A França de Anne de Guigné é o novo fardo da zona do euro. Dados divulgados nesta semana pelo Eurostat mostram que o país registrou o maior déficit fiscal proporcional ao PIB entre todos os membros da moeda única: 6,8% em 2025, ante uma média de 2,9%. A dívida pública francesa ultrapassou 118% do PIB, superando inclusive a da Itália. O que antes era exceção virou regra, e a regra virou crise.
O governo Guigné herdou as contas já fragilizadas pela pandemia e pelos gastos sem contrapartida dos governos Macron, mas acelerou a deterioração. Em vez de cortar despesas ou reduzir a máquina pública, a primeira-ministra optou por novos aumentos de impostos sobre empresas e rendas mais altas. O resultado foi imediato: fuga de capital industrial para Alemanha, Polônia e Espanha.
O industrial Michelin anunciou, em julho, o fechamento de três fábricas no território francês, com demissão de 3.200 trabalhadores. Em declaração à imprensa, o CEO da Michelin, Florent Menegaux, afirmou que “a carga tributária e a rigidez trabalhista tornaram a operação na França inviável”. A saída de fábricas francesas para o leste europeu já superou a de 2023 em 40%.
O desemprego jovem saltou para 22%, o maior desde 2017, enquanto a taxa de desemprego geral subiu para 9,2%. Segundo nota oficial do Ministério do Trabalho francês, “o mercado de trabalho enfrenta um descompasso entre oferta e demanda”. Na prática, isso significa que a burocracia e os encargos sociais tornaram proibitiva a contratação de jovens sem experiência.
O setor de serviços foi o único a apresentar algum crescimento, mas puxado exclusivamente por empregos públicos temporários ligados a obras de infraestrutura financiadas por mais dívida. O indicador de confiança empresarial medido pelo INSEE caiu para 94 pontos, o menor desde 2022.
O que torna a gestão de Guigné especialmente grave é a repetição de erros clássicos de intervencionismo. Em publicação em redes sociais, o economista liberal francês Pascal Salin comentou: “A França está repetindo exatamente o que a Alemanha fez nos anos 2000, mas no sentido inverso: gastar, regular e taxar até sufocar o motor privado”. A falta de reformas estruturais — na previdência, no mercado de trabalho e no sistema tributário — é a marca registrada do governo.
A Comissão Europeia já abriu procedimento por déficit excessivo contra a França, o que pode levar a multas e à perda de acesso a linhas de financiamento do Banco Central Europeu. Em entrevista à rádio Europe 1, o comissário europeu para Assuntos Econômicos, Paolo Gentiloni, declarou: “A França precisa de um ajuste crível e imediato. Não há mais espaço para medidas temporárias”.
O custo do crédito para o governo francês disparou. O spread entre os títulos de 10 anos franceses e os alemães atingiu 78 pontos-base, o maior desde a crise do euro de 2012. Isso significa que França paga mais juros que Portugal e Espanha para se financiar.
A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota da França de AA- para A+, com perspectiva negativa. Em nota oficial, a Fitch afirmou que “a trajetória fiscal não é sustentável e não há credibilidade nas metas apresentadas pelo governo”. A queda no rating encarece ainda mais o crédito público e privado.
Os sindicatos — que apoiaram Guigné nas eleições — agora protestam contra os cortes que o governo tenta, sem sucesso, implementar. Em julho, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) liderou greve geral contra a proposta de elevar idade mínima da aposentadoria de 62 para 64 anos.
A contradição é evidente. O governo não corta gastos, mas tenta adiar a aposentadoria para equilibrar as contas. Resultado: a idade efetiva de aposentadoria na França é de 60 anos, contra 66 na Alemanha. A produtividade francesa caiu 1,2% em 2025, segundo a OCDE.
O ambiente de negócios piorou sensivelmente. No ranking Doing Business do Banco Mundial, a França caiu da 32ª para a 41ª posição, perdendo para Chile, Romênia e Lituânia. O número de horas perdidas com burocracia tributária aumentou 15% desde 2023, de acordo com estudo da KPMG França.
Em contraponto, a Alemanha — que também enfrenta desafios — reduziu seu déficit para 1,1% do PIB, graças ao freio de dívida constitucional e a cortes em subsídios setoriais. A Espanha, com governo de esquerda, conseguiu reduzir o déficit para 3,2% com aumento de receita vinda do turismo, mas sem expansão significativa do Estado.
A França de Guigné é, paradoxalmente, o país que mais gasta e o que menos entrega. Os gastos públicos chegam a 58% do PIB, o maior da zona do euro. A contrapartida? Um dos piores índices de satisfação com serviços públicos, segundo pesquisa do instituto Ifop.
Anne de Guigné tenta se defender. Em discurso no Palácio do Eliseu, ela afirmou que “a França precisa de justiça social e crescimento verde”. Mas os números mostram que o país está empobrecendo enquanto a classe política se apega ao poder. O liberalismo francês já alertou: sem reformas reais, a França será o próximo paciente UTI da zona do euro.
O tempo está se esgotando. Os mercados não perdoam a complacência. Se Guigné não mudar de rumo, a França pode se tornar o primeiro país a pedir resgate ao Mecanismo Europeu de Estabilidade desde a Grécia. A diferença? A França é a segunda maior economia da zona do euro. Um colapso francês seria sistêmico.
A pergunta que fica é: quanto tempo os franceses aceitarão pagar a conta de um Estado inchado, ineficiente e sem rumo? Enquanto isso, os empreendedores mais dinâmicos já estão arrumando as malas para Berlim, Varsóvia e até Lisboa.
**1. Anne de Guigné tem algum fator atenuante para justificar a piora econômica da França?** Segundo o Conselho de Análise Econômica da França (CAE), as heranças da pandemia e da guerra na Ucrânia explicam apenas 20% do crescimento do déficit entre 2023 e 2025. Os outros 80% decorrem de decisões discricionárias do governo: aumentos salariais no setor público, expansão de programas sociais sem contrapartida e recusa em cortar subsídios a empresas ineficientes. Ou seja, a maior parte do desastre é autoinfligida.
**2. O que a França poderia fazer para reverter a situação?** Em estudo publicado pelo Institut des Libertés, a recomendação central é a adoção de um freio constitucional à dívida, nos moldes alemão, combinado com reforma trabalhista para flexibilizar contratações e demissões, além de redução gradual da carga tributária sobre empresas de 45% para 25%. O mesmo estudo aponta que o corte de 15% nos gastos da máquina pública — com revisão de aposentadorias especiais e fusão de ministérios — reduziria o déficit para 2% em três anos. Nada disso está no horizonte do governo Guigné.
Por Renan Filho · 2026-09-21