FORTIS
← FORTIS
Politica

Macron no TF1 e France 2: ameaça russa real, promessa de combustível barato e a sombra de 2027

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-24

Em entrevista televisionada, Emmanuel Macron tentou equilibrar realismo geopolítico com promessas econômicas de curto prazo. O preço dos combustíveis, a guerra na Ucrânia e o futuro político francês dominaram o discurso — mas os números contam outra história.

O presidente Emmanuel Macron concedeu entrevista simultânea aos telejornais de TF1 e France 2 na noite desta quarta-feira, 24 de setembro, em um formato que a comunicação do Eliseu classificou como “momento de transparência”. Na prática, foi um exercício de equilíbrio entre a defesa da política externa francesa, a tentativa de conter a erosão do poder de compra e a preparação do terreno para as eleições presidenciais de 2027.

Macron começou pela ameaça russa, tema que considera seu trunfo de estadista. Afirmou que a Rússia de Vladimir Putin representa um perigo existencial para a segurança europeia e que a França precisa acelerar seu rearmamento. Dados oficiais do Ministério das Forças Armadas mostram que o orçamento militar francês saltou de 39,2 bilhões de euros em 2020 para 47,1 bilhões em 2025, um aumento real de 20% em cinco anos. A pergunta que o contribuinte faz é: onde esse dinheiro está sendo aplicado? Relatórios da Cour des Comptes indicam que 15% dos equipamentos adquiridos ainda não foram entregues por atrasos contratuais. O discurso de urgência colide com a burocracia que o próprio Estado alimenta.

Sobre os combustíveis, Macron foi direto: prometeu que o preço na bomba não ultrapassará 1,80 euro por litro até o fim de 2026. A declaração soa como música para os ouvidos dos motoristas franceses, mas os mecanismos para cumprir essa meta são nebulosos. A tributação representa cerca de 60% do preço final da gasolina na França — uma das mais altas da União Europeia. Segundo dados da Comissão Europeia, a carga fiscal sobre combustíveis na França é 18% superior à média do bloco. Se Macron quer segurar o preço, terá que reduzir impostos. Mas o déficit público francês já atingiu 5,5% do PIB em 2024, e a dívida pública ultrapassou 112% do PIB. O liberal-conservador pergunta: de onde virá o dinheiro? Ou o Estado corta gastos — o que não está nos planos — ou a promessa se revela mais um exercício de ilusionismo eleitoral.

A questão presidencial de 2027 dominou o terço final da entrevista. Macron não confirmou candidatura, mas deixou claro que não se vê como “um presidente de transição”. A declaração foi interpretada como um sinal de que deseja disputar um novo mandato, algo que a Constituição francesa permite, já que em 2027 ele completará dois mandatos consecutivos. O problema é a popularidade. Segundo pesquisa Ifop divulgada em setembro, a aprovação de Macron oscila entre 24% e 27%, dependendo do instituto. A rejeição ultrapassa 60%. A França não reelege um presidente impopular desde Jacques Chirac em 2002, e mesmo assim em circunstâncias excepcionais de choque eleitoral contra a extrema direita.

Por que isso importa? Porque Macron está tentando reposicionar o próprio legado. A ameaça russa lhe dá capital político para justificar gastos militares e um discurso de união nacional. A promessa de combustível barato tenta estancar a hemorragia de votos entre as classes médias e populares, que migram para Marine Le Pen e para o recém-formado movimento de Éric Zemmour. Mas os dados mostram que a estratégia é frágil. O poder de compra das famílias francesas caiu 2,1% em 2024, segundo o INSEE. A inflação acumulada desde 2021 é de 14,3%. A massa salarial não acompanhou. Macron aposta que o medo da Rússia e o alívio temporário na bomba serão suficientes para segurar o eleitorado de centro. As pesquisas sugerem o contrário: Le Pen lidera as intenções de voto para 2027 com 33% no primeiro turno, contra 22% de um candidato do campo macronista.

Análise FORTIS: O discurso de Macron é coerente com sua trajetória de “ao mesmo tempo” — quer ser o presidente da reindustrialização e da transição ecológica, da austeridade fiscal e dos gastos sociais, da firmeza geopolítica e do pragmatismo eleitoral. O problema é que a realidade impõe escolhas. A França não pode continuar tributando combustíveis como se estivesse em uma bolha enquanto a competitividade industrial alemã e espanhola avança. O Estado francês gasta 57% do PIB, um dos maiores índices do mundo desenvolvido, e entrega serviços públicos cada vez piores — saúde com filas de meses, educação em queda no PISA, segurança pública em crise. A promessa de conter o preço dos combustíveis sem cortar impostos é matematicamente insustentável. Será mais um subsídio disfarçado, pago com dívida, que as próximas gerações herdarão.

Contraponto: defensores de Macron argumentam que a estabilidade institucional francesa diante da guerra na Ucrânia é um ativo estratégico. De fato, a França tem sido um dos pilares do apoio ocidental a Kiev, e a coerência da política externa francesa contrasta com a volatilidade de outros líderes europeus. Além disso, o governo pode recorrer a mecanismos como a redução temporária da TVA (IVA) sobre combustíveis, medida já adotada em 2022. O custo estimado de uma redução de 20% no imposto sobre gasolina seria de aproximadamente 4 bilhões de euros ao ano — valor que, em tese, poderia ser compensado com cortes em subsídios a energias fósseis. A questão é se o governo terá disciplina fiscal para fazer esse ajuste sem aumentar o déficit.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.