O governo dinamarquês anunciou nesta quinta-feira que ratificou o acordo de defesa e exploração econômica com os Estados Unidos para a Groenlândia, classificando o texto como “um passo decisivo para fortalecer a OTAN e a autonomia europeia no Ártico”. Em entrevista coletiva, a primeira-ministra Mette Frederiksen declarou que o pacto “garante que a maior ilha do mundo continue sendo um baluarte da liberdade, do comércio e da segurança ocidental”.
O acordo, negociado em sigilo nos últimos seis meses, prevê a instalação de novas bases militares americanas, acesso prioritário a recursos minerais estratégicos – incluindo terras raras e urânio – e um fundo de desenvolvimento de US$ 12 bilhões para infraestrutura local. A Dinamarca, que mantém soberania formal sobre a Groenlândia, cedeu direitos de exploração e defesa por 30 anos, em troca de participação nos lucros e garantias de que qualquer decisão sobre independência groenlandesa continuará nas mãos do parlamento local.
“Este não é um acordo de venda, é um acordo de parceria”, afirmou Frederiksen. “A Groenlândia não está à venda, mas seus recursos e sua localização estratégica são ativos que, bem geridos, podem beneficiar todo o Ocidente. A OTAN ganha profundidade estratégica, a Europa ganha acesso a matérias-primas essenciais para a transição energética, e a Groenlândia ganha autonomia financeira.”
Para a França, o anúncio chega em um momento delicado. Paris tem se posicionado como defensora da “autonomia estratégica europeia” e, nos últimos anos, tentou ampliar sua presença no Ártico, inclusive com exercícios navais conjuntos com a Noruega. O acordo EUA-Dinamarca, no entanto, escancara a dependência europeia da infraestrutura militar americana e coloca em xeque a capacidade do bloco de agir sem Washington.
O Ministério das Relações Exteriores da França emitiu uma nota comedida, afirmando que “acolhe com satisfação qualquer iniciativa que fortaleça a segurança coletiva, mas ressalta a necessidade de transparência e de respeito aos interesses de todos os membros da União Europeia”. Nos bastidores, diplomatas franceses demonstram incômodo com a exclusão de Bruxelas das negociações e com o fato de a Dinamarca ter agido unilateralmente.
Apesar das reservas, a realidade geopolítica é implacável. O Ártico derrete em ritmo acelerado, abrindo novas rotas comerciais e expondo reservas de petróleo, gás e minerais críticos. A Rússia já modernizou suas bases na região, e a China se apresenta como “observador” no Conselho do Ártico, mas financia projetos de infraestrutura na Islândia e na Noruega. Sem o guarda-chuva americano, a Europa teria de multiplicar seu orçamento de defesa em pelo menos 40% para igualar a capacidade de dissuasão.
Por que isso importa para o liberalismo? Porque o acordo é um exemplo clássico de como a liberdade econômica e a segurança andam de mãos dadas. Ao permitir que o capital americano – com suas garantias contratuais e respeito à propriedade intelectual – explore os recursos groenlandeses, a Dinamarca optou por um caminho de prosperidade e transparência, em vez de estatismo ou dependência de subsídios públicos. O fundo de desenvolvimento, gerido por uma joint venture público-privada, prevê licitações abertas e cláusulas anticorrupção.
A análise FORTIS é clara: a França deveria ver este acordo não como uma ameaça à sua autonomia, mas como um modelo a ser seguido. Em vez de construir castelos de areia retórica sobre “soberania europeia”, Paris deveria buscar parcerias bilaterais com os EUA e com países nórdicos para garantir acesso a recursos e bases logísticas. O protecionismo e a desconfiança em relação ao mercado apenas enfraquecem o continente diante de rivais autoritários.
Contraponto: críticos do acordo apontam que a Dinamarca abriu mão de controle sobre decisões militares e ambientais na Groenlândia, e que o fundo de desenvolvimento pode não chegar às comunidades inuítes. Organizações ambientalistas alertam para o risco de exploração predatória de minérios. A resposta liberal é que contratos bem desenhados, com cláusulas de desempenho e auditoria independente, são mais eficazes do que qualquer burocracia estatal para garantir sustentabilidade e justiça social.
No fim, o que se vê é a realpolitik do século XXI: nações que abraçam a cooperação voluntária e os mercados saem na frente. A Dinamarca entendeu isso. A França, se quiser continuar relevante no Ártico, precisa abandonar o complexo de inferioridade e aceitar que a aliança com os EUA não é submissão – é inteligência estratégica.
**1. O acordo significa que a Groenlândia se tornará território americano?** Não. A soberania continua dinamarquesa, e o parlamento groenlandês mantém o poder de decidir sobre um eventual processo de independência. O acordo é um tratado de defesa e cooperação econômica, sem transferência de território. A Dinamarca apenas cedeu direitos de exploração e uso militar por prazo determinado.
**2. Como a França pode se beneficiar desse acordo?** Paris pode negociar acordos paralelos com a Dinamarca e os EUA para ter acesso preferencial a minerais estratégicos extraídos na Groenlândia, além de participar de exercícios militares conjuntos na região. A chave é agir como parceiro, não como concorrente. Empresas francesas do setor de defesa e energia já demonstraram interesse em se instalar na ilha.
Por Renan Filho · 2026-09-19