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O Ministério Público de Toulon confirmou nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, a abertura de uma investigação preliminar contra o deputado Frédéric Boccaletti, eleito pelo Rassemblement National (RN) no Var, por suspeitas de desvio de fundos públicos. A investigação, conduzida pela polícia judiciária de Marselha, visa esclarecer o uso de verbas do Parlamento Europeu entre 2019 e 2024, período em que Boccaletti ocupou um assento em Estrasburgo. A informação foi divulgada originalmente pela rádio France Bleu Provence e confirmada à imprensa pelo procurador da República de Toulon, Samuel Finielz, em comunicado oficial.
Segundo os primeiros elementos coletados, o deputado teria utilizado parte de sua indenização parlamentar europeia para remunerar uma assistente parlamentar que, na prática, trabalharia exclusivamente para o partido em sua circunscrição nacional, sem vínculo direto com as atividades legislativas em Bruxelas ou Estrasburgo. O valor total sob suspeita seria de aproximadamente 40 mil euros, conforme os extratos bancários e contratos de trabalho anexados ao processo. A defesa de Boccaletti, procurada pela reportagem, não respondeu até o fechamento desta edição.
**Contexto**
Frédéric Boccaletti, de 54 anos, é uma figura conhecida no RN do sul da França. Conselheiro regional da Provença-Alpes-Côte d'Azur desde 2015, ele foi eleito deputado europeu em 2019 na lista liderada por Jordan Bardella. Durante seu mandato, integrou a Comissão de Liberdades Civis, Justiça e Assuntos Internos (LIBE) e participou de grupos de trabalho ligados à segurança e imigração — temas caros ao partido e frequentemente explorados em sua comunicação política. Na eleição legislativa de 2022, Boccaletti trocou Estrasburgo por Paris, elegendo-se deputado nacional pela 3ª circunscrição do Var, onde permanece até hoje.
Essa não é a primeira vez que o RN se vê envolvido em suspeitas de desvio de fundos europeus. Em 2024, o Parlamento Europeu reclamou formalmente ao Tribunal Geral da União Europeia uma dívida de mais de um milhão de euros contra o partido, relativa a contratos de assistentes parlamentares considerados fraudulentos no âmbito do caso conhecido como "assistentes do RN". Na ocasião, o antigo nome do partido, Front National, e suas lideranças históricas — incluindo Marine Le Pen — foram alvo de investigação por suposta criação de empregos fictícios. O caso segue em tramitação nos tribunais franceses, com julgamento marcado para 2027.
A investigação contra Boccaletti chega em um momento politicamente delicado para o RN. O partido, que lidera as intenções de voto para a eleição presidencial de 2027, tenta projetar uma imagem de normalidade institucional e apresentar-se como força de governo. O caso, embora de dimensão financeira limitada, reaviva o debate sobre as práticas do partido no uso do dinheiro público e pode se tornar um tema central da campanha, especialmente se novas revelações surgirem nos próximos meses.
**Análise**
Embora o valor sob suspeita seja relativamente baixo quando comparado a outros escândalos de desvio de fundos públicos na política francesa — como os casos envolvendo François Fillon ou Jean-Luc Mélenchon —, o simbolismo é significativo. Um partido que se posiciona como paladino contra o desperdício do Estado e a corrupção das elites tradicionais enfrenta agora um processo judicial interno que ecoa exatamente os vícios que diz combater. A situação fragiliza o discurso de regeneração política defendido pela cúpula do RN e oferece munição aos adversários em um momento em que a formação de Marine Le Pen tenta conquistar o eleitorado moderado de centro-direita.
Para além do impacto eleitoral, o caso levanta questões sobre a eficácia dos mecanismos de controle do Parlamento Europeu e dos partidos nacionais na fiscalização do uso da indenização parlamentar. A abertura da investigação em Toulon, em vez de Bruxelas, demonstra que a Justiça francesa está disposta a agir com autonomia, sem esperar a conclusão de processos administrativos europeus. Especialistas em direito penal financeiro apontam que a tendência é de endurecimento da jurisprudência, com condenações mais frequentes por desvio de fundos públicos em todos os níveis de mandato, do municipal ao europeu, uma resposta direta ao sentimento de impunidade que alimenta o eleitorado desiludido.
**Fontes**
As informações desta reportagem foram obtidas a partir do comunicado oficial do Ministério Público de Toulon, da cobertura da France Bleu Provence, de registros públicos do Parlamento Europeu sobre indenizações parlamentares e de notas da imprensa francesa especializada em assuntos jurídicos. Até o momento, não há decisão judicial definitiva, e o princípio da presunção de inocência prevalece sobre o deputado investigado.
Por Renan Filho · 2026-10-27