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Economia

França em Pânico nos Postos: 20% das Bombas Secas e a Culpa é do Estado, Não do Mercado

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

Uma em cada cinco estações de serviço na França está sem gasolina ou diesel. A escassez não é um acidente de mercado, mas o resultado previsível de uma política energética suicida e de uma burocracia que prefere culpar a Rússia a admitir o próprio fracasso.

O motorista francês acordou nesta quinta-feira com o tanque na reserva e o pânico no bolso. Dados oficiais do governo, compilados pela UFIP (Union Française des Industries Pétrolières), indicam que 19,8% dos postos do país enfrentam ruptura total ou parcial de ao menos um combustível. Na região de Île-de-France e no sul do país, a proporção salta para mais de 30%. A situação, que já era crítica desde o início da paralisação das refinarias da TotalEnergies e da Esso-ExxonMobil, se agravou com a corrida aos postos desencadeada pelo anúncio de que o governo poderia requisitar funcionários. A reação do mercado foi imediata e racional: quem podia abastecer, abasteceu. Quem não podia, entrou em desespero.

O governo de Élisabeth Borne, em declaração oficial à imprensa na terça-feira, atribuiu o colapso à "especulação dos preços internacionais" e à "guerra na Ucrânia". É uma narrativa conveniente, mas falsa. A França não importa petróleo russo desde fevereiro. O barril de Brent, referência europeia, caiu 12% nos últimos 30 dias. O problema não é a oferta global — é a recusa francesa em perfurar, refinar e estocar. A França fechou quatro refinarias nos últimos dez anos. A capacidade de refino doméstico caiu 30% desde 2010, segundo dados da própria Direction Générale de l'Énergie et du Climat. Quando as greves param as refinarias que restam, não há backup. O mercado não falhou. O planejamento central falhou.

**Por que isso importa**

A escassez de combustível não é um transtorno logístico. É um sintoma de uma doença mais profunda: a crença de que o Estado pode administrar a energia melhor do que o mercado. Cada posto seco é um imposto invisível sobre o trabalhador que precisa do carro para chegar ao emprego, sobre o entregador que depende do diesel para levar comida à mesa, sobre o pequeno empresário que vê sua frota parada. Enquanto isso, o governo anuncia um pacote de 1,5 bilhão de euros para subsidiar a gasolina — dinheiro que sairá dos impostos pagos pelos mesmos cidadãos que agora enfrentam filas de duas horas. O subsídio não resolve a escassez; apenas empurra a demanda para frente e sinaliza ao mercado que o governo está disposto a gastar o que for preciso para evitar o preço real. O resultado é o oposto do desejado: mais filas, mais pânico, mais ruptura.

**Análise FORTIS**

A solução liberal para este problema é simples e dolorosa para a classe política: desregulamentar. Permitir que postos independentes importem combustível diretamente, sem necessidade de autorização prévia da prefeitura. Acabar com o monopólio de fato das grandes refinarias sobre a logística de distribuição. Reduzir a carga tributária sobre os combustíveis — hoje, 60% do preço na bomba é imposto — para que a margem de lucro dos postos compense o risco de estocar. E, acima de tudo, autorizar a exploração de xisto e a construção de novas refinarias, quebrando o tabu ambientalista que paralisa o país. Enquanto a França discute taxar lucros extraordinários das petroleiras — proposta do deputado François Ruffin (LFI) em entrevista à Rádio France Info —, o mercado já está resolvendo o problema sozinho: postos que aumentaram o preço em 15 centavos por litro viram a demanda cair e a fila sumir. O preço é o melhor racionador. O governo insiste em ignorá-lo.

**Contraponto**

Defensores da intervenção estatal, como a CGT (Confédération Générale du Travail), argumentam em nota oficial que a culpa é das petroleiras, que "preferem recomprar ações a investir em refino". Há verdade parcial aí: a TotalEnergies gastou 9 bilhões de euros em recompra de ações em 2022, enquanto investiu apenas 2 bilhões em refino. Mas a pergunta que a CGT não faz é: por que a empresa prefere recomprar ações? Porque o governo francês sinalizou que, a qualquer momento, pode taxar lucros, controlar preços ou nacionalizar ativos. Nenhum investidor racional coloca dinheiro em um setor onde o retorno é incerto e o risco político é alto. O Estado criou o ambiente de desincentivo. Culpar a empresa por responder a esses incentivos é, no mínimo, desonestidade intelectual.

**1. Por que a situação é pior na França do que em outros países europeus?** A França depende excessivamente de energia nuclear para eletricidade, mas abandonou a produção doméstica de petróleo e gás. Ao mesmo tempo, mantém uma das maiores cargas tributárias sobre combustíveis da Europa. Quando a oferta de refino cai (por greve ou manutenção), não há margem de segurança. Países como Alemanha e Holanda possuem estoques estratégicos maiores e mais flexibilidade regulatória para importar. A França, ao contrário, exige que todo combustível vendido no país seja misturado com biocombustíveis em proporções fixas, o que complica a logística de importação emergencial. A rigidez burocrática transformou um problema logístico em uma crise nacional.

**2. O governo pode resolver a crise com requisição de trabalhadores?** A requisição é uma medida de curto prazo que trata o sintoma, não a causa. Na prática, ela força caminhoneiros e refinadores a trabalhar sob ameaça de multa ou prisão, o que gera ainda mais resistência e radicaliza o movimento grevista. Além disso, a requisição não cria novo combustível — apenas redistribui o estoque existente. A solução duradoura passa por reformas estruturais: redução de impostos, simplificação de licenças para importação e construção de novas refinarias. Enquanto o governo insistir em controlar preços e punir empresas, a próxima crise será apenas uma questão de tempo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.