FORTIS
← FORTIS
Politica

Reunidos em torno de Zelensky, europeus ensaiam estratégia de defesa sem Donald Trump

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-16

Líderes do continente articulam uma resposta autônoma à guerra na Ucrânia, cientes de que Washington não é mais um aliado confiável.

**Lead**

Uma nova dinâmica política tomou forma esta semana na Europa: reunidos em torno do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, líderes do continente deram início a um movimento coordenado para estruturar uma política de defesa e segurança que não dependa mais de Washington. O gesto, inédito na história recente da OTAN, reflete o diagnóstico de que Donald Trump, como candidato republicano e potencial próximo ocupante da Casa Branca, transformou a aliança transatlântica em uma relação de conveniência, e não mais de compromisso.

A mobilização ocorre em um momento de extrema sensibilidade no front diplomático. A Ucrânia enfrenta uma nova onda de ataques russos contra sua infraestrutura energética, enquanto nos Estados Unidos a guerra de narrativas entre republicanos e democratas ameaça travar a aprovação de um novo pacote militar para Kyiv. Com a perspectiva de uma vitória de Trump nas eleições de novembro, os europeus decidiram agir como bloco.

**Contexto**

A relação entre Trump e a Europa nunca foi fácil. Durante seu mandato, o então presidente americano pressionou abertamente os membros da OTAN a elevarem seus gastos militares, chegando a insinuar que não defenderia aliados inadimplentes. Agora, em plena campanha eleitoral, Trump voltou a criticar o apoio maciço dos Estados Unidos à Ucrânia, classificando-o como um desperdício de recursos e condicionando a continuidade da ajuda a concessões territoriais que Kyiv considera inaceitáveis.

Diante disso, um grupo de países europeus — incluindo França, Alemanha e Reino Unido, além das nações nórdicas e bálticas — tem mantido encontros de alto nível com Zelensky para desenhar um plano de apoio de longo prazo à Ucrânia. A ideia central é criar uma estrutura de financiamento e fornecimento de armamentos que permaneça operacional independentemente do resultado das eleições americanas.

A França, historicamente defensora da autonomia estratégica do continente, tem desempenhado papel central nessa articulação. O presidente Emmanuel Macron, que já havia alertado sobre a necessidade de a Europa não ser um mero coadjuvante no tabuleiro global, voltou a defender uma "arquitetura de segurança própria". A Alemanha, por sua vez, embora tradicionalmente cautelosa em relação a iniciativas que possam enfraquecer a OTAN, sinalizou disposição para contribuir com um fundo europeu dedicado à defesa da Ucrânia.

Os europeus também observam com atenção a situação no Congresso americano. A ajuda militar à Ucrânia, aprovada em 2024 após meses de paralisia parlamentar, demonstrou que o apoio norte-americano tornou-se refém da polarização política. Em uma eventual administração Trump, espera-se que o Pentágono reduza drasticamente os envios diretos de equipamentos a Kyiv. A preparação europeia, portanto, é também uma aposta preventiva contra uma nova crise de abastecimento no front oriental.

**Análise**

A reunião de líderes em torno de Zelensky não é apenas um gesto diplomático — é uma mudança concreta na lógica de poder dentro do continente. Durante décadas, o pensamento dominante em Bruxelas foi o de que a segurança europeia dependia de uma combinação entre o escudo militar americano e a força econômica dos Estados-membros. Essa equação, alimentada pela Guerra Fria e mantida pela inércia nas décadas seguintes, começa a se desfazer no exato momento em que a guerra mais violenta em solo europeu desde 1945 define os novos contornos do mapa geopolítico.

O simbolismo de Zelensky ser o centro dessa articulação é igualmente poderoso. O presidente ucraniano, que já foi tratado por parte da administração americana como um obstáculo ingrato às negociações de paz, agora aparece como o catalisador de uma unidade europeia que parecia perdida em disputas comerciais e burocráticas. A guerra em solo ucraniano, ao mesmo tempo em que testa os limites da solidariedade política europeia, obriga os governos a transformar discursos em estruturas permanentes.

Ainda há obstáculos significativos. Nem todos os países da União Europeia compartilham do mesmo entusiasmo por uma defesa autônoma, e a Hungria já sinalizou que vetará qualquer iniciativa que considere provocação contra Moscou. Além disso, a Europa enfrenta escassez de capacidade industrial para produzir munições na escala necessária. A ideia de uma "bazuca europeia" para a indústria de defesa existe desde os primeiros meses da guerra, mas sua implementação continua lenta.

No entanto, o movimento mais recente mostra que a busca por autonomia em segurança deixou de ser um debate acadêmico. Ela agora é uma ferramenta de sobrevivência política diante da possibilidade de um novo ciclo de quatro anos na Casa Branca. Trump, sem apresentar nenhum plano de paz concreto, limita-se a repetir que resolverá o conflito antes de sua eventual posse — uma promessa que os europeus ouvem com ceticismo e apreensão.

**Fontes**

As informações contidas nesta reportagem são baseadas em declarações públicas de líderes europeus, comunicados do Conselho Europeu e da OTAN, além da cobertura da imprensa internacional de veículos como AFP, Reuters, The Guardian e Le Monde sobre os encontros diplomáticos em Paris e Bruxelas relacionados ao apoio à Ucrânia.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.