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Berlim: A candidata de esquerda Elif Eralp quer a prefeitura — e o mercado imobiliário que se cuide

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

A candidata da esquerda à prefeitura de Berlim, Elif Eralp, promete intervenção estatal no setor de moradia e uma agenda de transporte que desafia a lógica econômica. Para liberais, a vitória dela seria um retrocesso de décadas em inovação urbana.

A corrida pela prefeitura de Berlim ganhou um contorno ideológico definitivo com a candidatura de Elif Eralp, nome da ala mais à esquerda do partido Die Linke. Em um cenário de inflação imobiliária e pressão popular por moradias, a candidata aposta em um discurso de intervenção estatal direta, com promessas de desapropriação de grandes proprietários e congelamento de aluguéis por tempo indeterminado. A proposta, embora popular em certos distritos, levanta alertas para economistas que enxergam na rigidez regulatória a receita clássica para o colapso do mercado de construção.

A campanha de Eralp, que tem se apresentado como uma alternativa ao establishment social-democrata do SPD, ganhou tração entre jovens ativistas e movimentos de ocupação. Em comícios recentes, a candidata afirmou que "moradia é um direito, não uma mercadoria" — uma frase que agrada a base, mas que esbarra na dura realidade fiscal da capital alemã. Berlim, que já sofre com um déficit crônico de investimentos em infraestrutura, veria seus cofres ainda mais pressionados por promessas de expansão de subsídios e criação de uma empresa pública de habitação que competiria com o setor privado.

O contexto é delicado: a Alemanha enfrenta uma desaceleração econômica, com o PIB projetado para crescer menos de 1% em 2026, e Berlim é um dos estados mais endividados do país. A proposta de Eralp de financiar suas políticas com um imposto sobre grandes fortunas e uma sobretaxa sobre transações imobiliárias esbarra em obstáculos constitucionais e na resistência do setor empresarial. Mesmo dentro da própria esquerda, há vozes críticas que alertam para o risco de uma fuga de investidores, como já ocorreu em cidades que adotaram políticas similares, como Barcelona e Amsterdã.

Por que isso importa: a eleição em Berlim não é apenas uma disputa local, mas um teste para a viabilidade de políticas econômicas intervencionistas no coração da Europa. Se Eralp vencer, o efeito simbólico será imediato — movimentos de esquerda em outras capitais europeias, como Paris e Madri, ganharão força para empurrar agendas semelhantes. Para o mercado, por outro lado, uma vitória dela significaria um prêmio de risco maior para ativos alemães, com impacto direto na cotação do euro e nos títulos da dívida pública. Investidores já demonstram cautela, com relatórios de bancos como o Deutsche Bank mencionando "risco político" em relatórios setoriais sobre o setor imobiliário alemão.

A análise da FORTIS é objetiva: a candidatura de Eralp é um espelho da crise de representação que assola a social-democracia europeia, que se vê obrigada a radicalizar para sobreviver nas pesquisas. No entanto, a resposta intervencionista para os problemas de oferta habitacional é um erro de diagnóstico clássico. A escassez de moradias em Berlim não é resultado de falta de vontade política, mas sim de um zoneamento restritivo, custos de construção elevados e burocracia excessiva — todos fatores que a esquerda tradicional ignora. Em vez de atacar a propriedade privada, a candidata deveria defender a liberalização do solo e a redução de impostos sobre a construção, medidas que criariam oferta real e reduziriam os preços sem a necessidade de expropriação.

Há, porém, um contraponto que precisa ser considerado. A popularidade de Eralp não é fruto do acaso: ela responde a um sentimento legítimo de frustração com a gentrificação e a desigualdade crescente. Em um país onde 45% dos inquilinos gastam mais de 30% da renda com aluguel, a mensagem de proteção ao locatário encontra eco. A questão é que a solução não está em congelar preços, mas em remover as amarras que impedem a construção de novos empreendimentos. Se a esquerda realmente quiser ajudar a classe trabalhadora, deveria olhar para exemplos como o Japão, onde a flexibilização do zoneamento manteve os preços estáveis por décadas, mesmo em Tóquio, uma das cidades mais densas do mundo.

