Berlim, 19 de setembro de 2026 — O mapa político alemão está sendo redesenhado com uma tinta que a elite de Bruxelas insiste em ignorar. Nas eleições regionais realizadas no último domingo na Turíngia e na Saxônia, a Alternativa para a Alemanha (AfD) consolidou-se como a segunda maior força política, desbancando partidos tradicionais que governavam a região há décadas.
Na Turíngia, segundo dados oficiais da Comissão Eleitoral Federal, a AfD obteve 32,8% dos votos, atrás apenas da União Democrata-Cristã (CDU), que somou 33,2%. Na Saxônia, o partido de direita conquistou 30,6%, enquanto a CDU caiu para 31,9%. Os números, divulgados em coletiva de imprensa pelo presidente da comissão, representam um terremoto político que ecoa para além das fronteiras alemãs.
Para o observador atento, o fenômeno não é um acidente. A AfD capitalizou diretamente o descontentamento com as políticas de imigração abertas adotadas desde 2015, combinado com o aumento vertiginoso dos custos de energia e a inflação que corrói o poder de compra das famílias. Em publicação nas redes sociais, o líder da AfD na Turíngia, Björn Höcke, afirmou que o resultado é uma "vitória da razão contra a censura e a incompetência".
Os infográficos produzidos pelo instituto de pesquisas Infratest dimap revelam um padrão claro: a AfD domina nos distritos rurais e nas cidades médias do leste alemão, onde a desindustrialização pós-reunificação ainda deixa cicatrizes profundas. A taxa de desemprego na Saxônia, por exemplo, é de 6,8%, contra uma média nacional de 5,2%. Em regiões como Görlitz e Bautzen, o apoio à AfD ultrapassa os 40%.
O que explica esse avanço? A resposta está na combinação de três fatores que o establishment político se recusa a encarar. Primeiro: a imigração descontrolada. Dados oficiais do Escritório Federal de Migração e Refugiados (BAMF) mostram que, apenas em 2025, a Alemanha registrou 350 mil novos pedidos de asilo, número que sobrecarrega escolas, hospitais e o mercado imobiliário.
Segundo: a política energética suicida. O fechamento das usinas nucleares e a dependência de fontes intermitentes elevaram o preço da eletricidade para residências a 0,45 euros por kWh, o maior da Europa. Em declaração à imprensa local, um empresário de Chemnitz afirmou que "fechou sua fábrica porque não conseguia mais pagar a conta de luz". A AfD foi o único partido a defender a reabertura das centrais nucleares.
Terceiro: a perda de identidade cultural. Nas pesquisas de boca de urna, 78% dos eleitores da AfD citaram a "proteção da cultura alemã" como motivo principal do voto. Para eles, o multiculturalismo forçado promovido pelos Verdes e pelo SPD resultou em guetos e no aumento da criminalidade. Dados oficiais do Ministério do Interior indicam que os crimes violentos aumentaram 12% nos últimos dois anos, com uma desproporcional participação de estrangeiros nos registros.
Por que isso importa para a França? O cenário alemão é um espelho do que pode acontecer no Hexágono nas eleições presidenciais de 2027. Marine Le Pen e Éric Zemmour já surfam ondas semelhantes, mas com uma diferença crucial: na Alemanha, a AfD enfrenta uma barreira midiática e judicial muito mais agressiva. O partido é monitorado pelo serviço de inteligência interna (Verfassungsschutz) como "extremista de direita", o que não impediu seu crescimento.
A grande ironia, apontada por analistas do Instituto de Estudos Políticos de Dresden, é que a tentativa de cancelamento da AfD só fortaleceu sua base. Cada processo judicial, cada reportagem negativa e cada tentativa de proibição transformam Höcke e seus aliados em mártires da liberdade de expressão. O eleitor médio da AfD não se vê como extremista, mas como um cidadão comum que foi abandonado pelos partidos tradicionais.
A análise FORTIS aponta para uma lição clara: a direita nacional-populista não é uma aberração, mas uma resposta racional a políticas públicas fracassadas. Quando o governo federal gasta bilhões em subsídios para ONGs climáticas enquanto a classe média não consegue aquecer suas casas no inverno, o voto de protesto se torna um voto de sobrevivência. O mercado político, assim como o econômico, reage a incentivos. A AfD oferece o que a CDU e o SPD não oferecem: clareza.
O contraponto, inevitável, vem da chanceler Annalena Baerbock, dos Verdes. Em nota oficial divulgada após os resultados, ela classificou o avanço da AfD como "preocupante" e prometeu intensificar a "educação política" para combater a desinformação. O problema é que essa "educação política" soa como doutrinação para os eleitores que perderam empregos para a imigração ou viram suas contas de luz triplicarem.
Enquanto a esquerda alemã insiste em classificar o eleitor da AfD como vítima de fake news, os infográficos mostram uma realidade mais brutal: são pessoas reais, com problemas reais, que encontraram um partido disposto a nomeá-los sem rodeios. O cordão sanitário imposto pelos partidos tradicionais, que se recusam a formar coalizões com a AfD, está se tornando insustentável. Na Saxônia, a governabilidade exigirá alianças complexas que podem paralisar o estado.
Para a França, o recado é direto: se Paris continuar a ignorar as demandas por controle de fronteiras, soberania energética e proteção cultural, o mesmo fenômeno se repetirá, e com força ainda maior. O eleitorado francês, historicamente mais rebelde que o alemão, pode transformar a próxima eleição em um plebiscito contra a União Europeia como ela é hoje.
Por Renan Filho · 2026-09-21