A França caminha para mais um ano de déficit público acima dos 5% do PIB, e o discurso oficial em Paris insiste em culpar a conjuntura internacional, a guerra na Ucrânia ou o preço da energia. Mas o senador Jean-François Husson, relator-geral do orçamento no Senado, não aceita o diagnóstico oficial. Em publicação nas redes sociais, no início da semana, Husson foi direto ao ponto: "Esta incapacidade de recuperar o país resulta claramente de escolhas políticas".
A declaração não poderia vir em momento mais oportuno. Enquanto o governo de Michel Barnier anuncia um pacote de "austeridade" de 60 bilhões de euros, a dívida pública francesa já ultrapassa 3,3 trilhões de euros, o equivalente a 112% do PIB. Para Husson, o problema não é a falta de receita, mas a recusa estrutural em reduzir a máquina pública, que consome 57% do PIB, um dos maiores índices do planeta.
O senador, que é o principal responsável técnico pela análise do projeto de lei de finanças na câmara alta, tem razão em apontar a natureza política da crise. Os números não mentem: a França gasta mais de 16% do PIB com previdência social, contra uma média de 13% na zona do euro. Os gastos com juros da dívida já superam o orçamento do Ministério da Defesa. Em 2024, o serviço da dívida consumiu 51 bilhões de euros, valor que deve saltar para 72 bilhões em 2027, segundo o Tribunal de Contas.
A análise de Husson, feita em entrevista ao jornal Les Échos no último domingo, destaca que a margem de manobra do Executivo é mínima sem enfrentar os sindicatos e os chamados "bloqueios corporativos". O relator critica abertamente a reforma da previdência de 2023, que elevou a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos, mas que, na prática, foi esvaziada por exceções e regimes especiais. O resultado: o sistema continua deficitário em 12 bilhões de euros por ano, mesmo com o aumento da idade.
Para o liberalismo, a fala de Husson é um raro sopro de honestidade intelectual no debate público francês. O senador, filiado ao partido Os Republicanos, não propõe uma revolução de mercado, mas aponta o óbvio: a França não tem um problema de arrecadação, tem um problema de prioridades. O Estado francês gasta mais de 1,5 milhão de euros por dia com cortes de impostos para empresas verdes, que não geram empregos líquidos, enquanto a carga tributária sobre a produção continua entre as mais altas da OCDE, atrás apenas da Colômbia.
A fala de Husson chega em um momento em que a França se tornou o país mais rico da Europa com a maior taxa de desemprego estrutural entre os jovens, na casa dos 17%. O descompasso entre o discurso de "soberania" e a realidade de uma economia travada por burocracia e encargos é o pano de fundo da crítica do relator. Em seu relatório sobre o projeto de lei de finanças, Husson propõe um corte linear de 5% nos gastos do Estado, a eliminação de 200 mil vagas no setor público em cinco anos e a revisão de 40 bilhões de euros em subsídios e créditos tributários ineficazes.
O senador não está sozinho. O Tribunal de Contas, em relatório divulgado em setembro, já havia alertado que "a trajetória das finanças públicas é insustentável". A agência de classificação de risco Fitch, por sua vez, rebaixou a nota da França em outubro, citando exatamente a "falta de comprometimento político com a consolidação fiscal". A reação do governo foi reagir com mais impostos, incluindo uma sobretaxa sobre grandes empresas e milionários, que deve render 8 bilhões de euros, mas que, na prática, penaliza o investimento e a criação de empregos.
Para o liberal, a escolha é sempre a mesma: confiar no Estado ou confiar no povo. A França insiste no primeiro caminho, e os resultados estão aí: crescimento pífio de 0,8% no último trimestre, desemprego em alta e uma dívida que consome cada vez mais o orçamento das futuras gerações. A fala de Husson, embora tímida para os padrões de um liberal radical, representa um avanço importante no debate público francês, ao tirar o foco da conjuntura e colocá-lo na estrutura.
A resposta do governo, conforme nota oficial do Ministério da Economia, foi de que a "prioridade é a proteção dos mais vulneráveis". Mas quem paga a conta são exatamente os mais vulneráveis, que sofrem com a inflação de alimentos e energia, enquanto o Estado continua subsidiando setores inteiros que não geram produtividade. A pergunta que fica é: até quando a França vai continuar escolhendo o atalho do endividamento em vez do caminho difícil das reformas? A resposta, como bem aponta Husson, é uma escolha política. E enquanto essa escolha não for feita, o país continuará refém de sua própria incapacidade.
A crítica de Husson, embora circunscrita ao debate orçamentário, ecoa uma crise mais ampla de confiança nas instituições. O parlamento francês, com sua fragmentação em três blocos, tornou-se um palco de paralisia, onde qualquer tentativa de corte de gastos é recebida com ameaças de moção de censura. O senador, em sua análise, sugere uma "revisão geral das despesas" nos moldes do que foi feito no Canadá nos anos 1990, com cortes transversais e avaliação de eficácia de todos os programas. Mas a proposta esbarra na resistência dos sindicatos de servidores, que já prometeram mobilização contra qualquer medida.
Enquanto isso, o país assiste a um espetáculo de irresponsabilidade fiscal que se repete há 40 anos. Desde 1974, a França nunca apresentou um orçamento equilibrado. Husson, ao menos, tem a coragem de nomear o problema. Resta saber se a classe política terá a coragem de agir. O relator, em declaração à imprensa nesta terça-feira, foi enfático: "Não vamos enganar os franceses dizendo que podemos manter o mesmo nível de gasto sem cortar na carne. Isso é uma escolha, e ela tem consequências."
Por Renan Filho · 2026-09-21