**Lead**
Em entrevista publicada nesta semana, o sociólogo Jérôme Fourquet, diretor do departamento Opinião e Estratégias Empresariais da Ifop, lançou uma provocação sobre o futuro profissional da chamada Geração Z francesa: tornar-se manager após o bac+5 seria o único horizonte realista para uma geração superdiplomada? A questão, que ecoa nas discussões sobre educação e emprego na França, coloca em evidência o descompasso entre a explosão do número de diplomas universitários e a capacidade do mercado de absorver essa mão de obra qualificada em funções compatíveis com sua formação.
**Contexto**
A França vive, há décadas, um fenômeno de inflação escolar. O acesso ao ensino superior se massificou, e o título de mestre (bac+5) deixou de ser um diferencial para se tornar quase uma exigência mínima em muitos setores. Jérôme Fourquet, conhecido por seus ensaios sobre a sociedade francesa, como "L'Archipel français" e "La France sous nos yeux", tem se debruçado sobre as transformações sociológicas do país, incluindo a relação dos jovens com o trabalho e as hierarquias.
A Geração Z, nascida entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2010, chega ao mercado de trabalho com credenciais acadêmicas sem precedentes. No entanto, a estrutura de empregos na França não acompanhou essa elevação. Muitos postos de trabalho disponíveis exigem qualificações inferiores, enquanto as posições de gestão — que tradicionalmente recompensam o esforço educacional — são limitadas em número. O resultado é uma competição acirrada por cargos de manager, vistos como a única via de ascensão compatível com o investimento nos estudos.
Fourquet, em suas análises recentes, tem alertado para o risco de frustração social. A superdiplomação não garante mobilidade ascendente, e a Geração Z pode se deparar com um teto de vidro: de um lado, empregos pouco qualificados que não correspondem às suas expectativas; de outro, a exigência de experiência prévia para funções de liderança. A questão do manager como "único horizonte" não é apenas retórica — reflete uma realidade em que o diploma se tornou condição de entrada, mas não de progressão.
**Análise**
A provocação de Fourquet toca em um ponto nevrálgico do modelo francês. A escola republicana sempre prometeu que o mérito acadêmico seria recompensado no mundo do trabalho. Quando essa promessa falha, abre-se espaço para o desencanto e para a contestação das hierarquias tradicionais. A Geração Z, que valoriza propósito, equilíbrio e flexibilidade, pode rejeitar a figura do manager clássico — ou, ao contrário, agarrar-se a ela como única saída digna.
Além disso, o fenômeno não é exclusivamente francês. Em economias avançadas, a corrida por diplomas gera o que sociólogos chamam de "inflação de credenciais": para se distinguir, os jovens acumulam títulos, mas o mercado não cria vagas na mesma proporção. O resultado é a subutilização de talentos e o aumento da pressão psicológica sobre os mais escolarizados. Fourquet, ao levantar a questão, convida a uma reflexão sobre o papel das empresas e das políticas públicas na criação de trajetórias alternativas ao management.
A discussão também remete ao debate sobre a reforma do ensino superior e da formação profissional na França. Se o bac+5 se torna o novo bac, como redesenhar os percursos para que a superdiplomação não se traduza em frustração? A resposta passa, provavelmente, pela diversificação das carreiras, pelo reconhecimento de competências não acadêmicas e pela revisão das estruturas hierárquicas nas organizações. O horizonte único do manager, se confirmado, seria um empobrecimento tanto para os indivíduos quanto para a economia.
**Fontes**
As informações sobre a trajetória e as declarações de Jérôme Fourquet são baseadas em entrevista publicada pela imprensa francesa e em seus trabalhos sociológicos amplamente divulgados. Os dados sobre a Geração Z e a superdiplomação no mercado de trabalho francês podem ser consultados em estudos do INSEE (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos) e do Ministério do Ensino Superior e da Pesquisa da França. A análise apresentada é de responsabilidade do autor e não constitui posicionamento oficial das instituições citadas.
Por Renan Filho · 2026-11-05