**Lead**
O dia 20 de janeiro de 2021 entrou para a história como o fim formal do mandato de Donald Trump, mas a democracia americana — e ocidental — ainda enfrenta uma crise profunda, que ultrapassa a figura do ex-presidente. A saída de Trump da Casa Branca, longe de restaurar a normalidade institucional, expôs feridas abertas: uma sociedade polarizada, a erosão da confiança nas urnas e a ascensão de um populismo que se reinventa a cada ciclo eleitoral. Para analistas políticos, o problema não começou com Trump e não termina com sua partida.
**Contexto**
A eleição de Joe Biden em novembro de 2020 foi apresentada pela mídia internacional como uma vitória da democracia sobre o autoritarismo. No entanto, o processo foi marcado por um fato inédito na história recente dos Estados Unidos: a recusa do então presidente em reconhecer o resultado, seguida pela invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. O episódio, transmitido ao vivo para o mundo, tornou-se um símbolo da fragilidade dos sistemas democráticos, mesmo nas nações mais consolidadas.
A crise democrática, entretanto, é anterior a 2016. Desde o fim da Guerra Fria, estudiosos vinham observando uma queda gradual na participação eleitoral, o enfraquecimento dos partidos tradicionais e o aumento da desconfiança em relação às instituições. Nos Estados Unidos, o movimento Tea Party, no final dos anos 2000, já sinalizava uma radicalização da direita que culminaria na ascensão de Trump. Na Europa, partidos populistas como o Front National, na França, e o Brexit, no Reino Unido, exploravam o mesmo descontentamento popular.
A pandemia de Covid-19 agravou ainda mais esse cenário. Lockdowns, crise econômica e a disseminação de desinformação nas redes sociais ampliaram a sensação de insegurança e o sentimento antissistema. Uma pesquisa do Pew Research Center, realizada em 2020, indicou que a maioria dos cidadãos em países democráticos acreditava que seus governos não agiam no interesse da população — um dado que revela uma tendência, embora seja necessária cautela quanto aos números exatos divulgados em diferentes levantamentos.
**Análise**
A saída de Trump da presidência não eliminou as condições que permitiram sua emergência. A polarização política, alimentada por algoritmos de redes sociais e pela mídia partidária, continua a dividir famílias e comunidades. A desinformação, antes restrita a boatos, tornou-se uma indústria lucrativa, com influenciadores e políticos lucrando com teorias conspiratórias. A democracia, nesse sentido, enfrenta um desafio cultural: a perda da noção de verdade compartilhada.
O caso americano é paradigmático, mas não isolado. No Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 seguiu um padrão similar, com ataques constantes ao sistema eleitoral e à imprensa. Na França, a ascensão de Marine Le Pen, embora sem vitória presidencial, redesenhou o espectro político nacional. A crise democrática, portanto, é um fenômeno transnacional, que exige uma resposta coordenada de governos, sociedade civil e plataformas digitais.
Outro ponto central é a erosão da confiança nas instituições de justiça e na imprensa. Trump transformou o termo “fakenews” em arma política, e seus seguidores passaram a questionar a imparcialidade de tribunais e a veracidade de reportagens. Essa dinâmica, replicada em diversos países, cria um ciclo vicioso: quanto mais as instituições são atacadas, menos os cidadãos acreditam nelas, o que reduz a legitimidade dos processos democráticos. A educação midiática e a reforma dos sistemas eleitorais são apontadas por especialistas como caminhos possíveis, mas enfrentam forte resistência.
**Cultura como campo de batalha**
A crise democrática extrapola a política institucional e se manifesta no campo cultural. Museus, universidades e espaços de debate público tornaram-se palcos de disputas ideológicas. A chamada “guerra cultural” entre progressistas e conservadores, intensificada durante o governo Trump, não desapareceu com sua saída. Pelo contrário, temas como identidade de gênero, racismo estrutural e liberdade de expressão continuam a gerar embates acalorados, muitas vezes em detrimento do diálogo racional.
Dentro desse contexto, o filósofo Francis Fukuyama, autor de “O Fim da História”, tem alertado para os perigos da identidade como motor político. Em seu livro mais recente, publicado em 2018, ele argumenta que a política contemporânea abandonou as questões econômicas e se voltou para a luta por reconhecimento, o que fragmenta as sociedades e enfraquece a ideia de bem comum. Uma visão que ressoa tanto na esquerda quanto na direita, e que explica parte da polarização atual.
**Fontes**
Este artigo foi elaborado com base em análises de instituições como o Pew Research Center, relatórios da Freedom House, obras de Francis Fukuyama (“A Identidade”) e Yascha Mounk (“O Povo contra a Democracia”), além de declarações públicas de Anne Applebaum, historiadora e colunista do The Atlantic, sobre a natureza do autoritarismo moderno. As informações foram cruzadas com reportagens da BBC, do Le Monde e do jornal The New York Times, publicadas entre 2020 e 2021.
Por Renan Filho · 2026-11-05