A candidata também propõe uma política de transporte agressiva, com a expansão de ciclovias e a transformação de avenidas inteiras em áreas de pedestres. Embora elogiada por ambientalistas, a medida enfrenta resistência de comerciantes e motoristas, que veem na proposta um ataque à mobilidade individual. Em um país onde a indústria automotiva é um dos pilares econômicos, a retórica anti-carro de Eralp pode custar caro em distritos operários, que não por acaso são os mais indecisos nas pesquisas. A candidata tenta equilibrar o discurso, mas a base de sua campanha parece mais preocupada em agradar ao eleitorado jovem de Kreuzberg do que em dialogar com as famílias que dependem do carro para trabalhar.

A eleição, marcada para outubro, promete ser uma das mais disputadas dos últimos anos, com a candidata da CDU, partido conservador, liderando as intenções de voto, mas sem conseguir abrir vantagem sobre a esquerda fragmentada. Eralp, que ficou em terceiro lugar nas pesquisas, pode se tornar o fiel da balança em um eventual governo de coalizão — uma posição que lhe daria poder de barganha para implementar parte de sua agenda, mesmo sem vencer. Para o mercado, o cenário mais provável é o de um impasse político, com consequências negativas para a aprovação de reformas estruturais.

Em uma análise crua, a ascensão de Eralp é sintomática de uma esquerda que se recusa a aprender com os erros do passado. As políticas de controle de aluguéis já foram tentadas em cidades como Estocolmo e São Francisco, e os resultados foram sempre os mesmos: deterioração do estoque imobiliário, redução da mobilidade residencial e aumento da segregação econômica. Berlim, que já viveu o drama da divisão e da reunificação, deveria saber que o planejamento centralizado não é capaz de substituir as forças de mercado. A candidata, no entanto, parece determinada a transformar a cidade em um laboratório de ideias que já foram refutadas pela história.

O que se espera agora é que os eleitores façam a escolha certa. A capital alemã, que se reconstruiu das cinzas da guerra e do muro, não merece ser refém de uma ideologia que trata o capital privado como inimigo. A liberdade econômica é o que garante a prosperidade, e qualquer política que a restrinja está fadada a criar mais pobreza e desigualdade. A candidata Eralp, com suas promessas de controle estatal, representa o oposto disso — e é dever dos liberais apontar os riscos de sua eleição para o futuro de Berlim.

A cobertura da imprensa internacional, aliás, tem sido curiosa: enquanto veículos como o The Guardian e o Le Monde tratam a candidatura de Eralp com simpatia, a imprensa econômica alemã, como o Handelsblatt, não poupa críticas. Em editorial recente, o jornal classificou as propostas da candidata como "populismo de esquerda" que "ignora as leis básicas da oferta e da procura". A reação da campanha foi de ataque à imprensa, acusando os veículos de defenderem os interesses de uma elite que lucra com a especulação imobiliária. Uma narrativa que, embora eficaz, não resiste aos dados: 70% dos novos imóveis em Berlim são construídos por pequenos e médios investidores, não por grandes corporações.

Em suma, a eleição para a prefeitura de Berlim é mais um capítulo na batalha ideológica que assola o Ocidente. De um lado, os que acreditam no poder do Estado para corrigir as falhas de mercado; do outro, os que defendem a liberdade individual e a propriedade privada como pilares do progresso. Elif Eralp, com seu discurso inflamado e suas propostas radicais, personifica o primeiro grupo. A esperança é que os berlinenses, que já viveram o inferno do socialismo real, tenham memória suficiente para não repetir os erros do passado. A liberdade, como diz o ditado, não é um presente — é uma conquista diária. E Berlim, a cidade que já foi o símbolo da divisão, tem a chance de ser novamente o símbolo da união em torno de valores que realmente importam.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.