais. Em nota oficial, a Associação dos Pescadores de Miquelon (APM) afirmou que 'a visita presidencial não resolve o problema de fundo: a falta de autonomia econômica'. O grupo defende que o arquipélago tenha mais controle sobre suas águas territoriais e possa negociar acordos de pesca diretamente com o Canadá e os Estados Unidos, sem a intermediação de Bruxelas. 'Queremos ser uma zona de livre comércio, não um museu de subsídios', disse o presidente da APM em entrevista à Rádio France Bleu.

A ironia é que Macron, que se apresenta como defensor do 'globalismo verde' e da descarbonização, desembarcou em Miquelon a bordo de um Airbus A330 da Força Aérea francesa — um jato que consome cerca de 5 mil litros de querosene por hora de voo. A viagem de Paris a Miquelon, com escala em Saint-Pierre, dura aproximadamente 10 horas. A pegada de carbono da visita, calculada por ambientalistas locais, é equivalente à emissão anual de 12 residências francesas médias. Em publicação no X, o deputado ecologista Julien Bayou ironizou: 'O presidente veio salvar o planeta de avião particular'.

O que está em jogo em Miquelon é o modelo de soberania francesa no século XXI. Manter um território com 600 habitantes a 4 mil quilômetros de distância, com custos que superam em 20 vezes a arrecadação local, é um luxo que a França endividada não pode mais pagar. O déficit público francês deve fechar 2026 em 5,8% do PIB, segundo a Comissão Europeia. A dívida total ultrapassou 3,2 trilhões de euros. Cada euro gasto em Miquelon é um euro que deixa de ser investido em infraestrutura produtiva na França metropolitana.

A visita de Macron a Miquelon é, no fundo, a metáfora perfeita do Estado francês contemporâneo: gestos grandiosos, custos astronômicos e resultados pífios. Enquanto o presidente posa para fotos com pescadores e promete 'novos investimentos verdes', a economia real do arquipélago continua refém de um modelo centralizador que sufoca a iniciativa privada e impede o desenvolvimento de setores como o turismo de nicho, a pesca de alto valor agregado e os serviços financeiros offshore.

O liberalismo econômico tem uma resposta clara para Miquelon: menos Estado, mais liberdade. O arquipélago poderia se tornar um hub de serviços para o Atlântico Norte, com regulação mínima e impostos baixos, atraindo empresas de tecnologia, finanças e logística. Em vez disso, continua sendo um fardo para o contribuinte francês e um símbolo do atraso institucional que o 'globalismo' de Macron insiste em perpetuar.

**1. Por que a visita de Macron a Miquelon é considerada 'histórica' pela imprensa europeia?** A visita é chamada de histórica porque é a primeira de um presidente francês ao arquipélago desde 1992, quando François Mitterrand esteve em Saint-Pierre. O gesto é visto como uma tentativa de reafirmar a soberania francesa sobre o território em um momento de crescente pressão internacional sobre os chamados 'territórios ultramarinos', especialmente após a disputa comercial entre França e Canadá sobre cotas de pesca do bacalhau em 2025. No entanto, o custo da visita — estimado em 1,2 milhão de euros — levanta dúvidas sobre a real prioridade do governo francês em relação à região.

**2. A França realmente corre o risco de perder Miquelon para o Canadá ou os Estados Unidos?** Não há risco imediato de perda territorial, já que Miquelon é parte integrante da República Francesa e a soberania é reconhecida por tratados internacionais. No entanto, a pressão econômica é real. O Canadá tem ampliado sua presença naval no Atlântico Norte e, em 2025, questionou publicamente os limites da Zona Econômica Exclusiva francesa ao redor de Miquelon. Além disso, a crescente insatisfação local com a falta de autonomia econômica e a dependência de subsídios pode alimentar movimentos autonomistas ou até separatistas no médio prazo. A visita de Macron tenta conter esse desgaste, mas sem reformas estruturais, o descontentamento tende a aumentar.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.