O partido Ecologistas (EELV, na sigla em francês) convocou seus filiados para uma votação decisiva em 13 de dezembro, quando será definida a estratégia para as eleições presidenciais de 2027. A consulta interna, anunciada pela direção da legenda em comunicado oficial, coloca em xeque a identidade do partido em um cenário de polarização crescente e queda consistente de apoio nas pesquisas.
A decisão ocorre após meses de intensa disputa interna entre os defensores de uma candidatura própria, capitaneados pela deputada Sandrine Rousseau, e os setores que defendem uma aliança ampla com a França Insubmissa (LFI) e o Partido Socialista, nos moldes da Nova União Popular Ecológica e Social (Nupes), de 2022. Segundo o jornal Le Monde, a atual direção nacional do partido, sob a liderança de Marine Tondelier, trabalha nos bastidores para evitar um racha que poderia ser fatal nas urnas.
A votação de 13 de dezembro não é apenas um exercício democrático; é um teste de sobrevivência para uma legenda que amarga menos de 5% das intenções de voto, segundo o mais recente levantamento do instituto Ifop. Nas últimas eleições europeias, os ecologistas amargaram um desempenho pífio, perdendo metade de sua bancada no Parlamento Europeu, conforme dados oficiais da Comissão Europeia.
Para o liberalismo, a situação é um exemplo clássico de como a esquerda identitária e estatista se afasta do eleitorado real. Enquanto os ecologistas franceses se digladiam em disputas internas sobre identidade de gênero, cotas raciais e a agenda de descarbonização centralizada, os franceses comuns enfrentam uma crise de custo de vida que exige soluções de mercado, não burocracia verde.
A aliança com a LFI, se aprovada, significaria um alinhamento automático com as teses radicais de Mélenchon, que já defendeu a saída da França da OTAN e a taxação de 100% sobre grandes fortunas. Em entrevista à rádio France Inter, o economista e ex-ministro da Indústria, Christian Estrosi, classificou a aliança como “um suicídio eleitoral” e “uma rendição ideológica” — palavras fortes, mas que refletem o temor de que a esquerda francesa se torne refém do populismo.
Por outro lado, a candidatura própria, defendida por Rousseau, parece uma aposta de alto risco. Sem capital político e com baixa visibilidade midiática, a legenda teria dificuldades para ultrapassar a cláusula de barreira de 5% dos votos, necessária para o financiamento público. Em declaração à imprensa, o porta-voz do partido, Julien Bayou, afirmou que “é melhor perder com dignidade do que trair nossos princípios” — uma retórica que soa heroica, mas que na prática poderia levar a legenda ao ostracismo.
A história recente da esquerda francesa mostra que a união tática, sem unidade programática, tende ao fracasso. A Nupes, formada em 2022, conseguiu eleger uma bancada expressiva na Assembleia Nacional, mas as constantes brigas internas entre LFI, PS e ecologistas paralisaram o grupo e deram à extrema direita de Marine Le Pen o status de principal oposição ao governo de Emmanuel Macron. Segundo o instituto Odoxa, 68% dos franceses consideram que a esquerda unida não apresenta um projeto coerente para o país.
Para os liberais, a decisão dos ecologistas é um estudo de caso sobre os limites do coletivismo. Enquanto a esquerda se preocupa em definir alianças e acordos, a direita liberal e o centro de Macron avançam com reformas estruturais, como a flexibilização da jornada de trabalho e a redução de impostos sobre a produção, medidas que têm sido apontadas por organismos como a OCDE como essenciais para a competitividade francesa.
A votação de 13 de dezembro, portanto, não resolverá o problema de fundo: a irrelevância eleitoral dos ecologistas. Se optarem pela aliança, serão engolidos pela máquina de Mélenchon; se escolherem a candidatura própria, amargarão um resultado pífio. Em ambos os casos, o eleitor francês de centro e de direita tem a oportunidade de observar que o estatismo verde não é alternativa ao liberalismo econômico, mas apenas uma variação do mesmo erro.
Enquanto isso, o mercado de trabalho francês continua sofrendo com a rigidez imposta por políticas ambientais mal planejadas, como a proibição de voos domésticos em rotas de alta velocidade, que encarece o transporte e prejudica a logística. A alternativa liberal, com incentivos a energias renováveis baseados em créditos de carbono negociáveis e na redução da burocracia, segue sendo a única via para conciliar crescimento e sustentabilidade — algo que os ecologistas franceses parecem não compreender.
O desfecho da consulta interna, portanto, será acompanhado de perto por investidores e analistas. Em nota, a agência de classificação de risco Moody’s alertou que a incerteza política na França “pode afetar negativamente a confiança empresarial”, um recado claro de que o país não pode se dar ao luxo de mais um ciclo de instabilidade.
A decisão dos ecologistas, no entanto, pode ter um efeito colateral positivo: forçar uma reação da direita liberal, que precisa apresentar um projeto claro de país, em vez de apenas surfar nos erros da esquerda. Se a França quer voltar a ser uma potência econômica, precisa de mais liberdade e menos planejamento — uma lição que os ecologistas, presos em seu próprio dogmatismo, ainda não aprenderam.
Por Renan Filho · 2026-09-21