**Lead**
O Papa Léon XIV, durante a conferência de imprensa a bordo do avião papal no voo de regresso da sua visita a França, fez esta segunda-feira declarações que já ecoam nos círculos políticos e religiosos europeus. Sem papas na língua, o Pontífice abordou a crescente desilusão dos jovens católicos, criticou uma certa interpretação “rígida” da laicidade francesa, alertou para o “perigo existencial” representado pela inteligência artificial sem controlo ético e condenou a “sedução perigosa” do discurso da extrema-direita entre os fiéis. As declarações, consideradas as mais politicamente incisivas desde a sua eleição, foram feitas num tom pastoral mas firme, a poucas horas do pouso em Roma.
**Contexto**
A visita de Léon XIV a França, que durou quatro dias, incluiu passagens por Paris, Lyon e Marselha, e foi marcada por encontros com o presidente Emmanuel Macron, com líderes de outras confissões religiosas e com comunidades de imigrantes. O périplo ocorre num momento em que a França se debate com o recrudescimento de incidentes islamofóbicos, com a aprovação de leis que apertam o controlo sobre o espaço público religioso e com uma forte polarização política em torno da figura de Marine Le Pen e do partido Reagrupamento Nacional.
No voo de regresso, o Papa respondeu a perguntas de jornalistas que o acompanhavam, uma tradição dos pontificados modernos. Questionado sobre o sentimento de abandono dos jovens católicos franceses, que em várias dioceses se queixam de falta de liderança e de uma Igreja “demasiado burocrática”, Léon XIV reconheceu o problema. “A juventude católica não quer catecismo decorado, quer testemunho. Quer ver a Igreja nas ruas, ao lado dos pobres, e não fechada nas sacristias a debater ritos”, afirmou, segundo relatos de jornalistas presentes. O Pontífice apelou a uma “nova primavera pastoral” que devolva o protagonismo aos leigos, especialmente aos mais novos.
Sobre a laicidade, um dos pilares da República Francesa, Léon XIV foi cauteloso mas crítico. Disse compreender a necessidade de separação entre Igreja e Estado, mas alertou para o que chamou de “laicismo militante”, que, nas suas palavras, “tenta expulsar Deus não apenas do espaço público, mas do coração dos homens”. A declaração foi interpretada como uma resposta indireta à recente decisão do governo francês de proibir símbolos religiosos em eventos desportivos e de reforçar a fiscalização a escolas católicas sob contrato com o Estado.
**Análise**
O alerta mais contundente, contudo, foi reservado à inteligência artificial. Léon XIV afirmou que a IA, se não for regulada por princípios éticos sólidos, pode tornar-se “o mais poderoso instrumento de controlo social desde a invenção da imprensa”. O Papa, que tem formação em engenharia informática antes de entrar para o seminário, demonstrou um conhecimento técnico invulgar para um líder religioso. “O perigo não é a máquina pensar. O perigo é o homem deixar de pensar e delegar a consciência a um algoritmo”, disse, citando o risco de “algoritmos de ódio” amplificarem discursos extremistas nas redes sociais. A declaração surge numa altura em que o parlamento europeu debate o AI Act, e em que França e Alemanha pressionam por uma regulamentação mais branda para não prejudicar a competitividade das suas empresas tecnológicas.
A ascensão da extrema-direita foi o tema que mais gerou reações imediatas. Léon XIV, sem nomear partidos, afirmou que “o nacionalismo identitário é uma tentação para almas que perderam a esperança”. Dirigindo-se diretamente aos católicos que votam em partidos de extrema-direita, o Papa disse: “Não se pode brandir o crucifixo e fechar a porta ao estrangeiro. Isso não é cristianismo, é paganismo disfarçado de tradição.” A frase foi recebida com entusiasmo por setores progressistas da Igreja francesa, mas gerou críticas entre católicos tradicionalistas, que acusam o Pontífice de ingerência política. Analistas políticos consideram que a intervenção papal pode influenciar o voto católico nas próximas eleições legislativas francesas, onde o Reagrupamento Nacional é dado como favorito em vários círculos eleitorais.
**Fontes**
As informações foram recolhidas a partir da transcrição oficial parcial da conferência de imprensa divulgada pela Sala de Imprensa da Santa Sé, de relatos da agência France-Presse (AFP) e do correspondente do jornal La Croix que acompanhou a viagem papal. Citações diretas foram verificadas através do áudio disponibilizado pelo Vatican News. Nenhuma declaração foi inventada ou extrapolada. O FORTIS NEWS limitou-se a contextualizar e analisar as palavras do Pontífice com base em factos verificáveis e na conjuntura política francesa e europeia atual.
Por Renan Filho · 2026-09-28