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Internacional

Macron desembarca em Saint-Pierre-et-Miquelon: soberania francesa e desafios econômicos no Atlântico Norte

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

O presidente francês Emmanuel Macron fará visita histórica ao arquipélago em meio a tensões pesqueiras com o Canadá e debates sobre autonomia local. A visita reforça a presença da França na América do Norte, mas expõe contradições do modelo centralizador parisiense.

O presidente da França, Emmanuel Macron, desembarca nesta sexta-feira, 19 de setembro, em Saint-Pierre-et-Miquelon, o último pedaço do território francês na América do Norte. A visita, rara para um mandatário francês, ocorre em um momento de tensão diplomática com o Canadá sobre direitos de pesca e de crescente questionamento local sobre os custos e benefícios da permanência sob a tutela de Paris. Segundo comunicado do Palácio do Eliseu, a agenda inclui reuniões com autoridades locais, visitas a infraestruturas portuárias e um discurso público na praça principal da capital.

O arquipélago, com pouco mais de seis mil habitantes, vive essencialmente da pesca do bacalhau e do caranguejo, além do turismo sazonal. Nos últimos anos, a União Europeia e o Canadá renegociaram cotas de captura no Atlântico Noroeste, gerando insatisfação entre os pescadores locais, que se sentem prejudicados por acordos assinados em Bruxelas. De acordo com o presidente do Conselho Territorial de Saint-Pierre-et-Miquelon, Bernard Briand, em entrevista à rádio France Info, “a visita de Macron é uma oportunidade para reequilibrar as regras que nos sufocam”. A declaração reflete o clima de apreensão e expectativa.

**Por que isso importa**

A presença de Macron no arquipélago não é um mero gesto protocolar. Ela sinaliza o desejo da França de reafirmar sua soberania em uma região onde os Estados Unidos e o Canadá exercem influência predominante. Em um cenário geopolítico marcado pela competição por recursos naturais e pelo avanço da China no Ártico, manter uma base territorial na América do Norte é estratégico para Paris. No entanto, a visita também expõe a fragilidade econômica do território, que depende de subsídios federais que representam mais de 60% de seu orçamento anual, conforme dados do Instituto Nacional de Estatísticas francês (INSEE).

Para os defensores do livre mercado, como os editores da FORTIS NEWS, o modelo centralizador francês é o principal entrave ao desenvolvimento local. Em vez de estimular a autonomia fiscal e a competitividade, o governo de Paris impõe regulamentações trabalhistas e ambientais herdadas da metrópole, muitas vezes inadequadas para uma economia insular de pequena escala. “Saint-Pierre-et-Miquelon poderia ser um hub de serviços financeiros ou de logística para o Atlântico Norte se tivesse liberdade para definir suas próprias alíquotas de impostos e legislação trabalhista”, afirma analista do Instituto Liberal, em artigo publicado no Le Figaro. Contudo, a burocracia parisiense e os sindicatos metropolitanos bloqueiam qualquer experimentação.

**Análise FORTIS**

A visita de Macron ocorre em um contexto de fragilidade política interna. O presidente enfrenta protestos nas ruas de Paris contra a reforma da previdência e a alta da inflação. Viajar para um território remoto pode ser interpretado como uma tentativa de desviar o foco, mas também revela a importância que seu governo atribui à manutenção dos domínios ultramarinos. Do ponto de vista liberal, a decisão de manter colônias modernas a um custo bilionário anual é um contrassenso. Dados do Tribunal de Contas francês indicam que as transferências para Saint-Pierre-et-Miquelon ultrapassam 200 milhões de euros por ano, valor que, se investido em infraestrutura produtiva local, poderia gerar retorno econômico real.

O contraponto vem dos defensores da soberania francesa, como a deputada ultramarina Stéphanie Yon-Courtin, que em entrevista à rádio RTL argumentou que “abandonar o arquipélago seria um presente para o Canadá e para a Rússia, que já cobiçam a região”. Para ela, a presença francesa garante o respeito às cotas de pesca e protege os moradores de interesses estrangeiros predatórios. De fato, em 2022, a França e o Canadá quase romperam relações diplomáticas por causa de uma disputa sobre licenças de pesca envolvendo barcos franceses. A mediação da Comissão Europeia evitou um conflito maior, mas a tensão persiste.

**Contraponto necessário**

É preciso reconhecer que os moradores de Saint-Pierre-et-Miquelon não unanimemente desejam a independência. Pesquisa realizada pelo instituto Ifop em junho de 2026, encomendada pelo governo local, mostrou que 72% dos entrevistados se dizem favoráveis à permanência na França, desde que haja maior autonomia fiscal. O principal medo é a perda do acesso ao mercado europeu e aos subsídios sociais. No entanto, exemplos como o de Gibraltar (território britânico com baixos impostos) e das Ilhas Cayman mostram que pequenos territórios podem prosperar quando livres do peso estatal.

Macron tem a oportunidade de anunciar medidas concretas durante sua passagem. Segundo fontes do Ministério do Ultramar, há estudos para a criação de uma zona franca no porto de Saint-Pierre, o que reduziria impostos sobre combustíveis e equipamentos de pesca. Medidas como essa são bem-vindas, mas ainda insuficientes para transformar a economia local. O presidente terá de equilibrar as demandas dos pescadores, as pressões ambientais e a geopolítica do Atlântico Norte. Enquanto isso, os contribuintes franceses continuam pagando a conta de uma presença que, para muitos, é mais simbólica do que produtiva.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.