A manhã desta sexta-feira (19) amanheceu com o cheiro de pólvora sobre o deserto saudita. Um ataque com drones e mísseis de cruzeiro atingiu a capital Riad, deixando pelo menos 12 feridos e danos significativos em uma base militar próxima ao aeroporto internacional. A autoria foi reivindicada por grupos houthis apoiados pelo Irã, que prometeram novas ações caso a coalizão liderada pela Arábia Saudita não cesse os bombardeios no Iêmen.
Em Washington, o tom é de preocupação imediata. Fontes do Departamento de Estado, em conversa com a imprensa americana, usaram a expressão 'escalada rápida' para descrever o cenário mais provável nas próximas 72 horas. A avaliação é de que o ataque não é um evento isolado, mas uma mensagem direta de Teerã à nova administração republicana, que assumiu com a promessa de reverter a política de apaziguamento adotada nos últimos anos.
A resposta do governo francês foi imediata e dura. O ministro da Defesa, em publicação nas redes sociais, classificou o ataque como 'uma violação flagrante do direito internacional' e anunciou o envio de duas fragatas de defesa aérea para o Golfo Pérsico, em caráter de urgência. A França, que já havia endurecido o discurso contra o programa de mísseis iraniano, agora age na prática, mas a pergunta que fica é: por que esperar até aqui?
O contexto é mais amplo do que uma simples resposta militar. A Arábia Saudita, historicamente sob o guarda-chuva de segurança dos EUA, vinha sinalizando uma reaproximação com o Irã, mediada pela China, em um acordo que nunca passou de um papel tímido sem garantias concretas. O ataque a Riad é a prova cabal de que a diplomacia sem dissuasão é convite para agressões. O regime dos aiatolás interpreta concessões como fraqueza, e a história recente confirma: cada recuo ocidental é seguido de novos avanços.
Por que isso importa agora? Porque a economia global, ainda se recuperando da inflação e das disrupções logísticas, depende do fluxo de petróleo e gás do Golfo. Um conflito aberto entre a Arábia Saudita e o Irã, ou mesmo uma escalada contínua, poderia elevar o preço do barril para patamares acima dos US$ 120, impactando diretamente o custo de vida no mundo inteiro. O liberalismo econômico não sobrevive em um ambiente de insegurança crônica; ele prospera sob a paz armada, que exige gastos militares robustos e alianças confiáveis.
A análise da FORTIS é clara: o Ocidente paga agora o preço de anos de desinvestimento em defesa e de uma política externa que priorizou o 'engajamento' em detrimento da dissuasão. O acordo nuclear de 2015, que jamais foi um tratado, entregou bilhões em alívio de sanções ao Irã em troca de promessas vagas e inspeções burocráticas. O resultado está aí: mísseis voando sobre a capital do principal exportador de petróleo do mundo, enquanto a França envia navios para apagar um incêndio que poderia ter sido evitado com postura firme desde o início.
A resposta de Paris, embora tardia, é um passo na direção certa. O presidente francês, em declaração à imprensa, afirmou que 'a França não se curvará à ameaça terrorista' e que 'a liberdade de navegação no Golfo não é negociável'. No entanto, a eficácia dessa postura dependerá de coordenação com os EUA e, principalmente, da disposição de escalar a resposta militar se necessário. Não se negocia com quem só entende a força, e o regime iraniano, pressionado por sanções e protestos internos, pode estar tentando externalizar a crise.
O contraponto vem de setores mais cautelosos dentro do próprio establishment de segurança europeu. Analistas alertam que uma resposta militar ocidental direta contra alvos no Irã poderia desencadear uma guerra regional de proporções imprevisíveis, com o Hezbollah no Líbano e as milícias na Síria e no Iraque atacando simultaneamente. Eles defendem que a solução passa por retomar o acordo nuclear, mas com cláusulas mais rígidas e inspeções permanentes. A objeção é compreensível, mas ignora o fato de que o Irã já cruzou todas as linhas vermelhas possíveis sem sofrer consequências.
Enquanto isso, os mercados reagem com volatilidade. As bolsas europeias abriram em queda, e o preço do ouro atingiu máximas históricas. Investidores buscam refúgio em títulos do Tesouro americano, sinalizando que a confiança na estabilidade regional está abalada. A Arábia Saudita, por sua vez, convocou o Conselho de Segurança da ONU para uma reunião de emergência, mas a inação do Conselho diante de crises anteriores sugere que a ação efetiva virá de coalizões de nações dispostas a agir.
O episódio de Riad é um divisor de águas. Ou o Ocidente decide, de uma vez por todas, impor custos reais ao Irã e seus aliados, ou assistirá à desintegração da ordem liberal que garantiu décadas de prosperidade. A escolha é clara: permanecer na defensiva, com discursos firmes e ações tímidas, ou adotar uma postura de dissuasão crível, com investimento em defesa e vontade política de usar a força quando necessário. A história não perdoa a indecisão, e o mundo está de olho.
A não ser que os líderes em Washington e Paris queiram transformar o Golfo em um novo campo de batalha permanente, com custos humanos e econômicos incalculáveis, é hora de agir com coragem. A liberdade não se mantém sozinha; ela exige vigilância, poder e, acima de tudo, a coragem de defender os próprios princípios. O ataque a Riad é um lembrete de que o preço da paz é eterno, e que a fraqueza, ao contrário da força, sempre provoca o pior.
Por Renan Filho · 2026-09-20