Em um encontro político realizado no Sudeste da França, a eurodeputada Sarah Knafo, figura de proa do partido Reconquête!, defendeu publicamente a tese de que as fronteiras entre as diferentes famílias da direita francesa são mais permeáveis do que se imagina. Em declaração à imprensa local, Knafo afirmou que existem «porosidades imensas» entre o eleitorado da direita tradicional, do nacional-populismo e mesmo setores do centro, e que essa realidade precisa ser traduzida em um projeto unitário para a eleição presidencial de 2027.
A declaração, colhida durante um giro por cidades do arco mediterrâneo, ecoa um diagnóstico que liberais franceses repetem há anos: a direita só perde porque insiste em disputar o eleitorado em fatias, enquanto a esquerda e a macronie se beneficiam da fragmentação. Knafo, que não é uma figura isolada, mas herdeira política de Éric Zemmour, aposta que a urgência eleitoral force uma «união sagrada» que inclua desde os Republicanos até o Reagrupamento Nacional, passando pelos remanescentes gaullistas desiludidos.
O contexto é de esgotamento do ciclo macronista. O presidente Emmanuel Macron, que já não pode concorrer a um terceiro mandato, deixa um vácuo que a esquerda tenta ocupar com uma coalizão de conveniência, mas que a direita, até aqui, só conseguiu preencher com disputas internas e egos inflados. Knafo, em sua fala, foi cirúrgica ao apontar que o eleitor comum não distingue mais os programas de Marine Le Pen, de Éric Ciotti ou de um eventual candidato do bloco zemmouriano — e que a única diferença relevante é a capacidade de apresentar um nome único no primeiro turno.
Para o FORTIS NEWS, a leitura de Knafo é correta no diagnóstico, mas perigosa na solução proposta. A união das direitas, na prática, tende a ser um guarda-chuva de pautas estatistas, protecionistas e de controle migratório, em vez de um programa liberal clássico de liberdade econômica e redução do Estado. A própria Knafo, em discursos anteriores, já defendeu políticas de reindustrialização forçada e subsídios a setores estratégicos, o que sugere que a «união» que ela sonha é um cavalo de Troia para um nacional-populismo com roupagem nova.
Apesar disso, o movimento de Knafo não pode ser ignorado. Ela toca em um ponto nevrálgico: a direita francesa, se quiser vencer em 2027, precisa de um candidato capaz de dialogar com o eleitorado operário e com a classe média que se sente abandonada pela globalização. O erro histórico de 2022, quando a direita foi ao segundo turno com Le Pen e ainda assim perdeu para Macron, foi justamente a incapacidade de traduzir a rejeição ao presidente em um projeto de país. Knafo, ao propor a união, parece ter entendido que a vitória só virá com uma mensagem única e disciplinada.
O mercado, por sua vez, já reage à possibilidade de uma direita unida. Em pesquisa recente, divulgada pelo instituto Ifop, a hipótese de uma aliança entre RN e Reconquête! no primeiro turno de 2027 atinge 38% das intenções de voto, o que colocaria qualquer candidato do bloco em posição de vantagem diante da esquerda dividida. Investidores, no entanto, seguem céticos: a memória do programa econômico de Le Pen em 2022, com promessas de aposentadoria aos 60 anos e nacionalização de setores, ainda assombra os mercados de títulos franceses.
Para os liberais, a saída não está em apostar em uma união que dilua princípios, mas em defender a competição interna como valor. A França precisa de mais liberdade, não de mais Estado. O projeto de Knafo, ao tentar amalgamar direitas com visões distintas sobre economia, corre o risco de produzir um Frankenstein que decepcione todo mundo — o pior dos mundos para quem acredita que a prosperidade vem da eficiência dos mercados, e não de acordos de cúpula.
A pergunta que fica é: até onde Knafo está disposta a ir? Em entrevista à Rádio Europe 1, na semana passada, ela afirmou que «ninguém tem o monopólio da legítima direita» e que «o inimigo está na Esplanade des Invalides», referindo-se ao poder executivo. A declaração, típica de quem quer pavimentar o caminho para 2027, sugere que a eurodeputada não teme romper com o próprio partido caso seja necessário. Resta saber se o eleitorado, cansado de promessas vazias, vai comprar a ideia de que a união das direitas é mais do que uma manobra eleitoral.
O cenário atual, de hiperfragmentação partidária, é o maior aliado do establishment. Enquanto a direita se digladia em torno de projetos, a esquerda radical avança com sua pauta identitária e o centro macronista tenta sobreviver com um presidente em fim de mandato. Knafo, ao menos, tem a coragem de propor um caminho, ainda que o mapa que ela desenha leve a um destino incerto. Para o liberalismo, a lição é clara: sem âncora econômica, qualquer união política é pura miragem.
Por que isso importa
A França é a segunda maior economia da zona do euro e locomotiva política do bloco. Uma virada à direita em 2027, ainda que com contornos protecionistas, teria efeitos imediatos nos mercados de dívida europeus e na relação com a Alemanha. Para o Brasil, que negocia acordos comerciais com a UE, a eleição francesa é variável estratégica: enquanto a direita francesa flerta com o protecionismo, o agronegócio brasileiro enfrenta barreiras crescentes. A união das direitas, portanto, não é pauta de nicho — é tema de geopolítica global.
Análise FORTIS
A jogada de Knafo é um reconhecimento tácito de que o eleitorado de direita não se importa com as fronteiras partidárias, mas com os resultados. O problema é que, sem uma agenda de liberdade econômica, a união tende a se transformar em um grande consenso estatista. O liberalismo, no entanto, não pode ser refém de uma única eleição. A defesa de mercados abertos, Estado enxuto e tributação baixa é uma batalha de longo prazo que independe de quem vença o pleito francês. A direita que se pretende vencedora precisa entender que a prosperidade não se decreta por decreto — ela se constrói com instituições que respeitem o direito de propriedade e a livre iniciativa.
Contraponto
Defensores de Knafo argumentam que a união é o único caminho para derrotar a esquerda e que, sem ela, o país caminha para o caos social. Para eles, a pureza ideológica é um luxo de quem não enfrenta as urnas. O eleitor, dizem, quer pragmatismo, não catecismo. O argumento tem peso: a história recente mostra que a direita francesa só venceu quando se apresentou unida, como em 2002 com Jacques Chirac. O risco, contudo, é que a união se dê em torno de um programa mínimo, esvaziado de conteúdo liberal, que decepcione justamente aqueles que esperavam uma ruptura com o modelo vigente. O futuro, como sempre, será decidido nas urnas — e na capacidade de transformar discurso em ação.
**P: O que motivou Sarah Knafo a propor a união das direitas na França?** R: A eurodeputada citou as «porosidades imensas» entre os eleitorados das diferentes famílias de direita e a necessidade de apresentar um candidato único para vencer a eleição presidencial de 2027, conforme declarou em evento no Sudeste da França.
**P: Quais os principais desafios para essa união?** R: As divergências econômicas entre os grupos envolvidos, que vão desde o protecionismo do Reagrupamento Nacional até o liberalismo de setores dos Republicanos, são o maior obstáculo. Além disso, a desconfiança mútua entre as lideranças e a pressão da base eleitoral por pureza ideológica dificultam um acordo duradouro.
Por Renan Filho · 2026-09-20