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Economia

Cour des comptes alerta sobre déficit, mas políticos ignoram: o preço do Estado inchado

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

O Tribunal de Contas francês acaba de divulgar seu relatório anual sobre a situação das finanças públicas. O diagnóstico é grave: dívida acima de 115% do PIB, déficit primário persistente e nenhum plano crível de ajuste. Mas, em vez de ouvir os números, o governo e o Parlamento preferem o silêncio e novas despesas.

O Tribunal de Contas da França (Cour des comptes) publicou nesta semana seu relatório anual sobre a execução orçamentária de 2025. O documento, assinado pelo primeiro presidente Pierre Moscovici, aponta que o déficit público fechou o ano em 5,8% do PIB, bem acima dos 4,9% prometidos ao Bruxelas. A dívida bruta, por sua vez, ultrapassou a barreira dos 115% do Produto Interno Bruto, pressionando os juros e corroendo a credibilidade fiscal do país.

O relatório destaca que, mesmo com o crescimento nominal ajudando a amortecer o impacto, as despesas correntes cresceram 2,3 pontos percentuais acima da inflação. A principal responsável é a máquina pública: salários, previdência e subsídios sociais consomem 56% do orçamento primário. A Cour des comptes recomenda, em publicação oficial, um congelamento imediato de novas contratações no setor público e uma revisão dos mecanismos de indexação de pensões.

Contudo, a reação política foi de completo desinteresse. O ministro da Economia, em declaração à imprensa durante coletiva em Bercy, limitou-se a dizer que “as contas serão ajustadas no médio prazo” e que o governo mantém a meta de déficit abaixo de 3% em 2027 – mesma promessa que já foi descumprida nos dois últimos anos. Na Assembleia Nacional, nenhum debate de urgência foi convocado.

Por que isso importa? A França é a segunda maior economia da zona do euro e seu descalabro fiscal tem efeitos diretos sobre os spreads soberanos de toda a periferia. Quando o tesouro francês paga juros reais positivos – algo raro na última década –, o custo do financiamento de países como Itália e Espanha sobe na mesma proporção. O mercado já precifica um risco maior de rebaixamento da nota de crédito: a agência Moody’s, em nota de junho, rebaixou a perspectiva de estável para negativa, citando a “ausência de consenso político para consolidar as finanças”.

Para o contribuinte francês, cada ponto percentual de juros a mais sobre a dívida representa cerca de 12 bilhões de euros anuais que poderiam ser destinados a saúde, segurança ou redução de impostos. Em vez disso, vão para o bolso de credores, muitos deles estrangeiros. É a versão contemporânea do imposto inflacionário: o governo gasta hoje, empurra a conta para as próximas gerações e corrói o poder de compra via juros mais altos.

Análise FORTIS: A Cour des comptes não é ouvida porque suas recomendações exigem cortes reais em programas populares, e nenhum partido quer enfrentar sindicatos e aposentados organizados. O diagnóstico liberal é claro: o Estado francês cresceu além do que a economia pode sustentar. A carga tributária já é a maior da OCDE – 45,4% do PIB – e mesmo assim o déficit persiste. O problema não é falta de arrecadação; é a voracidade do setor público. Soluções como a reforma do sistema de pensões, que enfrentou protestos violentos em 2023, seguem engavetadas. A idade efetiva de aposentadoria na França é de 62,5 anos, contra 67 na Alemanha. Cada ano a menos na ativa custa aproximadamente 0,5% do PIB em contribuições perdidas e benefícios pagos.

O presidente da Comissão de Finanças da Assembleia Nacional, em entrevista à rádio France Info, defendeu que o governo precisa “dar um sinal de responsabilidade” cortando subsídios a empresas ineficientes e acelerando a privatização de participações estatais. A França ainda controla direta ou indiretamente mais de 80 empresas, de ferrovias (SNCF) a energia (EDF). Privatizações parciais, como as realizadas no Reino Unido nos anos 1980, poderiam injetar recursos e melhorar a eficiência. Mas o governo prefere segurar ativos e endividar-se.

Contraponto: O secretário de Estado do Orçamento, em entrevista ao jornal Le Figaro, argumentou que aumentar a idade de aposentadoria e cortar gastos sociais em um momento de desaceleração econômica seria “contraproducente e anti-social”. Ele defende que a solução virá pelo crescimento – via gastos verdes e digitalização – e que o déficit se corrigirá com o tempo, como ocorreu após a crise de 2008. O argumento ignora que, em 2008, a dívida era de 68% do PIB; hoje são 115%. O crescimento vegetativo não paga contas quando o estoque de dívida já é tão elevado. A experiência internacional mostra que países que adiaram ajustes fiscais – como a Itália nos anos 2000 – acabaram em estagnação perpétua.

Enquanto a Cour des comptes grita no deserto, o próximo orçamento para 2026 já está em elaboração. Vazamentos indicam que o governo planeja um novo pacote de medidas sem cortes efetivos, mas com aumento seletivo de impostos sobre combustíveis e heranças. Em outras palavras, mais Estado, menos liberdade econômica. O relatório do Tribunal de Contas será debatido na comissão mista do Parlamento apenas em novembro, depois de esfriar na gaveta do primeiro-ministro.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.