O tabuleiro eleitoral francês de 2027 ganhou um movimento ousado. Gabriel Attal, em declaração à imprensa na manhã desta quinta-feira, 19 de setembro, anunciou a criação de um comitê de formulação programática chefiado por dois nomes que estiveram ao lado de Emmanuel Macron desde a fundação do movimento "En Marche!": o deputado Roland Lescure e a ex-ministra da Indústria, Agnès Pannier-Runacher. A missão do duo é clara: refinar o projeto econômico e social de Attal para torná-lo uma alternativa crível tanto ao bloco de esquerda radical quanto à extrema direita.
A escolha não é aleatória. Lescure, ex-presidente da Comissão de Assuntos Econômicos da Assembleia Nacional, é conhecido por sua defesa intransigente da redução de impostos sobre a produção e da desburocratização. Pannier-Runacher, por sua vez, foi a executora da política de reindustrialização verde, mas sempre com ênfase em parcerias público-privadas e incentivos fiscais, em vez de subsídios estatais diretos. Em publicação nas redes sociais, Attal afirmou que o objetivo é "construir uma França que produza, inove e proteja sem estrangular o empreendedor".
O timing é preciso. Com a aprovação do presidente Macron em queda livre e a fragmentação da base centrista, Attal precisa se diferenciar sem romper com o legado que o projetou. O liberalismo econômico, para ele, não é uma herança maldita, mas a única via para evitar o colapso fiscal. A dívida pública francesa já ultrapassa 112% do PIB, e o déficit comercial permanece teimoso. Para o mercado, a sinalização é de que não haverá recuo nas reformas trabalhistas nem na política de oferta.
**Por que isso importa**
A França está em uma encruzilhada silenciosa. Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional, lidera as intenções de voto para o primeiro turno, mas enfrenta um teto de vidro no segundo. Jean-Luc Mélenchon, da França Inquieta, tenta unificar a esquerda em torno de um programa de estatização e controle de preços. Attal, com apenas 35 anos, representa a aposta de que o eleitorado francês ainda prefere liberdade econômica a protecionismo, desde que o discurso seja embalado em eficiência e resultados.
O duo Lescure-Pannier-Runacher deve focar em três eixos: desoneração da folha de pagamento, simplificação regulatória para PMEs e uma reforma do sistema de pensões que vá além do aumento da idade mínima. Segundo o parlamentar Roland Lescure em entrevista à Rádio Europe 1, "não podemos continuar sendo o país com a maior carga tributária da OCDE e esperar crescimento". Já Pannier-Runacher, em nota oficial, defendeu que "a transição ecológica só será possível se for lucrativa para as empresas, não se for um custo imposto pelo Estado".
**Análise FORTIS**
O movimento de Attal é um sopro de realismo em um cenário dominado por promessas fiscais insustentáveis. Enquanto Le Pen propõe reduzir o IVA da energia e Mélenchon defende um salário mínimo de 1.600 euros brutos, nenhum dos dois explica como financiarão essas medidas sem quebrar a França. Attal, ao recolocar o liberalismo no centro do debate, força uma discussão madura sobre produtividade e competitividade.
O risco, claro, é o cansaço do eleitorado com o "macronismo". Após dois mandatos de Emmanuel Macron, a percepção de que as reformas beneficiaram apenas o topo da pirâmide persiste. Attal precisa mostrar que o liberalismo pode ser inclusivo, o que exige uma agenda de desregulamentação aliada a cortes de impostos diretos para a classe média. Se o duo apresentar apenas mais do mesmo, a candidatura pode naufragar antes de chegar ao segundo turno.
**Contraponto**
Críticos dentro do próprio campo governista, como o ministro da Economia Bruno Le Maire, já expressaram reservas. Em conversas reservadas com a imprensa, Le Maire teria alertado que "um projeto excessivamente liberal pode abrir flanco para a esquerda acusar Attal de ser o candidato dos bancos". A ala social-liberal do partido, liderada por François Bayrou, também pressiona por uma ênfase maior em gastos sociais, como subsídios para creches e transporte público gratuito.
Do lado oposto, a esquerda radical já reage. Em nota, o deputado da França Inquieta, François Ruffin, classificou a dupla como "dois tecnocratas que nunca viram uma fábrica fechar". A acusação, embora retórica, encontra eco entre os trabalhadores do setor industrial, que perderam empregos com a deslocalização de fábricas nos últimos anos. Attal terá que equilibrar o discurso de competitividade com políticas de requalificação profissional e apoio a setores estratégicos.
**1. Gabriel Attal é o candidato natural do partido de Macron para 2027?** Não necessariamente. Embora Attal seja o nome mais forte do campo macronista, com pesquisas recentes do instituto Ifop mostrando 18% das intenções de voto no primeiro turno, ele ainda precisa vencer as prévias internas. O ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, hoje prefeito de Le Havre, também é cotado e representa uma ala mais conservadora. A nomeação do duo Lescure-Pannier-Runacher é uma tentativa de unificar o partido em torno de um projeto, e não de uma pessoa.
**2. Qual a principal diferença entre o projeto de Attal e o de Marine Le Pen?** A diferença central está na visão do Estado. Enquanto Le Pen defende um Estado protecionista, com barreiras alfandegárias e subsídios maciços a setores considerados estratégicos, Attal aposta na redução do tamanho do Estado e na desregulamentação para atrair investimento privado. Em termos práticos, Le Pen quer controlar preços e salários; Attal quer reduzir impostos e burocracia para que o mercado gere empregos. Ambos são críticos da União Europeia, mas Attal defende reformas internas, enquanto LePen flerta com o abandono do euro.
Por Renan Filho · 2026-09-21