**Lead**
A menos de seis meses das eleições presidenciais francesas, Marine Le Pen, líder do Reagrupamento Nacional (RN), emerge como a grande favorita, consolidando uma vantagem que surpreende até seus adversários. Em um comício realizado em Marselha no último domingo, a candidata declarou: "Je ne vois pas ce qui peut nous arrêter" (Não vejo o que pode nos parar), em um discurso que mesclou promessas de proteção econômica e soberania nacional. O cenário, que até então era visto como improvável, agora domina as manchetes econômicas, com os mercados precificando uma possível vitória da extrema direita.
**Contexto**
A campanha de Le Pen ganhou tração após os eventos de 17 de outubro, quando protestos contra a reforma da previdência terminaram em confrontos em Paris. A candidata capitalizou o descontentamento popular, apresentando-se como a única alternativa capaz de restaurar a ordem e impulsionar o poder de compra. Seu programa econômico, que inclui cortes de impostos para famílias de baixa renda, redução da idade de aposentadoria para 60 anos e um protecionismo comercial agressivo, tem sido recebido com ceticismo por economistas tradicionais, mas ressoa profundamente com o eleitorado cansado da inflação e da desindustrialização.
Dados recentes do INSEE mostram que a França enfrenta um crescimento anêmico, com o PIB projetado para avançar apenas 0,8% em 2026, enquanto a dívida pública ultrapassa 110% do PIB. Nesse contexto, a mensagem de Le Pen de "proteger os franceses primeiro" ganha força, especialmente entre trabalhadores do setor manufatureiro e regiões rurais. Pesquisas internas do RN, vazadas para a imprensa, indicam que a candidata lidera as intenções de voto no primeiro turno com uma vantagem de dois dígitos sobre o candidato do partido Renascença, Emmanuel Macron, que não pode concorrer a um terceiro mandato.
**Análise**
A ascensão de Le Pen não é apenas um fenômeno político, mas um terremoto econômico. Os mercados financeiros, que historicamente reagem com volatilidade a ameaças populistas, já começam a ajustar suas posições. O spread entre os títulos franceses e alemães, um termômetro do risco soberano, subiu nas últimas semanas, refletindo a incerteza sobre a política fiscal de um eventual governo Le Pen. No entanto, a candidata tem tentado acalmar os investidores, prometendo manter a disciplina orçamentária e respeitar os compromissos europeus, embora seus planos de renegociar o pacto de estabilidade gerem desconfiança.
Especialistas apontam que uma vitória de Le Pen poderia redefinir o eixo econômico da União Europeia, com a França adotando uma postura mais confrontadora em relação a Bruxelas e à Alemanha. A proposta de taxar importações de países fora da UE, por exemplo, é vista como uma ameaça direta às cadeias globais de suprimento. Por outro lado, seus defensores argumentam que as políticas de estímulo doméstico poderiam reaquecer o consumo e criar empregos, um argumento que atrai eleitores que se sentem abandonados pela globalização.
O impacto já é visível no setor empresarial. Grandes grupos franceses, como os do setor de energia e defesa, têm feito lobby intenso para garantir que suas demandas sejam ouvidas pela equipe de transição de Le Pen. Enquanto isso, pequenas e médias empresas, especialmente no interior, veem na candidata uma esperança de redução da burocracia e de proteção contra a concorrência desleal. A incerteza, no entanto, permanece: analistas alertam que as promessas de campanha, se implementadas sem uma base fiscal sólida, podem levar a um aumento do déficit e a uma crise de confiança.
**Fontes**
As informações foram compiladas a partir de discursos públicos de Marine Le Pen, relatórios do INSEE sobre a situação econômica francesa, análises de institutos de pesquisa como o Ifop e o BVA, e declarações de economistas ouvidos pela imprensa internacional, incluindo a Reuters e o Financial Times. Nenhuma informação foi obtida diretamente do comitê de campanha do RN, que não respondeu aos pedidos de comentário até a publicação desta matéria.
Por Renan Filho · 2026-10-20