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Bayrou se agarra à prévia do centro: “Primária” do MoDem tenta conter sangria liberal antes de 2027

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

François Bayrou apresentou as regras da primária interna do MoDem para 2027. Sob pressão de uma direita radicalizada e de uma esquerda que não desiste, o centrista tenta transformar o partido em anteparo viável — mas o mercado político já descontou sua irrelevância.

Na abertura do encontro de rentrée do MoDem, em Lille, François Bayrou detalhou as regras da primária que pretende organizar para a sucessão presidencial de 2027. Em publicação nas redes sociais, o partido afirmou que a consulta será aberta a todos os franceses que se comprometam com os valores “sociais-liberais e europeístas” da legenda. Aos olhos do mercado político, o movimento é tardio e frágil.

Segundo o parlamentar em entrevista à Rádio France, a primária ocorrerá em maio de 2026 e não exigirá filiação prévia — bastará uma declaração de adesão aos princípios do movimento. Bayrou aposta na capilaridade dos quadros locais e na força do “centro como estabilidade”. Ocorre que o centro na França encolheu. O macronismo desidratou a base moderada, e a polarização entre Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon estrangulou o espaço de terceira via.

Os números não mentem: o MoDem elegeu 42 deputados em 2022 — e desde então perdeu ao menos 5 para outras siglas ou por aposentadoria. Pesquisa da OpinionWay em agosto de 2025 mostra Bayrou com 4% das intenções de voto. Para efeito de comparação, o nanico Partido Comunista tem 3%. É um enquadramento de irrelevância eleitoral que a primária tenta reverter.

**Por que a primária importa para o liberalismo francês?**

Na visão liberal, a fragmentação do centro é um desserviço à agenda de reformas pró-mercado. Emmanuel Macron conseguiu avançar com a reforma da Previdência e a flexibilização trabalhista justamente porque concentrou o poder no Executivo. Se a oposição de centro se pulverizar, o eleitor moderado migrará em bloco para o Rassemblement National ou para a França Insubmissa — ambientes hostis ao livre comércio, à desregulamentação e à integração europeia.

A primária de Bayrou, portanto, não é um exercício democrático qualquer. Ela é uma tentativa de reter o capital político que ainda resta no campo do centro para viabilizar, quem sabe, uma candidatura única que concorra com a direita radical e a esquerda antiliberal. O problema é que o capital político, como qualquer ativo, depende de liquidez — e a liquidez de Bayrou está seca.

**Análise FORTIS: o mercado já se posicionou contra o centrismo improvável**

Para o mercado financeiro, a indefinição do centro é fator de risco fiscal. Investidores acompanham de perto as primárias como sinalizadores de coalizões futuras. Se Bayrou não conseguir atrair os macronistas remanescentes e uma fatia do eleitorado de Édouard Philippe, a candidatura de centro será apenas um desperdício de votos no primeiro turno. Conforme nota oficial do think tank liberal Fondation pour l’Innovation Politique, “a sobrevivência do centro depende de uma liderança nova, com credibilidade fiscal e coragem para cortar gastos e reduzir a carga tributária”. Bayrou não é essa liderança.

O ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, embora não tenha anunciado candidatura, já sinalizou a interlocutores econômicos que não participará de primária de partido pequeno. Em conversa com representantes do Medef, conforme apurou a revista Challenges, Philippe afirmou que “o centro precisa de um nome com densidade presidencial, não de uma primária que reorganize a periferia”. A declaração ecoa a percepção do mercado de que Bayrou é um jogador secundário.

**Contraponto: a primária como último ato de coerência liberal**

Defensores de Bayrou argumentam que a primária é exatamente o que o sistema político francês precisa: um mecanismo de filtragem de candidaturas extremas, com regras claras e abertura a independentes. Em declaração à imprensa, o deputado MoDem Jean-Louis Bourlanges disse que “a primária impede que o debate presidencial seja monopolizado por radicais”. Do ponto de vista liberal, há lógica na afirmação: quanto mais opções moderadas, menor a probabilidade de um presidente intervencionista.

Ocorre que o liberalismo econômico não se contenta com intenções; ele exige resultados. O orçamento francês de 2025 prevê déficit de 4,4% do PIB, e a dívida pública ultrapassou 112% do PIB. Nesse cenário, a mensagem de Bayrou — “estabilidade, Europa, diálogo social” — soa como música ambiente para um paciente na UTI. O eleitor mediano, que sente no bolso o peso dos impostos e a inflação, não quer centro; quer ruptura. E a primária do MoDem não oferece ruptura.

**Cenário para 2027: mais do mesmo ou implosão do centro**

Se Bayrou insistir na primária e não conseguir atrair Philippe ou outro nome de peso, o MoDem pode terminar 2027 como o partido que perdeu o bonde da história. Por outro lado, se a primária evoluir para uma “prévia das primaveras” — com candidaturas múltiplas e debate real de ideias —, o centro pode renascer. A dúvida, posta em termos de análise de risco, é se o mercado político dará crédito a esse renascimento antes que as urnas confirmem a morte.

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**1. A primária do MoDem pode realmente mudar o quadro eleitoral francês?** A primária só terá efeito relevante se conseguir atrair os eleitores de Édouard Philippe e de uma fatia do macronismo descontente. Se for apenas um processo interno do MoDem, com candidatos de baixa densidade eleitoral, funcionará como ruído — não mudará o equilíbrio de forças. O mercado continuará precificando uma polarização entre Le Pen e Mélenchon no segundo turno, com o centro como coadjuvante.

**2. Qual a posição dos liberais franceses em relação a essa primária?** Os liberais ortodoxos (como os filiados ao partido Les Républicains liberais e à associação Génération Libre) desprezam a primária por considerá-la uma manobra para manter o poder de Bayrou, e não um instrumento de renovação programática. Defendem que o centro deve unificar-se em torno de uma plataforma de reformas estruturais — corte de impostos, redução do Estado, flexibilização trabalhista — e não em torno de um nome ou de um partido. A primária, nessa visão, é a antítese do liberalismo porque engessa a competição política em vez de ampliá-la.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.