O motorista francês acordou mais pobre esta semana. Dados da Direção-Geral de Energia e Clima (DGEC) mostram que o litro do gasóleo passou de 1,82 para 1,92 euros em sete dias, enquanto a gasolina sem chumbo 95 saltou de 1,88 para 1,93 euros. A alta acumulada em setembro já supera os 5%.
Não se engane: não há escassez global, nem crise de oferta nos poços da OPEP. O que houve foi uma combinação de aumento de impostos indiretos, fim parcial de subsídios e a histeria regulatória que transforma cada refinaria em alvo de burocratas. O barril de Brent oscilou menos de 2 dólares no período, mas o litro na bomba disparou.
Por que isso importa? Porque o transporte é a seiva da economia francesa. Cada cêntimo a mais no diesel encarece o pão, o leite, o frete das pequenas empresas e o deslocamento dos trabalhadores que não têm transporte público de qualidade. A liberdade de ir e vir, pilar de uma sociedade aberta, é estrangulada pelo Estado.
A análise FORTIS aponta o dedo para três fatores. Primeiro, a TICPE (imposto sobre produtos petrolíferos) continua subindo indexada à inflação. Segundo, o governo impôs uma nova taxa sobre biocombustíveis, repassada integralmente ao consumidor. Terceiro, a proibição anunciada de veículos a combustão a partir de 2035 já distorce investimentos e reduz a concorrência nos postos.
A Associação 40 Milhões de Automobilistas, em publicação nas redes sociais, chamou a alta de “inaceitável” e lembrou que a margem dos postos independentes caiu, enquanto a arrecadação estatal bate recordes. “O motorista paga duas vezes: uma no imposto, outra na perda de poder de compra”, escreveu a entidade.
O contraponto vem dos ambientalistas. Em nota oficial, a organização Réseau Action Clima defendeu o aumento como “sinal de preço necessário” para desestimular o uso de combustíveis fósseis. O argumento ignora que o trabalhador de baixa renda não tem alternativa imediata — carros elétricos custam o dobro e a rede de recarga é insuficiente.
O deputado liberal Pierre Lecomte, em entrevista à Rádio Europe 1, foi direto: “O governo usa o discurso ecológico para encher os cofres. Enquanto a TICPE render 40 bilhões de euros por ano, nenhum ministro terá pressa em baratear o combustível.” A declaração coroa a evidência: o Estado é o maior beneficiário da carestia.
A solução liberal é simples: reduzir a carga tributária sobre os combustíveis, eliminar subsídios cruzados e permitir a importação de etanol de cana brasileiro, que custa metade do europeu. Mas a burocracia de Bruxelas e o protecionismo agrícola francês impedem. Enquanto isso, o bolso do cidadão sangra.
O cenário pode piorar. O governo planeja aumentar a TICPE em mais 2% no próximo ano, e a nova diretiva europeia de emissões exigirá misturas mais caras de biocombustíveis. O mercado reagiria com mais oferta se não houvesse barreiras — mas a França prefere controlar preços e culpar especuladores imaginários.
**1. Por que os preços sobem tão rápido na França se o petróleo não disparou?** A resposta está nos impostos. Cerca de 60% do preço do gasóleo na França é composto por tributos (TICPE, IVA e taxas ambientais). Qualquer reajuste na carga fiscal ou no custo de cumprimento de regulações verdes é repassado integralmente ao consumidor. O barril de petróleo influencia menos de 40% do valor final. Enquanto o Estado não cortar sua fatia, a volatilidade será alta.
**2. O que o governo poderia fazer para segurar a alta?** A medida mais eficaz seria reduzir temporariamente a TICPE, como fez o Reino Unido em 2022. Mas o governo francês prefere manter a arrecadação e culpar as petrolíferas. Uma agenda liberal incluiria também a abertura do mercado de biocombustíveis, o fim das exigências de mistura obrigatória e a simplificação das licenças para novos postos. Enquanto não houver concorrência real, o motorista continuará pagando a conta do Leviatã.
Por Renan Filho · 2026-09-22