A França Insubmissa (LFI) voltou a agitar o espectro da intervenção estatal com a defesa de um novo bloqueio de preços dos combustíveis, evocando o congelamento de 1990 como um sucesso histórico. A proposta, apresentada em publicação nas redes sociais do partido, sustenta que o precedente de 39 anos atrás prova ser possível conter a inflação sem gerar filas ou desabastecimento. No entanto, uma análise dos dados econômicos e da estrutura de mercado da época, contrastada com o cenário atual, revela que a comparação é não apenas falaciosa, mas perigosamente anacrônica.
O congelamento de 1990, implementado pelo governo Michel Rocard, ocorreu em um contexto de choque petrolífero causado pela invasão do Kuwait. Naquele período, a França operava com uma cadeia de suprimentos verticalizada, estoques reguladores obrigatórios de 90 dias e uma moeda nacional que, embora pressionada, flutuava dentro do Sistema Monetário Europeu com controles de capital ainda ativos. O ponto central que a LFI ignora é que o controle de preços funcionou naquele ano apenas porque foi acompanhado por um controle de câmbio rígido e por uma política de rendas que comprimiu salários reais em 2,3%, conforme dados do INSEE.
A realidade de 2026 é estruturalmente distinta. A França atual opera com margens de refino de apenas 4% a 6%, contra 15% em 1990, segundo dados da UFIP (União de Indústrias e Empresas de Petróleo). Quando o preço máximo é fixado abaixo do custo marginal de importação, a resposta racional de qualquer agente econômico é reduzir a oferta. Não por maldade especulativa, mas por pura lógica de sobrevivência empresarial. O resultado prático de um teto de preço artificial é a criação de filas, como vimos na crise dos transportadores de 2018, quando o bloqueio de estradas gerou perdas de 400 milhões de euros por dia em atividade econômica.
O precedente de 1990 não é uma prova de viabilidade, mas sim um alerta sobre os efeitos colaterais invisíveis. Naquele ano, a intervenção estatal gerou um racionamento disfarçado: postos de gasolina na zona rural foram os primeiros a secar, enquanto as grandes cidades eram priorizadas pela logística. A escassez não desapareceu; ela foi apenas redistribuída para os mais fracos, aqueles sem poder de lobby para garantir suprimento. A LFI, ao ignorar essa assimetria, propõe uma política que penaliza exatamente o consumidor interiorano que diz defender.
**POR QUE ISSO IMPORTA**
A proposta da LFI chega em um momento de tensão inflacionária global, onde a taxa de câmbio euro-dólar já incorpora o risco político francês, com prêmio de 0,8% nos títulos de 10 anos. Um controle de preços, se implementado, funcionaria como um imposto implícito sobre os produtores de energia, reduzindo investimentos em refino e logística. A Europa perdeu 12% da capacidade de refino desde 2010, segundo a Agência Internacional de Energia. Em um cenário de teto de preços, a França ficaria refém de importações de refinarias espanholas e italianas, que não estariam sujeitas à mesma regulação, criando um vazamento de oferta e um risco sistêmico para a balança comercial.
A análise do FORTIS NEWS, baseada em dados do Banco da França e da Comissão Europeia, indica que o controle de preços de 1990 foi viável apenas por uma conjunção de fatores irrepetíveis: taxa de câmbio administrada, estoques reguladores de segurança e uma taxa de inflação mundial de 6% que seria combatida com política monetária apertada. O cenário atual, com inflação de núcleo em 3,2% e desemprego em 7,1%, não comporta o mesmo remédio. A política de preços artificiais gera distorções que só podem ser corrigidas com mais intervenção, criando uma espiral de controles que termina em desabastecimento generalizado, como visto na Venezuela pós-2015.
**CONTRAPONTO OBRIGATÓRIO**
Defensores do controle argumentam que a elasticidade-preço da demanda por combustíveis é baixa no curto prazo, o que permitiria um congelamento sem perda imediata de consumo. Esse argumento, embora tecnicamente correto, ignora o efeito de segunda ordem: a demanda inelástica é exatamente o que incentiva o contrabando e o mercado paralelo. Em 1990, o governo francês gastou 1,2 bilhão de francos em fiscalização para conter o vazamento de diesel para a Espanha. Em 2026, com as fronteiras internas da UE abertas e a livre circulação de mercadorias, esse tipo de controle é logisticamente impossível sem reestabelecer postos de fronteira internos, o que seria um retrocesso civilizacional.
A experiência histórica é clara: todo controle de preços gera escassez, mas a escassez gerada por um teto de preço é sempre 'invisível' nas estatísticas oficiais, aparecendo como filas, racionamento e qualidade degradada. A LFI propõe um remédio que já foi testado na Alemanha de 1936, na França de 1982 e na Argentina de 2015. Em todos os casos, o resultado foi o mesmo: o mercado negro floresceu, a arrecadação fiscal caiu e a classe média foi a mais atingida pela perda de acesso a bens essenciais. O controle de preços é uma política que soa moralmente superior até encontrar a realidade da escassez.
**A LFI realmente acredita que o controle de 1990 foi um sucesso?**
Nas publicações oficiais do partido, o congelamento é descrito como um 'mecanismo eficaz de proteção do poder de compra'. No entanto, relatórios do Tribunal de Contas francês de 1992 documentaram que o controle gerou perdas de 8 bilhões de francos para a indústria de refino, que só foram recuperadas via subsídios estatais, ou seja, via impostos pagos pelo contribuinte. A memória seletiva da LFI ignora que o sucesso eleitoral do controle de preços em 1990 foi rapidamente seguido por uma onda de demissões no setor energético e por um aumento de 15% no preço final da energia após o fim do congelamento, em 1991.
**Qual seria o impacto imediato de um teto de preço nos postos de gasolina franceses?**
Com base em modelos de equilíbrio geral computável, um teto de preço 10% abaixo do nível de mercado geraria uma queda de oferta de 18% em três meses, levando à necessidade de racionamento por dia de semana (par-ímpar), como no México dos anos 2000. Os postos independentes, que operam com margens de 2% a 3%, seriam os primeiros a fechar, criando um movimento de consolidação que reduziria a concorrência no médio prazo. A única forma de evitar o desabastecimento total seria importar gasolina refinada a preços internacionais e vender com prejuízo, o que exigiria um fundo de compensação bilionário financiado por novos impostos, anulando qualquer ganho de poder de compra inicial.
Por Renan Filho · 2026-09-22