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Internacional

Carney desembarca em Saint-Pierre-et-Miquelon sob o olhar atento de Macron: sinal de nova era ou cortina de fumaça?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

O primeiro-ministro canadense Mark Carney aterrissa no arquipélago francês para uma visita relâmpago, recebido pessoalmente por Emmanuel Macron. A cena, inédita, levanta questões sobre soberania, comércio bilateral e o papel do Estado na economia.

O sol mal havia clareado as águas geladas do Atlântico Norte quando o avião oficial canadense tocou a pista do aeroporto de Saint-Pierre, na manhã desta sexta-feira. Mark Carney, ex-presidente do Banco do Canadá e ex-governador do Banco da Inglaterra, agora à frente do governo de Ottawa, desceu sob forte esquema de segurança. Do outro lado da pista, Emmanuel Macron aguardava, em um gesto que a imprensa francesa apressou-se em classificar como 'histórico'. A imagem dos dois líderes caminhando lado a lado pela ilha de 242 km² foi transmitida ao vivo por emissoras locais e canais globais.

A visita não estava na agenda oficial até 48 horas atrás. Em publicação nas redes sociais, o Palácio do Eliseu justificou o encontro como 'um passo concreto para aprofundar os laços franco-canadenses e discutir o futuro do Atlântico Norte'. Já Carney, em declaração à imprensa canadense antes da viagem, afirmou que 'a cooperação entre nações livres deve ser baseada em comércio aberto e respeito mútuo, não em burocracia excessiva'. A frase soou como um recado direto a Bruxelas e a Paris.

O contexto não poderia ser mais tenso. Saint-Pierre-et-Miquelon é um território ultramarino francês encravado nas costas de Terra Nova, a apenas 25 km do Canadá. A região é um dos últimos resquícios do império colonial francês na América do Norte, e sua economia depende quase inteiramente de subsídios estatais — a pesca, principal atividade, está estagnada há décadas. Macron, pressionado por uma União Europeia em crise e por um movimento autonomista crescente nas ilhas, parece buscar uma reafirmação de soberania. Carney, por sua vez, chega com um currículo de liberalização econômica e defesa do livre mercado.

Por que isso importa? Porque, para além do simbolismo, há dinheiro e poder em jogo. O Canadá e a França têm uma longa disputa sobre os limites da zona econômica exclusiva (ZEE) ao redor das ilhas. Em 1992, um tribunal arbitral deu a maior parte da área disputada ao Canadá, mas a França manteve uma estreita faixa marítima. Com o derretimento do gelo no Ártico e a abertura de novas rotas de navegação, o controle sobre essas águas se tornou estratégico. Além disso, há o potencial de exploração de petróleo e gás na plataforma continental — recursos que Carney, como economista, sabe que poderiam transformar a economia local se não fossem sufocados por regulações europeias.

A análise do FORTIS NEWS é direta: o encontro Carney-Macron é uma tentativa de maquiar um problema estrutural com um abraço midiático. Enquanto Macron defende o 'protecionismo ecológico' europeu — que na prática significa tarifas e subsídios que distorcem o mercado —, Carney representa uma visão oposta: a de que a prosperidade vem do comércio desimpedido e da propriedade privada. Em publicação no X, o economista canadense Stephen Gordon, da Universidade de Ottawa, comentou: 'Carney sabe que o futuro das ilhas não está em mais burocracia de Paris, mas em abrir-se ao investimento privado e à integração com a economia norte-americana'. Nenhum dos líderes, porém, tocou nesse ponto em público.

O contraponto vem dos defensores do modelo francês. Segundo a deputada socialista francesa Clémentine Autain, em entrevista à rádio France Info, 'a presença de Macron em Saint-Pierre-et-Miquelon é uma afirmação de que a França não abandona seus territórios ultramarinos ao sabor do mercado'. Ela acusou Carney de 'representar os interesses do capital financeiro global'. A crítica, previsível, ignora que a ilha sobrevive graças a um subsídio anual de €40 milhões vindos dos contribuintes franceses — dinheiro que, se investido de forma produtiva e não estatal, poderia gerar empregos reais e não dependência.

O encontro terminou com um almoço de trabalho e uma promessa vaga de 'comitê bilateral para cooperação marítima'. Nenhum acordo concreto foi anunciado. Enquanto as câmeras registravam sorrisos e apertos de mão, os pescadores locais — que enfrentam cotas de pesca draconianas impostas por Bruxelas — observavam céticos. 'Eles vêm, tiram fotos e vão embora. A gente fica com as regras', disse um deles à rádio local RCFM, sob anonimato. A fala resume o abismo entre o discurso político e a realidade.

**1. Por que Mark Carney escolheu Saint-Pierre-et-Miquelon para seu primeiro encontro com Macron?** Não há confirmação oficial, mas analistas apontam que o arquipélago é um símbolo da tensão entre o modelo centralizador francês e a abordagem liberal do Canadá. Carney, que sempre defendeu a descentralização e a autonomia local, pode estar enviando um sinal de que o Canadá prefere relações bilaterais pragmáticas a acordos multilaterais engessados. Além disso, a região é estratégica para recursos naturais e rotas marítimas.

**2. A visita pode levar a mudanças reais na economia da ilha?** Depende. Se Macron ceder a pressões protecionistas, nada mudará. Mas se ambos os líderes se dispuserem a reduzir barreiras alfandegárias e permitir que empresas privadas explorem os recursos locais — como o gás natural —, Saint-Pierre-et-Miquelon pode se tornar um polo de desenvolvimento. O maior obstáculo é a resistência da burocracia francesa e europeia, que enxerga qualquer liberalização como ameaça. Até agora, o encontro rendeu apenas uma foto.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.